LS no I Encontro de Blogs de Letras

Ontem (11/12) o Leitura Sabática participou do I Encontro de Blogs de Letras, que aconteceu na Livraria da Vila, em Pinheiros. O evento foi promovido pelo Publishnews em parceria com o Pavablog e o Grupo Editorial Record.

Além de comidinhas e muita gente legal – como José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti, e o Fabio, do Dito pelo Maldito -, o escritor Santiago Nazarian esteve presente e conversou um pouco com os blogueiros sobre sua carreira e o relançamento de seu quarto livro Mastigando Humanos.

encontro

Santiago Nazarian (esq.) e Sérgio Pavarini (dir.)

Nazarian venceu o Prêmio  Fundação Conrado Wessel de Literatura com Olívio, seu primeiro romance publicado, e em 2007 foi eleito um dos jovens escritores mais importantes da América Latina pelo Hay Festival de Bogotá. No encontro, falou da experiência de representar o Brasil nas feiras de livros internacionais – recentemente esteve na Feira de Guadalajara, e conta tudo o que aconteceu por lá em seu blog Jardim Bizarro -, além de discutir a dificuldade de os críticos rotularem sua literatura, o status de escritor alternativo e muito mais.

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Em poucas palavras

Sempre achei fenomenal o fato de alguns escritores conseguirem passar uma ideia e completar uma narrativa em apenas algumas linhas. É muito difícil, e poucos são os que fazem isso com talento, o que dá ainda mais graça aos contos que realizam essa proposta com sucesso.

É muito complicado definir o tamanho de um microconto, já que os estudos sobre esse “gênero” (que não é considerado como tal) são escassos e menos ainda são as regras: alguns consideram o tamanho aceitável até 50 letras; outros, 140 caracteres (uma nova possibilidade aberta pelo Twitter e já muito explorada, com a twitteratura).

O conto mais curto e mais famoso do mundo, com apenas trinta e sete letras, é de autoria do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

“O dinossauro” foi escrito em 1959, como parte de Obras completas (y otros cuentos), e até hoje é muito estudado e debatido internacionalmente. Afinal, o que o autor quis dizer? Quem é a pessoa que acorda? Onde ela acorda? Qual o simbolismo do dinossauro? E por aí vai…

Instigado por contos como esse, de Monterroso, o escritor Marcelino Freire desafiou cem autores brasileiros a produzirem suas próprias histórias em tamanho pequeno, o que rendeu a antologia Os cem menores contos do século, lançado em 2004 pela Ateliê Editorial.

Marcelino Freire (esq.) e Bráulio Tavares (dir.)

Na palestra sobre Julio Cortázar (foto acima) que aconteceu em setembro, no Fantasticon, mediada pelo também escritor Bráulio Tavares, ele falou um pouco sobre essa experiência:

[Marcelino] “Eu pedi que os contos tivessem até cinquenta letras, sem contar o título. (…) Falei com o Millôr Fernandes de manhã. À tarde ele me mandou um email. Ele fez um título imenso, e apenas uma frase no conto. E o texto dele tem exatas cinquenta letras, sem tirar nem pôr. ”

[Bráulio] “É o conto do ‘João-sem-braço’, né. O ditado diz que todo regulamento pode ser driblado, se você tiver criatividade suficiente para isso. Foi exatamente o que ele fez.”

Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramírez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida, para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais

— Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode.

(Millôr Fernandes)

Ainda há muito a explorar com os microcontos, e muito leitor ainda vai descobrir o quão simples e rica é esse tipo de produção. Afinal, o que vale aqui é a astúcia do autor, e seu poder de concretizar, em poucas palavras, o que muitos precisariam de páginas inteiras para conseguir.

E para quem estiver interessado, Carlos William Leite reuniu, no site do Jornal Opção, trinta célebres microcontos de escritores nacionais e estrangeiros. Vale uma boa passada de olho para conhecer mais contos, como estes:

  • A velha insônia tossiu três da manhã. (Dalton Trevisan)
  • Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados. (Ernest Hemingway)
  • Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada. (Lygia Fagundes Telles)

Fontes: Recanto das letras e Digestivo Cultural

Lá em cima, na montanha

Acho muito difícil falar sobre livros consagrados. É sempre um desafio abordar obras tão discutidas, tão analisadas e  tão amadas. Mas não tinha como eu não falar deste livro: meu lado impulsivo de leitora não iria deixar.

A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann, me pegou em um momento em que eu não tinha tempo para ler quase nada, quanto mais uma obra de mais de 900 páginas recheada de difíceis considerações filosóficas. Mas acho que foi por isso mesmo, de um jeito estranho, que me apaixonei pelo livro. Era o momento errado -de lê-lo, o que acabou sendo o certo.

Por isso, resolvi deixar aqui alguns pontos de reflexão que Jorge de Almeida levantou em sua ótima palestra sobre a obra de Mann, na Biblioteca Mário de Andrade, em junho. O professor de filosofia destacou, sobretudo, o Tempo.

