Annabel Lee e outros

Algumas coisas legais que vi durante a semana:

1. Postei (aqui) uma palestra do designer gráfico Chip Kidd no TED, sobre o processo de criar capas de livros. Agora, é uma reportagem da BBC sobre o assunto (vi no Posfácio).

2. Por falar em capas de livro, o The Book Cover Archive reúne centenas delas.

3. O poema Annabel Lee, do americano Edgar Allan Poe, em forma de quadrinhos: partes 12345 e 6. Os desenhos são de Julian Peters.

4. O anúncio de um kit para você virar um Beatnik, no Não me Culpe pelo Aspecto Sinistro.

O olfato de Gabito

Como uma boa leitora da obra do colombiano Gabriel García Márquez, sempre achei curioso o gosto do autor por cheiros, odores, aromas e perfumes. Um sentido muitas vezes esquecido por nós, humanos, ganha importância em suas histórias e se mostra revelador na descrição de ambientes e personagens.

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Márquez abre Do amor e outros demônios, por exemplo, relacionando um cheiro aparentemente tão banal com um sentido nem tão convencional:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Em A Revoada, seu primeiro livro, publicado em 1955, são muitas as referências a odores. Grande parte delas se relaciona ao cheiro de putrefação do cadáver do Doutor após seu suicídio, acontecimento que norteia o livro, e o cheiro de podridão que a companhia bananeira deixou no povoado, com sua revoada de destruição. Mas uma, longe disso, tem um significado especial, mais amplo que a simples constatação de um cheiro. É uma lembrança:

Não há em toda casa um só cheiro que eu não reconheça. Quando me deixam sozinho no corredor, fecho os olhos, estendo os braços e caminho. Penso: “Quando sentir um cheiro de rum canforado, estarei no quarto do meu avô.” (…) Continuo caminhando e sinto o cheiro no mesmo instante em que escuto a voz de minha mãe, cantando no quarto. Então sinto o cheiro de alcatrão e de naftalina.
(…)
Essa noite, quando eu começava a dormir, senti um cheiro que não existe em nenhum dos outros quartos da casa. Era um cheiro forte e morno, como se alguém tivesse mexido num jasmineiro.
(…)
- Está sentindo? É como se houvesse jasmins em alguma parte.
Então ela [Ada] disse:
- É o cheiro dos jasmins que durante nove anos ficaram junto do muro.
Sentei-me em suas pernas.
-Mas agora não há jasmins – disse. E ela disse:
-  Agora não. Mas há nove anos, quando você nasceu, havia um jasmineiro plantado junto à parede do pátio. De noite fazia calor e cheirava como está cheirando agora.

Ela remonta uma lembrança da casa de seus avós em Aracataca, como descreve em sua autobiografia Viver para contar. “Cataca”, como chama a cidade carinhosamente, cheirava a jasmins no tempo em que morou lá. Porém, quando retornou anos depois com sua mãe para vender a casa, não encontrou o aroma que definia o pequeno povoado, agora destruído pela partida da companhia bananeira.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma de jasmins, o amor.

E as semelhanças entre a cidade ficcional de Macondo e Aracataca não são à toa: no mesmo livro, Márquez nos conta como a pequena cidade dos avós inspirou a criação do povoado que estaria em três livros seus. Voltando ao olfato, o mais próximo que cheguei de uma explicação por essa fascinação veio também de Viver para contar. Nele, Márquez conta como sua educação formou essa sensibilidade:

O consolo foi que em Cataca tinham aberto naqueles anos a escola montessoriana, cujas professoras estimulavam os cinco sentidos através de exercícios práticos, e ensinavam a cantar. Aprendi a apreciar o olfato, cujo poder de evocações nostálgicas é arrasador. O paladar, que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa. Na teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos, mas quem os tenha vivido os compreenderá de imediato.

Assim, o olfato vira um poderoso instrumento descritivo nas mãos do escritor colombiano. Então a reunião de depoimentos feitos a seu amigo, Plinio Apuleyo Mendonza, publicada aqui no Brasil pela Record, não poderia ter um nome que combinasse mais com o autor: Cheiro de Goiaba.

Desafios

Olhamos aquele amontoado de páginas, de palavras, de letras e dizemos: uau. O primeiro livro grande – realmente grande, daqueles que podem nos fazer pensar “será que eu consigo?” – a gente nunca esquece. Pelo menos eu não esqueci.

Foram 1091 páginas. Seis dias de leitura, em uma época que eu tinha muitas horas mais no meu dia, entre a lição de casa e a hora de dormir. E devorei estas páginas com a fome que, descobri, nunca mais me abandonaria. Que me formaria como leitora.

regresso

Acompanhei as garotas Judith e Loveday, conheci suas famílias, me diverti em suas festas. Estive junto com todos os meus adorados e adoráveis personagens durante o período de guerra, e com eles sofri.

O Regresso, de Rosamunde Pilcher, não foi só o primeiro livro enorme que li. Foi o primeiro que me deixou uma noite em claro. Foi o primeiro a me fazer soltar um grito abafado quando, sem piedade, sua autora fez desaparecer um ente querido da história. Foi o primeiro livro que me ensinou que literatura tem um poder extraordinário sobre nós: de nos tirar do nosso lugar e de nos ensinar algo sobre a vida.

