Literatura e violência

2666 (Companhia das Letras) é monumental. Não só no tamanho, que pode afugentar alguns leitores com falta de tempo, mas em sua realização: ficamos presos à trama até a última linha, e lamentamos quando esta chega.

Escrito pelo chileno Roberto Bolaño pouco antes de sua morte, em 2003, foi pensado para sair em cinco volumes (os cinco grande capítulos em que a história é dividida na edição). Mas os herdeiros do escritor, juntamente com o editor, consideraram melhor publicar a obra em volume único. Quando publicado postumamente em 2004, foi amplamente aclamado e teve grandes elogios da crítica, sendo classificado como o melhor livro da carreira do autor de Os detetives selvagens, e como melhor livro daquele ano.

Ao mesmo tempo em que as cinco partes são independentes, totais em seus próprios núcleos narrativos, são conectadas pelo cenário mexicano – Bolaño morou por muitos anos no país -, a atmosfera de violência e a melancolia que atinge alguns dos personagens. E, por isso mesmo (o tamanho descomunal e as tramas autônomas) a resenha vai ser dividida conforme o livro, em cinco volumes.

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A parte dos críticos

Quatro críticos literários europeus, especialistas na obra de um recluso escritor alemão, Benno von Archimboldi, veem a amizade entre eles crescendo, com encontros em conferências e eventos de letras. Com a afinidade, nasce um triângulo amoroso entre o espanhol Manuel Espinoza, Liz Norton, britânica fria e objetiva, e Jean-Claude Pelletier, francês um tanto inseguro e sentimental.

Em busca de saber mais sobre a vida de Archimboldi, os três vão para Santa Teresa (que seria o equivalente ficcional de Ciudad Juaréz), no norte do México, seguindo uma pista de que o escritor estaria por alguma razão na cidade. Enquanto isso, o italiano Piero Morini, afastado dos envolvimentos amorosos dos outros – mas, muito mais que isso, afastado por ser considerado pelos outros dois homens como academicamente “menor”  -, permanece na própria casa à espera de novidades.

Paralelamente à pesquisa de informações que os levassem ao alemão, com ajuda de Amalfitano, professor de filosofia da universidade local, uma quantidade assustadora assassinatos de mulheres marca a região pelo medo, fato que quase não é notado pelos turistas críticos, mas que será central nas próximas partes. Os quatro formam um pequeno “clube” particular, intransponível, e adotam uma atitude esnobe com qualquer um que se aproxime dos “catedráticos”.

A primeira impressão que os críticos tiveram de Amalfitano foi mais para ruim, perfeitamente e acordo com a mediocridade do lugar, só que o lugar, a extensa cidade no deserto, podia ser visto como algo típico, algo cheio de cor local, mais uma prova da riqueza muitas vezes atroz da paisagem humana, enquanto Amalfitano só podia ser visto como um náufrago, um sujeito descuidado no vestir, um professor inexistente em uma universidade inexistente, o soldado raso de uma batalha perdida de antemão contra a barbárie (…)

A parte de Amalfitano

Seguimos os primeiros meses de Amalfitano, espanhol que vai dar aulas na Universidade de Santa Teresa, na pequena cidade mexicana na fronteira com os Estados Unidos. Infeliz e um tanto confuso, o professor não consegue superar a partida ex-mulher e mãe de sua filha Rebeca, anos antes.

Tentando se manter discreto na novo ambiente, Amalfitano enfrenta, porém, uma série de encontros desastrosos com o filho do reitor da universidade, Marco Antonio Guerra, jovem encrenqueiro e perturbado. Guerra apresenta a mesma visão de uma parcela da sociedade – principalmente com a onda de violência contra mulheres em pleno auge -, de que os mexicanos estão fadados ao fracasso: “Nós, mexicanos, estamos podres, sabia? Todos. Aqui não se salva ninguém.”

O professor está perdido entre o passado e a desilusão com o futuro, e não sabe para onde correr. Os dias passam sem que ele perceba, em uma toada triste que contamina a narrativa.

A parte de Fate

A viagem do americano Oscar Fate à Santa Teresa já começa de um ponto de vista negativo, que o marcará por toda o relato. Com a morte de sua mãe e uma confusão mental que com a qual ele não quer lidar, o jornalista cultural parte à trabalho para cobrir uma luta na cidade por falta do repórter esportivo da redação, e acaba envolvido não só com a história dos assassinatos mas também se vê em um romance um tanto perigoso com uma jovem local.

