Da indecência do jazz

O jazz é um dos estilos musicais mais cultuados no mundo. Mas nem sempre ouvir a música dos jazzistas foi tão aceitável – e admirado – como é hoje. Aproveitando o assunto, faço aqui uma breve apresentação de História Social do Jazz (Paz e Terra), de Eric Hobsbawm. Nela, o historiador traça um panorama histórico do estilo, sua evolução ao longo dos anos, sua popularização, transformações, músicos e os fãs.

King & Carter Jazzing Orchestra, Houston, Texas, 1921. Foto de Robert Runyon.

Em linhas muito gerais, o jazz nasceu da tradição afro-americana, foi se transformando, desde cedo, virou produto de entretenimento dos ricos, e, aos poucos, foi se fundindo com elementos da “música branca”. Segundo o pesquisador, “a necessidade de intelectualizar e transformar o jazz  em uma música erudita de vanguarda apareceu desde o final da década de 30”. Foi, assim,  ganhando popularidade e espaço na indústria musical e hoje tem admiradores por todo o mundo.

No entanto a música negra rapidamente passou a se fundir com componentes brancos, e a evolução do jazz é o resultado dessa fusão. O jazz surgiu no ponto de intersecção de três tradições culturais europeias: a espanhola, a francesa e a anglo-saxã. Cada uma delas produziu um tipo de fusão musical afro-americana característica: a latino-americana, a caribenha e a francesa, e várias formas de música afro-anglo-saxã, das quais, para as nossas finalidades, as mais importantes são as canções de gospel e os country blues.

A música tocada por trabalhadores não especializados e pelos creoles de New Orleans precisava estar em embate permanente, em contradição e crise, pois já nasceu desses elementos e com eles se desenvolve. Com uma imagem indecente, a música de jazz, como desabafa o músico Times-Picany em 1918, também era “ouvida com rubor, atrás de portas e cortinas fechadas”:

Por que então a música de jass e a banda de jass? Pergunta-se igualmente, o porquê da novela barata ou do doughnut engordurado. São todos manifestações de um traço inferior do gosto humano, que ainda não foi consertado pelo processo de civilização. Na verdade, poderíamos ir ainda mais longe, e dizer que a música de jass é a história indecente, sincopada e contrapontuada. Como as anedotas impróprias, ela também era ouvida com rubor, atrás de portas e cortinas fechadas, mas, como todos os vícios, se tornou mais ousada, até penetrar nos lugares decentes, onde também foi tolerada por causa de sua estranheza… Dá um prazer sensual maior do que a valsa vienense ou do que o refinado sentimento e a emoção respeitosa de um minueto do século XVIII. Em matéria de jass, Nova Orleans está especialmente interessada, já que foi amplamente sugerido que essa forma particular de vício musical nasceu nesta cidade… Não reconhecemos a honra da paternidade, porém, diante de tal história sendo propagada, caberá a nós sermos os últimos a aceitar tal atrocidade em meio à sociedade educada?

(Times-Picany de Nova Orleans, 20 de junho de 1918. Trecho reproduzido em História Social do Jazz)

O aspecto mais chamativo do estilo, a espontaneidade de seu compasso, é também sua maior forma de afirmação política. O jazz, aponta Hobsbawn, usou o “mais forte dos dispositivos musicais de indução de emoções físicas poderosas, o ritmo” como nenhum outro estilo musical conseguiu fazer ao longo da história. Talvez o estilo de música mais democrático que já existiu, o jazz passou do limbo ao pedestal mais alto. E, como nos mostra Eric Hobsbawn durante toda a obra ricamente construída, “não é apenas uma voz de protesto: é um alto-falante natural.”

PS: A foto original (em preto e branco) foi retirada do Blue Notes, que aponta como fonte o Center for American History da Universidade do Texas.

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