Tudo na vida vira poeirinha…

Tenho lido muita poesia, principalmente latino-americana. Me ajuda a esfriar a cabeça enquanto resolvo os últimos detalhes da vida acadêmica e a descontrair enquanto termino a leitura de Moby Dick.

Para marcar a volta do blog à rotina, separei quatro poemas de três poetas brasileiros contemporâneos que adoro.

Para trazer um pouquinho de encanto pra esta sexta-feira. :)

MAQUETE

o déficit de atenção
da sala passa correndo
vô soprá, vô soprá

o cdf diz cuidado jairo
a feira de ciências
é amanhã

vô soprá, vô soprá
fffuuu meu sopro
de avião fffuuu

lá se vai nosso dez
em estudos sociais
e agora jairo

qual é a moral
da história
diz a professora

tudo na vida vira poeirinha
fessora poeirinha em alto
mar meu pai que disse.

– Beber, em Rua da Padaria (Record)
 

MINAS

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais

– Ana Martins Marques, retirado do site da revista Piauí

A MINHA PESSOA

Só tem

Serve?

PRAIAS VIZINHAS

Vocês certamente se conhecem
e talvez até se admirem

– Francisco Alvim, em O Metro Nenhum (Companhia das Letras)

metro

Solidão dos poetas

“Afirma Kafka que escrever é um sono mais profundo que a morte. Ainda pensando em  Cabral, eu me pergunto que poeta dormia dentro dele enquanto escrevia seus versos de pedra. Pergunto-me, também, que poeta dormia dentro de Kafka, levando-o a escrever uma ficção tão metódica e ríspida. Talvez Kafka e Cabral se encontrem aí: na frieza. Nos dois casos, ela parece ser apenas o nome fantasioso de uma explosão. Ninguém escreve Uma faca só lâmina, ninguém escreve O processo sem um coração em chamas. A escrita (é isso o que Kafka nos diz) é o manto com que o abafamos.

Penso em meu próprio e pequeno caso. Sempre que estou diante de situações atordoantes, quase sempre sou tomado por um súbito sono. Posso vê-lo como um esgotamento, mas também como um cobertor. Sempre que tomo minhas tristes anotações, elas me servem igualmente como uma coberta. Um anteparo. Uma defesa. Não é isso a literatura, uma maneira de dizer o impossível? Não é para isso que as palavras servem, para nos iludir a respeito de nossa solidão?”

(Trecho do ensaio Kafka e Cabral com sono, de José Castello, reproduzido na versão impressa – e no site – do jornal Rascunho)

O pessimismo e a poesia

“O trabalho de assassinato, pois, é do que se trata, em breve chegará ao fim. Quando se sufoca a voz do poeta, a história perde o sentido e a ameaça escatológica irrompe como nova e terrível aurora nas consciências humanas. Somente agora, à beira do abismo, é possível compreender que “tudo o que nos ensinam é falso”.  A prova dessa afirmação devastadora está aí, visível, todo dia em toda parte: no campo de batalha, no laboratório, na fábrica, na imprensa, na escola, na igreja. Vivemos inteiramente no passado, alimentados por pensamentos estéreis, crenças obsoletas, ciências mortas. E é o passado que nos devora, não o futuro. O futuro sempre foi e sempre será do poeta.”

– Trecho de A hora dos assassinos – um estudo sobre Rimbaud (L&PM), de Henry Miller

Clique aqui para ler a resenha.

Uivo e outros poemas

uivo novoA leitura dramática do poema Uivo, realizada um ano antes de sua publicação, na Six Gallery de San Francisco, virou um dos marcos de início da contracultura americana e rendeu a Allen Ginsberg e seu editor um julgamento por referências pornográficas e a drogas ilícitas.

Apreendido pela polícia americana sob acusação de obscenidade, o livro Uivo e outros poemas é considerado uma das primeiras, e também principais, obras da Geração Beat. Lançado em 1956, conta com seis poemas que versam temas como sexualidade, repressão, religião e amor. Claro, também há inúmeras – e pesadas – críticas aos EUA, muito explícitas em América.

Uivo, o primeiro e mais longo poema, é uma enxurrada de aventuras vividas por Allen e os colegas beats. As viagens, amor livre e experiências alucinógenas do poeta são recriados por cenas fortes, construídas em ritmo tão rápido que soa raivoso. São pouco mais de dez páginas de versos longos, divididos em três partes, em que Ginsberg despeja sobre nós o seu descontentamento com o mundo e com as tradições.

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,/ arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa. / (…) que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica, / que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos” (Trecho de Uivo)

Em Sutra do Girassol e Transcrição de música de órgão, o beat mostra um lado espiritual. Já no nome podemos perceber a carga mística incorporada na poesia: Sutras são textos védicos religiosos ou filosóficos. Em ambos, as flores adquirem o caráter de companheiras do poeta solitário, juntamente com Jack Kerouac e as citações de William Blake.

puivo (2)p

Ginsberg encontra Walt Whitman entre as prateleiras abarrotadas de produtos em Um Supermercado na Califórnia, fazendo referência ao seu ídolo. Um pequeno poema de duas almas solitárias e atormentadas que se encontram em sonho. Canção, que encerra a obra, é quase delicado, como um suspiro após um grito de sufoco. Doloroso e amargo, nos mostra o autor sob um prisma de solidão latente.

“O peso do mundo/ é o amor./ Sob o fardo/ da solidão,/ sob o fardo/ da insatisfação./ o peso/ o peso que carregamos/ é o amor.”
(Trecho de Canção)

Em pleno controle ideológico decorrente da Guerra Fria, o tom anticapitalista e a espontaneidade do texto de Allen foram mal aceitos pelos críticos conservadores. Porém, a rejeição dos acadêmicos apenas reforçou sua popularidade e caráter de porta-voz, ao lado de Kerouac, da juventude insatisfeita.

Seja por seu delírio e misticismo ou pela linguagem crua e despretensiosa, a poesia de Ginsberg, como anuncia em Sutra do Girassol, é como um sermão nascido para salvar a alma do próprio autor – e das pessoas comuns que elegeram Uivo e outros poemas (L&PM) como uma “bíblia” da desilusão com o mundo.

PS: Essa ediçãoda LP&M inclui também Kaddish e outros poemas e é comentada.

Atualização: para quem quer saber mais da história de Allen Ginsberg e seus companheiros, fiz uma resenha do graphic novel “Os Beats”. É só clicar aqui para ver ;)