“Em que momento afundei?”, ele se questiona logo na abertura do capítulo, e a pergunta fica no ar acompanhada de muitas outras, que vêm e vão embora enquanto Fate tenta achar um caminho em busca de si mesmo, e em busca de algo que faça a vida valer ser vivida, algo a que se agarrar.

Aqui também se apresenta a mesma perspectiva de antes, dessa vez proferida por um senhor sentado no restaurante, uma conversa ouvida por Fate.

Vou compartilhar com você três certezas. A: essa sociedade está fora da sociedade, todos, absolutamente todos, são como os antigos cristãos no circo. B: os crimes têm assinaturas diferentes. C: essa cidade parece pujante, parece progredir de alguma maneira, mas o melhor que poderiam fazer é sair uma noite ao deserto e cruzar a fronteira, todos sem exceção, todos, todos.

A parte dos crimes

Sucessivos relatos dos homicídios – a maioria combinada de violência sexual, cujas vítimas são de classes sociais mais baixas, em geral trabalhadoras das fábricas maquiladoras – durante quatro anos, entre 1993 e 1997, constroem o histórico dos assassinatos e nos mostram a dimensão da brutalidade e da impunidade que atingem aquela parte do mundo.

Tomamos parte, também, das investigações da polícia local, que não se mostra muito empenhada em sua função, como percebemos por pequenas dicas que o autor nos dá ao longo do texto. A falta de vontade, ou de interesse, de fazer cessar os assassinatos e descobrir seu autor é tão frustrante que não conseguimos não nos sentir incomodados. E essa não é a única vez que o leitor se vê frente ao desconforto. As piadas machistas dos investigadores, a falta de provas, o jogo de poder… e a violência por si só nos tira do lugar confortável em que nos encontramos e nos joga na realidade de 2666.

A alternância entre os crimes, listados em uma linguagem objetiva e jornalística, e a visão de alguns agentes da polícia, os indiciados e a vida na cadeia, além de Florita Almada, uma senhora considerada vidente que aparece ocasionalmente na televisão, quebra algum possível cansaço causado pela quantidade de boletins policiais sobre as jovens mortas, e mantém o interesse em desvendar o que há por trás dos homicídios e a verdadeira culpa de um dos poucos suspeitos presos, Klaus Haas.

A parte de Archimboldi

Hans Reiter, alemão de proporções gigantescas e de família pobre, parte para lutar na Segunda Guerra Mundial. Durante uma inspeção a uma casa desocupada, em uma vila ucraniana, encontra o diário de um escritor chamado Boris Ansky. Com a leitura, cria um vínculo sentimental com o desconhecido, possivelmente já morto, e enxerga a vida por seus olhos. Ansky se torna seu companheiro, em um momento de isolamento humano e falta de esperança.

A literatura é assunto pulsante nessa parte final, se misturando não só à violência e à solidão da guerra, mas despertando ambições literárias em Reiter. O destino final do jovem vai se revelando conforme o passar dos anos, até a conexão final com os assassinatos em Santa Teresa e o resto da trama que compõe o conjunto de 2666.

Pendurar uma panela com água ou pôr o samovar junto dos tições se mostrava uma tarefa impossível, de modo que finalmente concluiu que quem havia construído o esconderijo o fez pensando que alguém, um dia, se esconderia e outra pessoa o ajudaria a se esconder. O que salva, pensou Reiter, e o que o salva. O que viverá e o que morrerá. O que fugirá quando cair a noite e o que ficará e se tornará vítima. Às vezes, de tarde, se enfiava no esconderijo, armado somente com os papéis de Boris Ansky e uma vela, e ficava ali até alta noite, até ficar com cãibra em seus músculos e com o corpo gelado, lendo, lendo.

***

Considerado o nome mais importante da literatura latino-americana desde Gabriel García Márquez, Bolaño criou uma obra de interligações e suspensões. Acompanhamos passo a passo o desenrolar da trama, sempre querendo mais, e cada vez mais perdidos em um labirinto de acontecimentos, autoenganos e pistas recolhidas: nos cabe desvendar os detalhes escondidos e outros discretamente colocados durante o texto, que facilmente passam desapercebidos a olhos desatentos. 

O ritmo é rápido, graças aos trechos curtos que compõe cada parte e que vão ora criando contrapontos entre diferentes personagens, ora segurando nossa ansiedade por mais peças que possam nos encaminhar para uma compreensão, e montar o quebra-cabeças por inteiro.

