No café lotado

tumblr_mwlt2vfO3T1r7xn0zo1_500A curiosidade não vai deixá-lo quieto.
Meu vizinho de mesa observa atentamente o livro que tenho em mãos – convencido, porém, de que consegue disfarçar.
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Não desvio o olhar das páginas, e tento me concentrar. Me render seria abrir precedente para uma conversa, e estou no clima de ler, apenas.
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Sinto seus olhos inconvenientes pousados em mim. Ele vai resistir a perguntar, mas o contorcionismo discreto continua. Não vai desistir.
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Ok, levanto a capa do livro o suficientemente para que ele consiga ler o título.
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E um sorriso sem jeito vindo por trás da xícara ao lado acaba com nossa relação efêmera. Adeus.
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 Foto daqui.

Considerações sobre o futuro do livro

*Com a colaboração de Felipe Bianchi

Há algum tempo, saíram duas reportagens muito interessantes sobre copyright (direito autoral) e pirataria na área editorial, aqui, no caso, referente ao mercado dos Estados Unidos. Achei legal abordá-las no blog, pois essa é uma discussão importante não só para o campo da literatura, mas também sobre a Internet e nossas atividades como internautas.

A primeira é uma matéria de Rebecca Rosen, publicada no The Atlantic, sobre a pesquisa de Paul Heald (Universidade de Ilinóis), que analisa o acervo da gigante Amazon por ano de publicação. O que o levantamento descobriu? Há uma quantidade infinitamente maior de obras das décadas anteriores a 1930 disponíveis para o público que obras publicadas dessa década até os anos 2000.

Um exemplo:  há mais livros disponíveis de 1910 que de 1960; ou de 1890 que de 1970. A resposta para esse fenômeno está na lei de direito autoral estadunidense, que cobre os livros publicados a partir de 1923 – e que causou um “buraco” no índice de acesso de títulos publicados no período.

(Para ler a matéria completa, é só clicar aqui)

Ainda, segundo o pesquisador, editoras simplesmente preferem não publicar trabalhos com proteção de direito autoral a não ser que sejam muito recentes (seguindo a fórmula que diz que o interesse em uma obra cai na medida em que ela envelhece). É bom esclarecer aqui que o gráfico apresenta dados estimados pela pesquisa de acordo com a observação de tendências e cálculos gerais – portanto, para ter consciência do trabalho e das conclusões de Heald, vale ler a matéria completa.

Ao final do texto, Rebecca Rosen ressalta que uma das premissas básicas do direito autoral é que esse mecanismo de proteção deveria “garantir que os donos possam ter lucro com sua propriedade intelectual, e que esse lucro asseguraria a disponibilidade e adequada distribuição dos livros”, o que, conclui, parece não estar acontecendo.

A segunda matéria, publicada no Torrent Freak, repercute um comunicado da editora alemã Springer sobre sua política antipirataria. Alguns trechos do documento vão exatamente na contramão do que toda a indústria de entretenimento vem pregando nos últimos anos: segundo a multinacional, a pirataria de eBooks não prejudicou a venda e os lucros desse nicho da editora.

O comunicado, claro, mostra preocupação com a venda ilegal dos livros digitais, mas se mostra bem menos alarmista que o discurso recorrente envolvendo o tema:

In order to protect our authors´ rights and interests, Springer proactively screens websites for illegal download links of Springer eBooks and subsequently requires hosts of such download sites to remove and delete the files or links in question. This necessary action has become increasingly important with the growing number of eBooks within the Springer eBook collection. While we have not yet seen harmful effects of eBook piracy and file sharing on our eBook portfolio, these are nevertheless considered serious topics.

(O destaque é meu. Para ler a matéria completa e o comunicado da Springer, é só clicar aqui)

Não vou me posicionar quanto à pirataria e ao compartilhamento de bens culturais na rede pois creio que essa é uma discussão muito complexa, e o mesmo ocorre para as leis (e como são aplicadas) de direitos autorais – o foco aqui não é abordar a validade ou não dessas atividades. O que deixo são dados interessantes para ampliarmos o debate. Afinal, são questões determinantes para nosso dia a dia como consumidores (e, em alguns casos, como produtores culturais e empresários).

A pergunta que fica é: qual será o futuro dos livros, sejam digitais ou físicos?

Em poucas palavras

Sempre achei fenomenal o fato de alguns escritores conseguirem passar uma ideia e completar uma narrativa em apenas algumas linhas. É muito difícil, e poucos são os que fazem isso com talento, o que dá ainda mais graça aos contos que realizam essa proposta com sucesso.

É muito complicado definir o tamanho de um microconto, já que os estudos sobre esse “gênero” (que não é considerado como tal) são escassos e menos ainda são as regras: alguns consideram o tamanho aceitável até 50 letras; outros, 140 caracteres (uma nova possibilidade aberta pelo Twitter e já muito explorada, com a twitteratura).