Então atravessei aquela montanha de páginas – que depois não eram mais páginas, eram significados, lembranças carinhosas e lições – vendo a lombada se movendo gradativamente, bem aos poucos. Até chegar aquele momento em que o livro pôde se equilibrar, dividido exatamente ao meio, significando que eu estava quase lá, no meio de minha jornada. Até chegar à última página, quando o livro pendeu todo para a esquerda, tão pesado que era. Sensação de dever cumprido. Sensação de batalha ganha. Sensação de explosão. Uau.

Assim, nunca esquecerei o quanto analisei, namorei, e percorri com meus dedos a capa daquele livro, até decidir que era a hora de descobrir o que suas páginas continham. E nunca esquecerei que delícia foi a concretização de sua leitura. Depois do primeiro, os livros grandes não são mais um desafio – só, talvez, pela falta de tempo, a tristeza dos leitores adultos. São, sim, atrativos, chamados de prazer para sentir novamente aquela sensação. Dever cumprido.

lolita regresso

Perto dele, Lolita fica assim: pequeno, pequeno.

***

Para quem quer conhecer um pouco mais do livro:  O Regresso (1995), da inglesa Rosamunde Pilcher, conta a história de Judith Dunbar, garota que vai morar com a colega de internato Loveday Carey-Lewis na mansão de sua família. Diana, o Coronel, e os irmãos Athena e Edward conquistam o afeto da menina para sempre, e juntos enfrentam o período da II Guerra Mundial.

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O fim do Google Reader e algumas indicações

Já que o Google resolveu acabar com um dos seus melhores serviços, o  Google Reader, aproveitei minha mudança para outro leitor de feed e resgatei alguns posts e reportagens que estavam salvos como favoritos. Espero que gostem!

Como escrever uma boa resenha má, do Sérgio Rodrigues, no Todoprosa

Brazil: a user’s guide (em inglês), escrito pelo mexicano Juan Pablo Villalobos (autor de Festa no Covil), no site da revista Granta

Hypochondria – An inside look (em inglês), texto do Woody Allen para o The New York Times

La memoria ajena (em espanhol), no site da revista colombiana El Malpensante, em que o argentino Ricardo Piglia fala sobre seu conterrâneo Jorge Luis Borges

In theory: the unread and the unreadable, escrito por Andrew Gallix, no Guardian, e My new year’s resolution: read fewer books, por Michael Bourne no site The Millions, ambos sobre a nossa mania incansável de querer ler todos os livros do mundo (os dois em inglês)

O trompete-vocal de Cortázar, no blog da Cosac Naify, por Daniel Benevides

O inimigo número um de Macondo, em que a Raquel Cozer fala sobre o escritor André Caicedo, no Biblioteca de Raquel

Revistas literárias: Rascunho, veterana aos 12, entrevista que a Josélia Aguiar fez com Rogério Pereira (editor do Rascunho), no Livros Etc

***

Ufa! Bastante coisa, não?

Ah, para quem está procurando um leitor de feed novo, estou usando o The Old Reader e estou gostando bastante.

Dois presentes

Quando se trata de literatura venezuelana, infelizmente conheço muito pouco – quase somente Arturo Uslar Pietri, considerado um dos mais importantes escritores do Realismo Maravilhoso latino-americano. Mas, para minha felicidade, recentemente ganhei dois livros de autores daquele país, trazidos pelo Felipe, que passou um tempo lá à trabalho e aproveitou para pedir indicação a um livreiro. Como não conhecia nenhum dos autores, a curiosidade bateu e fui pesquisar um pouquinho para contar aqui.

libros

Mediáticos, Stefania Mosca 

Nascida em Caracas, em 1957, Stefania se formou em Letras e publicou livros de contos, poesia e romances. Colaborou com alguns jornais, como o colombinao El Especator e o mexicano El Universal. Morreu em 2009, vítima de câncer.

Devota

La joven mujer, como para cerrar los ojos por dentro y callar el cuerpo y detener estas palabras que suspiram, abre su libro de oraciones con un sagrado, sangrante e iluminado Corazón de Jesús en la portada. Lee. Son las mejores historias eróticas que conoce. El rubor de las mejillas y la desolada guía de su mirada hablan por si solas.

Todo un pueblo, Miguel Eduardo Pardo

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Pardo nasceu em 1868 e viveu até o ano de 1905. Era muito contestador, e sua escrita chegou a ser considerada agressiva. A crítica conservadora deixou Pardo por muito tempo na obscuridade, já que este romance é uma ”sátira feroz e ingeniosa de la sociedad venezolana” da época.

Y el sol, aquel fogoso y bravío que señorea por los espacios su deslumbradora fiereza; que incendia la atmósfera y relampaguea en los tejados, y arranca vahos de inmensa lujuria al seno hinchado de la tierra, dijérase que se revuelve también y se enrojece aun más y golpea furioso, despiadado, frenético, con sus sangrientos rayos la ventana que acaba de cerrarse.

Ainda não consegui ler nenhum deles, apesar de ter dado uma boa fuçada nos dois – principalmente no Mediáticos, que, por reunir vários textos curtinhos, é fácil de ler em qualquer lugar. Assim que conseguir, faço uma resenha para postar no blog.

PS:  Todo el pueblo,  publicado em 1899, mudou de nome em sua segunda edição, passando a se chamar Villabrava.

Sobre as ruas

“Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, a analisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal, como sonharam um mundo melhor. William Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas de parte alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.

Rimbaud, nas Illuminations, teve a ideia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céu cinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockeard, já sonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que Gustavo Khan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernal sulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá de sindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia, serão como elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.”

(Trecho de Alma encantadora das ruas, de João do Rio)