Sobre o número que dá nome ao livro, Ignacio Echevarría lembra, na nota sobre a primeira edição, uma referência a outra obra de Bolaño. Um trecho de Amuleto (Companhia das Letras) em que Auxilio Lacouture, seguindo Arturo Belano, afirma que “a [Avenida] Guerrero, a essa hora, se parece mais que tudo com um cemitério, mas não com um cemitério de 1974, nem com um cemitério de 1968, nem com cemitério de 1975, mas com um cemitério do ano de 2666, um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo.”

Piglia e o romance epistolar

“Por outro lado, a correspondência é um gênero perverso: tem necessidade de distância e ausência para prosperar. Só nos romances epistolares as pessoas escrevem estando próximas, em vez de conversar, mandam cartas umas para as outras, inclusive vivendo debaixo do mesmo teto, obrigadas pela retórica do gênero, que, diga-se de passagem, foi liquidado pelo telefone (o gênero epistolar), tornando-se inteiramente anacrônico (seria o caso de dizer que com Hemingway passamos do gênero epistolar para o gênero telefônico; não porque as conversas, mesmo que os personagens estejam sentados num bar um na frente do outro, por exemplo, ou na cama, têm sempre o estilo seco e sincopado dos diálogos telefônicos, a maneira de estabelecer relação entre os interlocutores que o linguista Roman Jakobson – para aproveitar meus conhecimentos universitários e fazer frente, ao mesmo tempo, à ciência imperial de nosso tempo com o artesanato anacrônico dessa disciplina que você pratica e que já vive seu ocaso depois do esplendor que a manteve no alto durante o século XIX, quando se transformou, com Hegel, no substituto laico da religião; fecham-se os travessões e que limitam a digressão sobre a linguística e a história – chama a função fática da linguagem e que poderia ser representada, no caso de Hemingway, mais ou menos, da seguinte maneira: Tudo bem: Tudo bem. E você? Bem, muito bem. Uma cerveja: Boa ideia, uma cerveja. Gelada? O quê? A cerveja, gelada? É, gelada etc., etc.). Com isso o gênero epistolar envelheceu, mas assim mesmo confesso a você que um dos sonhos da minha vida é algum dia escrever um romance só de cartas.”

(Em Respiração artificial (Companhia das Letras), de Ricardo Piglia)

Me deparei com o trecho acima durante minha leitura do romance do argentino – que é, também, narrado a partir da troca de correspondência entre os personagens principais -, e achei interessante colocá-lo aqui – até por aparecer, de raspão, um pouco do Piglia crítico literário, autor do livro de ensaios Formas Breves.

Não são poucos os romances epistolares consagrados na literatura: os mais comumente citados são Pamela, do inventor do gênero, o inglês Samuel Richardson; Memórias de duas jovens esposas, de Honoré de Balzac; A cor púrpura, de Alice Walker; Sofrimentos do jovem Wether, de Goethe; e assim por diante. A lista é longa, e leva a alguns livros contemporâneos, como Precisamos falar sobre Kevin, de Leonel Shriver.

Atualização: A querida Lidy Aquino, que escreve no De maneira alguma, fez um texto sobre Piglia e as cartas há um tempo – e coincidentemente pegou o trecho anterior ao que usei aqui! Vale a leitura :)

LS entrevista: Luiz Nadal

Esta semana, no dia 21/11, acontece o terceiro encontro do projeto conjunto entre o Isto não é um cachimbo e a Casa das Rosas, em São Paulo. Uma vez por mês, Luiz Nadal, jornalista por trás dos perfis literários, entrevista ao vivo algum escritor que já passou pelo site – entre eles Veronica Stigger, Ricardo Lísias, Lourenço Mutarelli (com perfil ao vivo programado para dezembro) e muitos outros. A convidada de novembro é Andrea Del Fuego, que lançou há pouco tempo seu novo romance As miniaturas.

Para contar mais sobre o Cachimbo e falar mais dos perfis, tanto escritos como os feitos diante da plateia, Luiz Nadal conversou com o Leitura Sabática. O resultado você lê na íntegra a seguir.

