Olhamos aquele amontoado de páginas, de palavras, de letras e dizemos: uau. O primeiro livro grande – realmente grande, daqueles que podem nos fazer pensar “será que eu consigo?” – a gente nunca esquece. Pelo menos eu não esqueci.
Foram 1091 páginas. Seis dias de leitura, em uma época que eu tinha muitas horas mais no meu dia, entre a lição de casa e a hora de dormir. E devorei estas páginas com a fome que, descobri, nunca mais me abandonaria. Que me formaria como leitora.

Acompanhei as garotas Judith e Loveday, conheci suas famílias, me diverti em suas festas. Estive junto com todos os meus adorados e adoráveis personagens durante o período de guerra, e com eles sofri.
O Regresso, de Rosamunde Pilcher, não foi só o primeiro livro enorme que li. Foi o primeiro que me deixou uma noite em claro. Foi o primeiro a me fazer soltar um grito abafado quando, sem piedade, sua autora fez desaparecer um ente querido da história. Foi o primeiro livro que me ensinou que literatura tem um poder extraordinário sobre nós: de nos tirar do nosso lugar e de nos ensinar algo sobre a vida.
Então atravessei aquela montanha de páginas – que depois não eram mais páginas, eram significados, lembranças carinhosas e lições – vendo a lombada se movendo gradativamente, bem aos poucos. Até chegar aquele momento em que o livro pôde se equilibrar, dividido exatamente ao meio, significando que eu estava quase lá, no meio de minha jornada. Até chegar à última página, quando o livro pendeu todo para a esquerda, tão pesado que era. Sensação de dever cumprido. Sensação de batalha ganha. Sensação de explosão. Uau.
Assim, nunca esquecerei o quanto analisei, namorei, e percorri com meus dedos a capa daquele livro, até decidir que era a hora de descobrir o que suas páginas continham. E nunca esquecerei que delícia foi a concretização de sua leitura. Depois do primeiro, os livros grandes não são mais um desafio – só, talvez, pela falta de tempo, a tristeza dos leitores adultos. São, sim, atrativos, chamados de prazer para sentir novamente aquela sensação. Dever cumprido.

Perto dele, Lolita fica assim: pequeno, pequeno.
***
Para quem quer conhecer um pouco mais do livro: O Regresso (1995), da inglesa Rosamunde Pilcher, conta a história de Judith Dunbar, garota que vai morar com a colega de internato Loveday Carey-Lewis na mansão de sua família. Diana, o Coronel, e os irmãos Athena e Edward conquistam o afeto da menina para sempre, e juntos enfrentam o período da II Guerra Mundial.
