As vantagens de ser invisível

Charlie é um menino sensível. Mais que isso, tem tendência à depressão e dificuldade de interagir com as outras pessoas. Tem pais carinhosos, um irmão, que mora longe, e uma irmã com que briga de vez em quando. Seu único amigo, Michael, cometeu suicídio. Charlie está sozinho. Sua tia Helen, que também era sua amiga, morreu em um acidente de carro no dia do seu aniversário, na véspera de Natal, quando ainda era pequeno. E ele se sente cada vez mais sozinho. Até que conhece Patrick e Sam.

cartas

Em um impulso de coragem, Charlie senta-se ao lado de Patrick – ou “Nada”, como odeia ser chamado -, garoto que faz parte de sua turma de Tarefas Manuais, no jogo de futebol americano da escola. Lá conhece também Sam, meia irmã de Patrick, e inicia duas amizades que vão levar o jovem de 15 anos à experiências e sentimentos que nunca experimentou.

É como quando você se olha no espelho e diz seu nome. E chega a um ponto em que nada parece real. Bem, às vezes, eu posso fazer isso. Mas não preciso de uma hora diante do espelho. Acontece muito rápido e as coisas começam a escapulir. E eu abro meus olhos e não vejo nada. E depois começo a respirar com dificuldade, tentando ver alguma coisa, mas não consigo. Não acontece o tempo todo, mas quando acontece fico assustado.

Através de cartas é que As vantagens de ser invisível (Rocco), de 1999, do norte-americano Stephen Chbosky, se contrói. Não conhecemos o destinatário, e essa pessoa também não conhece Charlie: mas sua história é aos poucos contada por suas palavras e frases simples, como se fosse um diário; como ele mesmo diz, escreve como fala, mantendo a narrativa leve e despretenciosa. Aliás, não só na escrita, mas em tudo sua ingenuidade é próxima à de uma criança, e ele leva as coisas muito ao pé da letra.

Ao mesmo tempo que entra em contato com o grupo de amigos de Patrick, e começa a tentar enteder as relações humanas (e ficar perdido, claro), também cria amizade com seu professor de inglês, Bill. Esse vê potencial no aluno, e incentiva-o dando leituras complementares – todas ótimas, diga-se de passagem.

Quando terminei de ler o poema, todos estavam em silêncio. Um silêncio muito triste. Mas a coisa maravilhosa foi que não era uma tristeza ruim. Era só alguma coisa que fazia com que todos olhassem para os outros e soubessem quem eles eram. Sam e Patrick olharam para mim. E eu olhei para eles. E acho que eles sabiam. Não alguma coisa específica. Apenas sabiam. E eu acho que é tudo o que você pode pedir de um amigo.

Charlie é sincero em tudo o que faz – até demais, em algumas situações em que uma mentirinha seria muito bem vinda. Seu livro favorito é sempre o último que leu. Ele gosta de montar mixtapes em fitas cassete. Se não gosta de uma coisa, não gosta. É simples assim, e não precisa ser mais complicado. Charlie é invisível, como define Patrick: Você vê as coisas. Você guarda silêncio sobre elas. Você compreende.

Drogas, bebida, festas, amor, sexo. Um novo mundo se abre diante dos olhos de Charlie, e ele tenta absorver tudo do jeito que pode. Sua atração por Sam; o namoro com a amiga dessa, Mary Alice; os erros; os livros de Bill; a diversão; a tristeza: tudo se mistura de uma forma caótica que só a cabeça de um adolescente pode oferecer. As vantagens de ser invisível é um clássico jovem, cheio de sensibilidade e afabilidade, Senti a mesma sensação acolhedora de quando li The Outsiders (que continua sendo, até hoje, um dos meus livros favoritos). Sentimos carinho, tanto pelos personagens quanto por nós. Nos sentimos incluídos. Afinal, quem não merece amigos, felicidade, amor? Charlie nos mostra que, na fase mais complexa do desenvolvimento de uma pessoa, muito pode ser aprendido e muito pode ser ensinado. E terminamos o livro com a consciência disso: Charlie nos ensinou muito.

***

PS1: O filme também é muito bom, e está sendo muito aplaudido. Mas eu sempre prefiro o livro, muito mais rico. Nesse caso, Stephen Chbosky foi quem dirigiu a película, com a vantagem de ser o autor e ter um olhar privilegiado sobre a obra a ser adaptada.

PS2: Como li em ebook – sim, eu sei, estou viciada no meu novo Kobo (♥) -, a imagem hoje não é do livro, mas sim uma foto (também minha!) que achei que combina com a leitura que fiz. Espero que tenham gostado :)

PS3: Dá para ler algumas citações do livro no Depósito.

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