Duas literaturas?

Nunca tinha ido ao Fantasticon. E o Simpósio de Literatura Fantástica, que se encontra em sua sexta edição, me surpreendeu. Infelizmente não vou no próximo fim de semana, mas as palestras que assisti no dia de abertura do evento, sábado (15), valeram a visita à biblioteca Viriato Corrêa, pertinho do metrô Vila Mariana. Aliás, para os interessados em literatura fantástica, vale a pena conhecer a biblioteca.

A mesa de discussão Alta Literatura vs. Literatura de Entretenimento, para mim a melhor do dia, contou com a presença do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, a escritora Andréa del Fuego e do também escritor Luiz Bras (pseudônimo de Nelson de Oliveira), destaque da mesa.

Manuel da Costa Pinto começou a conversa destacando que, para ele, não existe distinção: existe Literatura. O que determinaria, assim, o que é ou não literatura, o que tem valor literário, é um consenso entre os leitores. Lembrando que Machado de Assis pode entreter tanto quanto Júlio Verne, afirmou que a designação “literatura de entretenimento” é ficcional e pode indicar uma ausência de valor literário, o que é muito perigoso. Muitas vezes, o que é indicado como “literatura de entretenimento” não se realiza nem como uma coisa nem como outra.

Para Andréa del Fuego, o problema dessa distinção é o critério de valorização da literatura. Há uma pressão para a leitura de obras consideradas clássicas, mas se não houver prazer na leitura e um repertório de apoio, encarar obras um tanto eruditas não trará satisfação.

O terceiro a falar e primeiro a balançar um pouco a tranquilidade da discussão, Luiz Bras lembrou sua passagem das Artes Plásticas para as Letras com essa visão dualista e qualificadora da Literatura. Para exemplificar esse embate, Bras citou a recente polêmica envolvendo o escritor Paulo Coelho – também alfinetado por Manuel da Costa Pinto -, que declarou que Ulysses, de James Joyce, pode ser resumido em um tweet. Segundo Bras, “não basta ser um dos maiores vendedores de livros, ele quer ser estudado na universidade”.

Destacou também que esse suposto conflito pode ser visto pela ótica marxista: a literatura, como todos os aspectos da sociedade, é um embate. As pessoas, segundo Bras, querem o reconhecimento do capital cultural que elas detém a partir da literatura, e por isso há essa divisão, um tanto pejorativa, entre o que é literatura culta e o que é entretenimento. Para finalizar, o escritor destacou que não é preciso escolher: podemos consumir de tudo. “Esse embate, se é que existe, é tolo”, encerrou.

Fotos originais daqui, daqui e daqui.

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