Os últimos soldados da Guerra Fria

Miami tem cerca de 400 mil habitantes. Desses, 70%, ou 270 mil pessoas, são de origem hispânica. Com uma das maiores comunidades cubanas fora de Cuba, a cidade é o palco do relato jornalístico Os últimos soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras), em que Fernando Morais conta a história dos agentes cubanos que se infiltraram em organizações anti-castristas.

guerra

A função dos agentes, que compunham a chamada Rede Vespa, era basicamente recolher e repassar ao Departamento de Serviços de Estado cubano o maior número de informações sobre as organizações contrárias ao regime de Fidel Castro, como a Hermanos al Rescate, Movimento Democracia e Alpha 66. Estas promoviam desde invasões ao espaço aéreo da ilha para jogar panfletos contra Castro, à ataques com bombas à centros turísticos da capital Havana. Com a ajuda das informações coletadas em Miami, dezenas de ataques terroristas dos anti-castristas puderam ser frustrados.

O livro acompanha de perto a história de dois agentes, René González e Juan Pablo Roque. A cada capítulo são acrescidos personagens, mas não abandonamos os dois principais, que nos acompanham até o final. Depois de certo ponto, quando há a “revelação” das atividades secretas de René, os personagens novos são tratados primeiramente como agentes, e suas vidas pessoais são deixadas em segundo plano. É uma importante mudança na narrativa de Morais, que deixa a história com mais ritmo.

O treinamento que os dez integrantes da Rede Vespa receberam do Departamento de Segurança de Estado foi tão minucioso que os fazia decorar biografias detalhadas das identidades falsas usadas nos Estados Unidos, com a repetição exaustiva das informações durante meses. Até perguntas como “Você se lembra do nome de algum dos professores ou funcionários da escola?” seria respondida pelos agentes com detalhes verdadeiros.

Também com base nos informes produzidos pela Rede Vespa, em pelo menos três ocasiões o Ministério das Relações Exteriores de Cuba conseguiu que a Guarda Costeira dos Estados Unidos (…) interceptasse embarcações procedentes da Flórida, carregadas de armas e explosivos, que se dirigiam ao litoral cubano para realizar atentados a pontos turísticos

Com a investigação em curso, acompanhamos o jogo de xadrez entre o Departamento de Segurança do Estado cubano e as organizações anti-castristas, como se estivéssemos lendo um romance policial. Estas incitavam o povo cubano a se rebelar contra a Revolução, como mostra a transmissão da rádio Voz de la Resistencia, em que o jornalista Enrique Enciosa chama a população a destruir as moendas das usinas de cana-de-açúcar e queimar a plantação: “A colheita de cana-de-açúcar está para começar. A safra deste ano deve ser destruída. No passado Castro prometeu 10 milhões de toneladas. Agora serão necessários 10 milhões de atos de sabotagem.”

O livro de Fernando Morais é recheado de fotos, dados numéricos, imagens de jornais e documentos, o que torna o relato de sua investigação jornalística muito mais rico e ilustrativo. O autor entrevistou quase 40 pessoas para a construção da narrativa. A linguagem é bem objetiva, sem muito enfeite. Apesar disso, algumas passagens têm um quê de jornalismo literário, com apego a fatos pequenos, aparentemente sem importância para a história geral, como o episódio do casamento entre Juan Pablo Roque e Ana Margarita Martínez, em que sabemos como estavam vestido os noivos, os principais convidados, como foi a festa e outros detalhes minuciosos.

Se a indústria de cinema de Hollywood sempre nos passou a imagem dos agentes secretos rodeados de carros importados, mulheres e festas, não é essa vida de luxo que se encontravam os agentes de Castro. Com um orçamento de 1000 dólares por mês cada um,  eles mostram que a atividade para o governo não é assim glamorosa. Como atesta Morais, “os 007 cubanos passavam o tempo contando tostões”.

A displicência dos Estados Unidos com as organizações traz o questionamento sobre o tipo de política praticada por eles. Um país que mantém uma prisão como Guantánamo, onde suspeitos de terrorismo são torturados e os direitos humanos esquecidos, não deveria simplesmente fechar os olhos para os atos de terrorismo planejados sob sua própria jurisprudência. Em uma entrevista, o líder de uma das organizações, José Basulto, ironiza a falta de ação do governo americano. ”Para nossa sorte, parece que o governo dos Estados Unidos está sempre de férias.” O que ele não sabia era que isso seria prejudicial aos quatro pilotos da Hermanos que pilotavam o Spirit of Miami e o Habana DC, ambos abatidos pelo poder militar cubano, o que resultou na morte dos quatro.

Se o governo americano foi displicente em certo momento, depois que descobriu as atividades da Rede Vespa certamente não o foi. A operação do FBI resultou nos agentes presos. Com certo revanchismo, a comunidade de Miami condenou cinco dos dez cubanos, sem, entretanto, refletir sobre a raiz da questão. Investigação, terrorismo e política internacional se combinam e andam juntos. Depois da leitura de Os últimos soldados da Guerra Fria, sentimos que finalmente tivemos acesso a um pouco do que acontece por trás dos panos no jogo interminável de cão e gato entre Estados Unidos e Cuba.

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