O conto mais curto e mais famoso do mundo, com apenas trinta e sete letras, é de autoria do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

“O dinossauro” foi escrito em 1959, como parte de Obras completas (y otros cuentos), e até hoje é muito estudado e debatido internacionalmente. Afinal, o que o autor quis dizer? Quem é a pessoa que acorda? Onde ela acorda? Qual o simbolismo do dinossauro? E por aí vai…

Instigado por contos como esse, de Monterroso, o escritor Marcelino Freire desafiou cem autores brasileiros a produzirem suas próprias histórias em tamanho pequeno, o que rendeu a antologia Os cem menores contos do século, lançado em 2004 pela Ateliê Editorial.

Marcelino Freire (esq.) e Bráulio Tavares (dir.)

Na palestra sobre Julio Cortázar (foto acima) que aconteceu em setembro, no Fantasticon, mediada pelo também escritor Bráulio Tavares, ele falou um pouco sobre essa experiência:

[Marcelino] “Eu pedi que os contos tivessem até cinquenta letras, sem contar o título. (…) Falei com o Millôr Fernandes de manhã. À tarde ele me mandou um email. Ele fez um título imenso, e apenas uma frase no conto. E o texto dele tem exatas cinquenta letras, sem tirar nem pôr. ”

[Bráulio] “É o conto do ‘João-sem-braço’, né. O ditado diz que todo regulamento pode ser driblado, se você tiver criatividade suficiente para isso. Foi exatamente o que ele fez.”

Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramírez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida, para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais

— Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode.

(Millôr Fernandes)

Ainda há muito a explorar com os microcontos, e muito leitor ainda vai descobrir o quão simples e rica é esse tipo de produção. Afinal, o que vale aqui é a astúcia do autor, e seu poder de concretizar, em poucas palavras, o que muitos precisariam de páginas inteiras para conseguir.

E para quem estiver interessado, Carlos William Leite reuniu, no site do Jornal Opção, trinta célebres microcontos de escritores nacionais e estrangeiros. Vale uma boa passada de olho para conhecer mais contos, como estes:

  • A velha insônia tossiu três da manhã. (Dalton Trevisan)
  • Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados. (Ernest Hemingway)
  • Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada. (Lygia Fagundes Telles)

Fontes: Recanto das letras e Digestivo Cultural

Aniversário :)

recite-29126-1090293975-1yppwfzHoje o Leitura Sabática completa um ano de vida!

Para comemorar, fiz um top5 com os posts mais populares desses 12 meses.

Espero que gostem!

1. Angústia: duas histórias sobre o mar

2. Uma entrevista com Toni Morrison

3. Uivo e outros poemas (resenha)

4. O olfato de Gabito

5. Heteronímia

A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.

Rayuela: edição comemorativa

Aproveitei que estava em Buenos Aires em meio às comemorações dos 50 anos de Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, para comprar a edição especial que a Alfaguara lançou por lá – e vim postar algumas fotos aqui no blog, para quem ainda não viu.

A obra, descrita pelo crítico Otto Maria Carpeaux como “um dos romances mais complexos e mais importantes deste século”, foi lançado em junho de 1963, em meio ao boom da literatura latino-americana.

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O especial dessa edição é a coleção de cartas, que  vão de 17 de dezembro de 1958 a 29 de outubro de 1972, nas quais Cortázar fala sobre o processo de elaboração do romance. Assim, podemos descobrir um pouco mais sobre o livro, mas também entender mais sobre seu autor.

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Achei a edição bem bonita, e tem a vantagem de ser o texto original, em espanhol, o que sempre proporciona uma experiência mais rica para o leitor.

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Pra quem gosta do autor argentino, vale  apena investir na edição. Lá em BAs, paguei cerca de 50 reais, então quem quiser encomendar aqui do Brasil tem que se preparar para desembolsar um pouco mais. Para quem quer saber mais, o El País fez um especial sobre Jogo da Amarelinha (clique aqui).

Lembrando também que ano que vem marca os 30 anos da morte de Cortázar (em fevereiro) e também o centenário de seu nascimento (em agosto), então mais homenagens e comemorações são esperadas em todo o mundo.

Uma pequena nota

Apesar da minha paixão por Para te comer melhor (resenha aqui, e um trecho aqui), já há muito me conformei com a falta de reconhecimento da crítica brasileira com o autor, Eduardo Gudiño Kieffer. Ainda acredito nisso, mas a descoberta de um pequeno verbete sobre o escritor argentino em História da Literatura Hispano-americana, da crítica Bella Jozef, me deu uma alegria imensa. Kieffer está lá, ao lado de García Márquez, Vargas Llosa e outros pilares da literatura latina.

EDUARDO GUDIÑO KIEFFER (1932) – Em Para Comerte Mejor (1968), com sentido da narração, recria todas as possibilidades de uma linguagem expressiva. Manifesta, ao mesmo tempo, humor negro e ternura pelos destinos dos seres que desfilam em suas páginas e darão humanidade a este romance de estrutura aberta. Em Guía de Pecadores (1972), numa linguagem que deve muito a Quevedo, o grotesco e a farsa são trabalhados pela imaginação criadora do autor. Seus malabarismos técnicos, riqueza de linguagem e o ressurgimento do gênero picaresco fazem com que a realidade mais profunda se converta em algo irreal e grotesco neste caleidoscópio alucinante.

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