Em poucas palavras

Sempre achei fenomenal o fato de alguns escritores conseguirem passar uma ideia e completar uma narrativa em apenas algumas linhas. É muito difícil, e poucos são os que fazem isso com talento, o que dá ainda mais graça aos contos que realizam essa proposta com sucesso.

É muito complicado definir o tamanho de um microconto, já que os estudos sobre esse “gênero” (que não é considerado como tal) são escassos e menos ainda são as regras: alguns consideram o tamanho aceitável até 50 letras; outros, 140 caracteres (uma nova possibilidade aberta pelo Twitter e já muito explorada, com a twitteratura).

O conto mais curto e mais famoso do mundo, com apenas trinta e sete letras, é de autoria do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

“O dinossauro” foi escrito em 1959, como parte de Obras completas (y otros cuentos), e até hoje é muito estudado e debatido internacionalmente. Afinal, o que o autor quis dizer? Quem é a pessoa que acorda? Onde ela acorda? Qual o simbolismo do dinossauro? E por aí vai…

Instigado por contos como esse, de Monterroso, o escritor Marcelino Freire desafiou cem autores brasileiros a produzirem suas próprias histórias em tamanho pequeno, o que rendeu a antologia Os cem menores contos do século, lançado em 2004 pela Ateliê Editorial.

Marcelino Freire (esq.) e Bráulio Tavares (dir.)

Na palestra sobre Julio Cortázar (foto acima) que aconteceu em setembro, no Fantasticon, mediada pelo também escritor Bráulio Tavares, ele falou um pouco sobre essa experiência:

[Marcelino] “Eu pedi que os contos tivessem até cinquenta letras, sem contar o título. (…) Falei com o Millôr Fernandes de manhã. À tarde ele me mandou um email. Ele fez um título imenso, e apenas uma frase no conto. E o texto dele tem exatas cinquenta letras, sem tirar nem pôr. ”

[Bráulio] “É o conto do ‘João-sem-braço’, né. O ditado diz que todo regulamento pode ser driblado, se você tiver criatividade suficiente para isso. Foi exatamente o que ele fez.”

Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramírez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida, para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais

— Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode.

(Millôr Fernandes)

Ainda há muito a explorar com os microcontos, e muito leitor ainda vai descobrir o quão simples e rica é esse tipo de produção. Afinal, o que vale aqui é a astúcia do autor, e seu poder de concretizar, em poucas palavras, o que muitos precisariam de páginas inteiras para conseguir.

E para quem estiver interessado, Carlos William Leite reuniu, no site do Jornal Opção, trinta célebres microcontos de escritores nacionais e estrangeiros. Vale uma boa passada de olho para conhecer mais contos, como estes:

  • A velha insônia tossiu três da manhã. (Dalton Trevisan)
  • Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados. (Ernest Hemingway)
  • Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada. (Lygia Fagundes Telles)

Fontes: Recanto das letras e Digestivo Cultural

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