Precisamos Falar Sobre Kevin

Cartas. Uma a uma, semana a semana. Eva Khatchadourian escreve ao marido, Franklin, para remontar a história da tragédia, a história dos dois. Algumas são amorosas, apesar de não serem românticas. Algumas, longe disso, expressam mágoas, discutem com o homem sem voz, mostrando como a vida de casal pode ser desgastante, mesmo que tenha amor. Mas todas as cartas falam de Kevin.

Kevin

Ah, você sabia exatamente o que eu queria dizer. Não é que a felicidade fosse insípida. É que ela não dava uma boa narrativa. E uma das nossas melhores e maiores distrações, com a velhice, é recitar, não só para os outros, como também para nós mesmos, nossa própria história. Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-lata abandonado.

Seu filho Kevin sempre foi obscuro. Não gosta de nada, não demonstra expectativas ou desânimos, é impassivo. Suas expressões consistem em falsas demonstrações de entusiasmo com o pai. Até que ele finalmente demonstra alguma atitude sincera: dias antes de completar 16 anos, mata 7 colegas, uma professora e um funcionário da lanchonete na escola onde estuda. Lionel Shriver trata do medo já enraizado na sociedade norte-americana de atiradores adolescentes de um forma original: afinal, que responsabilidade podemos atribuir à mãe desses desses jovens?

Isso nem Eva sabe responder. De um dia para o outro, passa de uma bem sucedida empresária, com uma bela família, para uma “mãe daqueles garotos Columbine”. Mesmo com o ataque, não é óbvio dizer que Kevin o fez por algum tipo de paixão – parece mais uma demonstração de indiferença. Sua frieza é inata. Sua escolha dos alvos foi cuidadosa e bem pensada, e não deixa de intrigar Eva. Perguntas sem resposta vão se formando na cabeça da mulher, ao mesmo tempo que leva um vida sem propósito, trabalhando para uma agência de viagens, morando em um apartamento apertado, enfrentando um processo por negligência parental e visitando semanalmente a prisão juvenil de Chatham.

Quando parei de me revirar para pôr o casaco, ele disse: ‘Você pode enganar os vizinhos, os guardas, Jesus e a sua mãe gagá com essas visitas de mãe boazinha, mas a mim não engana. Continue com isso, se quer uma estrela dourada. Mas não precisa arrastar a bunda até aqui por minha causa.’ Depois acrescentou: ‘Porque eu odeio você’.

Seria superficial e injusto falar em culpa, mas Eva é ressentida com o filho desde seu nascimento. O processo de gravidez colocou muito em xeque: sua independência e uma carreira de sucesso se opunham à maternidade em sua cabeça. E é com esses olhar contaminado pelo ressentimento que ouvimos a história de Kevin, não devemos esquecer. A falta do sentimento maternal com seu filho mais velho será compensado apenas com a sua segunda criança, a pequena e inexpressiva Celia; Kevin sempre será um desconhecido.

O menino demonstra, desde pequeno, uma crueldade seca, mas muito cuidadosa. Atos simples de malcriação ou pirraça poderiam passar, à olhos desatentos, por apenas isso: malcriação e pirraça. Mas Eva sabia que, não só esses pequenos gestos de maldade de Kevin eram calculados friamente, como também incidentes graves ocorridos ao seu redor tinham ligação direta com o menino, como o acidente que cegou sua filha.

Talvez as expectativas a respeito de meus pares tenham se reduzido a um nível tão básico que a mínima gentileza me esmaga por ser, como a própria quinta-feira, tão desnecessária. Holocaustos não me assombram. Estupros e trabalho escravo infantil não me assombram. Franklin, sei que você pensa o contrário, mas Kevin também não me assombra. Fico assombrada quando deixo cair uma luva na rua e um adolescente corre quarteirões para devolvê-la. Fico assombrada quando a moça do caixa me lança um amplo sorriso, junto com o troco, quando a minha fisionomia era apenas uma máscara apressada. Carteiras perdidas enviadas aos respectivos donos pelo correio, estranhos que fornecem indicações precisas de uma rua, vizinhos que regam as plantas uns dos outros – essas coisas me assombram. Celia me assombrava.

O triunfo de Precisamos Falar Sobre Kevin (Intrínseca) é seu poder de nos prender e surpreender. Começamos o livro já sabendo o que vai acontecer. Isso não é o importante aqui, e sim a construção desse desfecho. E sem falhar em nos deixar boquiabertos, acabamos de ler em choque, como se fossemos uma das vítimas de Kevin. Brutalizados. Lionel Shriver consegue algo difícil: nos arranca um suspiro final de sufoco ao fecharmos seu premiado romance.

OBS: Como li o ebook, não deu para fazer foto; a imagem é da capa do livro.

OBS2: Dá para ler algumas citações no Depósito.

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Um comentário sobre “Precisamos Falar Sobre Kevin

  1. Pingback: Piglia e o romance epistolar | Leitura Sabática

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