As linhas da mão

Falei, no post anterior, sobre os tão complexos microcontos. Pois, um dos mestres de escrever em poucas linhas (mesmo que não sejam microcontos) é o argentino Julio Cortázar.

Muitos de seus textos não passam de uma ou duas páginas, e são de uma riqueza e um rigor primorosos, de causar inveja a muitos escritores. Inspirada por isso, vou deixar aqui um vídeo de animação (em espanhol) que recria As linhas da mão, conto presente em Histórias de Cronópios e Famas (Civilização Brasileira) – um prato cheio para quem gosta de histórias curtas -, e que tem a extensão, como vocês podem ver abaixo, de apenas um parágrafo curto.

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha cotinua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de nylon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) atinge o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.

Fonte do texto: Portal Vermelho

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3 comentários sobre “As linhas da mão

  1. Cortázar é um mestre do conto e este, apesar de micro, tem todos os elementos necessários ao estilo. Principalmente o final surpreendente. O vídeo é ótimo mas, no meu entendimento, a linha deveria se transformar na sinuosa e certamente curta linha da mão do protagonista.

    • Concordo com você, Alexandre.
      O vídeo é apenas uma das infinitas interpretações, ou retratações, possíveis para o que escreveu Cortázar. E muito raramente essas retratações superam ou se igualam à experiência de ler a obra da qual foram originadas – e aqui não é diferente. Mas sempre acho divertido ver como outros enxergam as mesmas linhas de formas tão diferentes e tão únicas.
      Muito obrigada pelo comentário!

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