  1. Tanto narrador como personagens se perdem na contagem do tempo. Na obra, o jovem engenheiro Hans Castorp vai fazer uma visita de três semanas ao primo doente, internado no sanatório Berghof, na região dos Alpes Suíços. Acaba ficando sete anos, o que mostra como a cronologia é distorcida “lá no topo”, na montanha em que fica o hospital.
  2. Nós também nos perdemos: Mann usa pouco mais de 100 páginas para narrar os acontecimentos de apenas um dia, quebrando totalmente nosso paralelo ao percebemos que, na página 102, ainda estamos acompanhando o primeiro contato de Castorp com as pessoas e o ambiente novo, quando a impressão é que se passaram semanas na história.
  3. Ele, Castorp, sai de uma metrópole (Hamburgo) para uma pequena cidade pacata onde nada acontece, ainda mais no topo da montanha. Mas o tédio não está presente no microcosmos do sanatório: o aborrecimento só é possível no intervalo de duas atividades, mas, ao contrário, não há quase ação lá. A rotina, muito regreda, se guia pelos horários de repouso diários. “Quando um dia parece como todos, todos os dias parecem como um só”.
  4. Além das horas reservadas para descanso, intercalados com as refeições, os moradores de Berghof têm outros índices próprios de tempo: o gráfico de temperatura de cada paciente, medido pelo termômetro cinco vezes ao dia, e as conferências quinzenais do doutor Krokowski.
  5. As estações do ano também se misturam “lá em cima”. Em um único dia, em uma única semana, todas estão presentes. Não há inverno ou verão definidos, mostrando que até mesmo a natureza perde sua bases naquele ambiente mágico.

O tema é tão presente na obra, que o próprio Hans Castorp gasta muitas horas de seus dias pensando e tentando entender do que se trata:

Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas, deixaria de haver tempo, se não houvesse movimento? Não haveria movimento, sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, “traz consigo”. Que é que traz consigo? A transformação. O Agora não é o Então; o Aqui é indiferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o Então repete-se constantemente no Agora, e o Ali reaparece no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidindo-nos configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução aproximada a zero? É impossível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito? São compatíveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência de corpos limitados no Universo? Quantas perguntas improfícuas!

OBS: Li a edição do Círculo do Livro, mas, claro, há edições mais modernas e atualizadas, como a da Nova Fronteira.

Duas literaturas?

Nunca tinha ido ao Fantasticon. E o Simpósio de Literatura Fantástica, que se encontra em sua sexta edição, me surpreendeu. Infelizmente não vou no próximo fim de semana, mas as palestras que assisti no dia de abertura do evento, sábado (15), valeram a visita à biblioteca Viriato Corrêa, pertinho do metrô Vila Mariana. Aliás, para os interessados em literatura fantástica, vale a pena conhecer a biblioteca.

A mesa de discussão Alta Literatura vs. Literatura de Entretenimento, para mim a melhor do dia, contou com a presença do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, a escritora Andréa del Fuego e do também escritor Luiz Bras (pseudônimo de Nelson de Oliveira), destaque da mesa.

Manuel da Costa Pinto começou a conversa destacando que, para ele, não existe distinção: existe Literatura. O que determinaria, assim, o que é ou não literatura, o que tem valor literário, é um consenso entre os leitores. Lembrando que Machado de Assis pode entreter tanto quanto Júlio Verne, afirmou que a designação “literatura de entretenimento” é ficcional e pode indicar uma ausência de valor literário, o que é muito perigoso. Muitas vezes, o que é indicado como “literatura de entretenimento” não se realiza nem como uma coisa nem como outra.

Para Andréa del Fuego, o problema dessa distinção é o critério de valorização da literatura. Há uma pressão para a leitura de obras consideradas clássicas, mas se não houver prazer na leitura e um repertório de apoio, encarar obras um tanto eruditas não trará satisfação.

O terceiro a falar e primeiro a balançar um pouco a tranquilidade da discussão, Luiz Bras lembrou sua passagem das Artes Plásticas para as Letras com essa visão dualista e qualificadora da Literatura. Para exemplificar esse embate, Bras citou a recente polêmica envolvendo o escritor Paulo Coelho – também alfinetado por Manuel da Costa Pinto -, que declarou que Ulysses, de James Joyce, pode ser resumido em um tweet. Segundo Bras, “não basta ser um dos maiores vendedores de livros, ele quer ser estudado na universidade”.

Destacou também que esse suposto conflito pode ser visto pela ótica marxista: a literatura, como todos os aspectos da sociedade, é um embate. As pessoas, segundo Bras, querem o reconhecimento do capital cultural que elas detém a partir da literatura, e por isso há essa divisão, um tanto pejorativa, entre o que é literatura culta e o que é entretenimento. Para finalizar, o escritor destacou que não é preciso escolher: podemos consumir de tudo. “Esse embate, se é que existe, é tolo”, encerrou.

Fotos originais daqui, daqui e daqui.