Uivo e outros poemas

uivo novoA leitura dramática do poema Uivo, realizada um ano antes de sua publicação, na Six Gallery de San Francisco, virou um dos marcos de início da contracultura americana e rendeu a Allen Ginsberg e seu editor um julgamento por referências pornográficas e a drogas ilícitas.

Apreendido pela polícia americana sob acusação de obscenidade, o livro Uivo e outros poemas é considerado uma das primeiras, e também principais, obras da Geração Beat. Lançado em 1956, conta com seis poemas que versam temas como sexualidade, repressão, religião e amor. Claro, também há inúmeras – e pesadas – críticas aos EUA, muito explícitas em América.

Uivo, o primeiro e mais longo poema, é uma enxurrada de aventuras vividas por Allen e os colegas beats. As viagens, amor livre e experiências alucinógenas do poeta são recriados por cenas fortes, construídas em ritmo tão rápido que soa raivoso. São pouco mais de dez páginas de versos longos, divididos em três partes, em que Ginsberg despeja sobre nós o seu descontentamento com o mundo e com as tradições.

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,/ arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa. / (…) que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica, / que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos” (Trecho de Uivo)

Em Sutra do Girassol e Transcrição de música de órgão, o beat mostra um lado espiritual. Já no nome podemos perceber a carga mística incorporada na poesia: Sutras são textos védicos religiosos ou filosóficos. Em ambos, as flores adquirem o caráter de companheiras do poeta solitário, juntamente com Jack Kerouac e as citações de William Blake.

puivo (2)p

Ginsberg encontra Walt Whitman entre as prateleiras abarrotadas de produtos em Um Supermercado na Califórnia, fazendo referência ao seu ídolo. Um pequeno poema de duas almas solitárias e atormentadas que se encontram em sonho. Canção, que encerra a obra, é quase delicado, como um suspiro após um grito de sufoco. Doloroso e amargo, nos mostra o autor sob um prisma de solidão latente.

“O peso do mundo/ é o amor./ Sob o fardo/ da solidão,/ sob o fardo/ da insatisfação./ o peso/ o peso que carregamos/ é o amor.”
(Trecho de Canção)

Em pleno controle ideológico decorrente da Guerra Fria, o tom anticapitalista e a espontaneidade do texto de Allen foram mal aceitos pelos críticos conservadores. Porém, a rejeição dos acadêmicos apenas reforçou sua popularidade e caráter de porta-voz, ao lado de Kerouac, da juventude insatisfeita.

Seja por seu delírio e misticismo ou pela linguagem crua e despretensiosa, a poesia de Ginsberg, como anuncia em Sutra do Girassol, é como um sermão nascido para salvar a alma do próprio autor – e das pessoas comuns que elegeram Uivo e outros poemas (L&PM) como uma “bíblia” da desilusão com o mundo.

PS: Essa ediçãoda LP&M inclui também Kaddish e outros poemas e é comentada.

Atualização: para quem quer saber mais da história de Allen Ginsberg e seus companheiros, fiz uma resenha do graphic novel “Os Beats”. É só clicar aqui para ver ;)

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