Angústia: duas histórias sobre o mar

Dez dias. No horizonte, apenas a água escura e calma. No céu, o sol à pino torturante. Nove noites de escuridão e frio. Medo. De não ser resgatado; da fome e da sede; de ser atacado por tubarões. Medo da morte.

Luís Alexandre Velasco, marinheiro colombiano, sobreviveu ao cair do navio ARC Caldas. O acidente ocorreu depois de a carga do destroyer se soltar e desestabilizar a embarcação. Na água, oito companheiros de tripulação afundavam e gritavam ao seu redor. Mas ele foi o único que conseguiu alcançar a balsa.

Gabriel García Márquez, na época repórter do jornal El Espectador, remonta o relato de Velasco. A narração, mais tarde transformada no livro Relatos do Náufrago (Record), é séria e despretensiosa. Quase podemos ouvir a voz do próprio Velasco, calma e pausada, própria de alguém que tem pouco a comemorar. Nos dias que seguiram o naufrágio, o soldado da marinha foi tratado como herói. Essa condição, porém, durou pouco: sua fama trouxe à tona a denúncia de que o governo colombiano estava transportando produtos de contrabando. A verdade lhe custou o fama e a credibilidade.

Quando li Relatos do Náufrago, lembrei imediatamente de minha avó. Helene Panteliou me deixou recentemente, aos 91 anos. Ficou a saudade, a herança de uma caixinha com selos gregos antigos, e uma história de vida incrível, que me contou em todos os detalhes para um trabalho de faculdade, e que agora fica aqui como homenagem.

selos

 Três dias. No horizonte, apenas a água escura e calma. No céu, o sol à pino torturante. Duas noites de escuridão e frio. Medo. Foi isso que levou Helene Apokoto Panteliou a entrar em uma pequena canoa de pesca com o marido Antonios, o filho Minas, e um casal de amigos. A tentativa de chegar à costa da Turquia – ou qualquer lugar que oferecesse refúgio – era a única saída aos horrores de guerra que estava sofrendo na Grécia.

Nascida na ilha de Simis, em 1922, Helene tinha apenas 17 anos quando a Segunda Guerra Mundial começou. A invasão das ilhas gregas pela Itália foi difícil e longa.  Com Rodes, onde morava na época, não foi diferente: a miséria era permanente e os bombardeios constantes. Ela viu sua mãe se arrastar e se contorcer no chão de tanta fome. E seu pai morrer envenenado depois de comer a manteiga de uma lata que achara na rua. Quando a violência se intensificou, e a fome já era uma carga pesada demais, Antonios só viu uma coisa a fazer: fugir.

À noite, escondidos do exército italiano – se fossem encontrados, seriam mortos – Antonios e Helene, carregando Minas, se encontraram com o casal de vizinhos e entraram na canoa abastecida minimamente com alimentos e água. Foram três dias e duas noites de viagem, sofrendo com o racionamento dos alimentos, a falta de espaço, o sol forte e a chuva. “Não conseguia sentir meus pés por causa da desidratação e do tempo que ficava sentada na mesma posição. Minha pele estava sempre enrugada”, relembra.

Helene tentava não pensar nos peixes que passavam rente à canoa. E muito menos nos tubarões ou outros animais maiores. Mas quando a escuridão chegava – e o sono não -, era difícil manter a calma. Conseguiu dormir pouco mais de cinco horas durante toda a viagem. “É impossível se sentir bem com o balanço do barco”, conta. Seus ossos doíam e sua cabeça latejava. Muitas coisas podem dar errado em alto mar. E ser descoberto significava o fim. Não existe misericórdia em tempos de guerra.

Finalmente, após três longos dias, chegaram à costa da Turquia, onde as famílias foram acolhidas por soldados turcos, que os protegeram e alimentaram. Com os detalhes da estadia já um pouco apagados pelo tempo, Helene conta que os soldados jogavam dinamite no mar e puxavam a rede de pesca, trazendo alimento para os refugiados. E que, quando a noite chegou, o casal de amigos foi dormir em uma cabana cedida pelo exército, mas sua família dormiu no barco, por decisão de Antonios. “Ele não queria dever nada a ninguém. Não acreditava na bondade dos turcos”, reclama, erguendo os olhos para o teto da sala.

Quando a ilha de Rodes foi recuperada pelos aliados, o casal aproveitou uma embarcação que se dirigia para a Grécia e decidiu voltar para casa, para reconstruir seu país. Apesar do fim da dominação nazista, a fome, entretanto, não se ausentou. As coisas continuavam difíceis para a população grega. Minas, entretanto, foi o amuleto de sorte que salvou a família: um soldado indiano que passava pela rua viu o menino e chamou-o. “Came on”, ele disse. Minas então sorriu e acenou para o estranho.

Com a simpatia, o jovem começou a levar comida escondido para alimentar o garoto e sua famíla. “Não me lembro seu nome, mas nunca vou esquecer seu rosto moreno”, conta Helene. Anos depois, Minas se lembraria do indiano pelo nome da única lembrança que guardou: o saldado “Camon”.

grecia

Assim como Luís Alexandre Velasco viu a tragédia se abater sobre seus amigos e companheiros, Helene viveu em zona de conflito constante. Os dias no mar unem as histórias desses dois personagens e mostram a fragilidade da vida cotidiana. Tudo muda e o que nos parece certo perde a solidez.

A angústia os acompanhou lado a lado, perfurante e impiedosa. Em certo momento, ambos sentiram a sensação agonizante que a falta de esperança traz. O vazio. O momento em que tudo o que importa é o fim do sofrimento. Para ele, as gaivotas o puxavam de volta à vida, alertando para uma possível proximidade com a terra. Ela, por sua vez, tirava forças ao olhar para o filho pequeno, abraçado às suas pernas, apertado entre os corpos adultos no pequeno barco.

Atualização 09/03/2013: Editei o post adicionando mais detalhes dados pelo meu pai. Assim, a história ficou mais completa. Espero que gostem :)

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2 comentários sobre “Angústia: duas histórias sobre o mar

  1. Quando você fala do desespero quando vinha a noite, durante a fuga de Helene, acho difícil que alguém consiga entender o que isso significa. Por essas e outras que achei o livro do Gabriel García Márquez tão difícil: imaginar a solidão e o desamparo em situação semelhante já me apavora; sua avó deve ter sido uma mulher muito forte.

    • Pois é, Gui, eu não me imaginaria vivendo uma situação dessas. E o pior é se preocupar com o filho pequeno, sofrendo com as mesmas condições… Ela era muito forte, e até muito séria por tudo o que viveu. É uma lição de vida pra mim.

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