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Como surgiu a ideia do projeto Isto não é um cachimbo

O Isto não é um cachimbo surgiu durante o ano em que vivi na Cidade do México, em 2010. Eu havia ido fazer um intercâmbio na graduação de jornalismo. Também estava indo atrás do que já conhecia do fotógrafo Juan Rulfo, dos filmes de Alejandro Jodorowsky e do pouco que sabia sobre o pioneirismo de Octávio Paz no jornalismo cultural. Era a primeira vez que eu deixava de trabalhar e apenas me dedicava aos estudos. Eu tinha todos os livros que quisesse ler e tempo de sobra. A economia mexicana andava mal, um real valia em média seis pesos, eu nem sequer passava sufoco para comer. Foi então que decidi criar um blog para entrevistar artistas mexicanos. Diretores de cinema, atores de teatro, músicos, estilistas. A ideia era contar a história sobre o encontro com cada um deles. Entrevistei pessoas que não imaginaria conseguir, como Helen Escobedo, uma das artistas plásticas mais importantes do México e que faleceu alguns meses depois. Telefonava e me apresentava como jornalista brasileiro, que estava de passagem pelo país e que escrevia para um blog de cultura – o que não era exatamente uma mentira. E entre todas as entrevistas, uma delas ficou marcada, com o escritor Alberto Chimal. Ele tinha uns contos fantásticos e ao mesmo tempo parecia um Frankenstein. Era grande, quadrado, tinha olheiras profundas. Como eu já gostava de literatura, a ideia de entrevistar escritores pareceu mais interessante. Um ano depois de voltar para o Brasil e me formar, tive a ideia de readaptar o blog para um site e definir uma linha editorial. Eu entrevistaria apenas escritores da literatura contemporânea. O projeto ganhou um novo nome: Isto não é um cachimbo – Perfis Literários. E vem sendo feito dessa forma desde maio de 2012.

Como é a preparação para a entrevista?

Antes de tudo, leio a obra do escritor. Gosto de ter a minha experiência como leitor. Anoto impressões, trechos dos livros, ideias que surgem durante a leitura. Procuro deixar claro para mim mesmo o que acho daquele trabalho. São importantes os estranhamentos, as identificações, as sacadas e as incompreensões. Depois disso faço uma pesquisa vasta na internet. Procuro saber tudo o que ficou registrado pela critica especializada, resenhas de livros, material acadêmico, entrevistas. A partir deste panorama, entre a minha opinião de leitor e as opiniões que circulam a respeito do autor e da obra, monto a entrevista. Além disso, busco todas as referências biográficas disponíveis para ajudar a descobrir detalhes sobre a trajetória de vida do escritor.

No encontro com o Ricardo Lísias (que ocorreu no dia 19/09), chamou muito a atenção a apresentação de slides descontraída que você levou para ilustrar a entrevista conforme ela ocorria. Qual foi o intuito dela?

A ideia desses encontros é também o de fazer um perfil do autor, só que ao vivo. Então procuro não fazer as perguntas tradicionais de uma entrevista, ou de um bate-papo sério sobre vida e obra. Por isso levo elementos da obra do escritor para o momento da fala. Como por exemplo o slide que utilizei na entrevista com o Ricardo Lísias. Nessa imagem havia um quarto vazio, de cativeiro. Então propus ao Ricardo que interpretasse um trecho da novela intitulada Capuz, em que o personagem é sequestrado e jogado dentro de um espaço como aquele. Esse tipo de procedimento é  bem diferente de perguntar como foi o processo de criação da novela Capuz. Espontaneamente, o escritor falou sobre a história, sobre a forma como decidiu escrevê-la e muitos outros detalhes. No final das contas, a ideia é envolver o escritor no próprio universo literário diante do público para que ele fale sobre o seu trabalho de forma mais descontraída, menos séria, e nem por isso, menos verdadeira.

Algum escritor representou um desafio pessoal para você – pela admiração, talvez?

Todos foram um desafio, mas talvez alguns ficaram mais marcados por conta de uma imagem criada pela mídia. Foi assim com a Marcia Tiburi e o Lourenço Mutarelli. Ambos já tinham uma espécie de personagem construído pela televisão, pelos meios de comunicação. Marcia como a filósofa cinza e Mutarelli como o quadrinista underground. Porém os dois encontros foram surpreendentes. Os dois foram acolhedores e reservaram muitas horas do seu dia para falar sobre o seu trabalho. Contrariaram o mito difundido pela mídia. E nos dois casos, a dificuldade foi editar o texto final, por conta do vasto material de excelente qualidade que obtive na entrevista.

O símbolo e o nome do projeto, Isto não é um cachimbo, são referências claras à obra de Magritte. O que você quer dizer com isso?

Magritte fez um quadro em que há um cachimbo pintado ao centro e, logo abaixo, os dizeres Ces’t ne pas un pipe. Me inspirei na ideia de que aquela obra não mostra um cachimbo em si, mas antes a representação dele – embora o artista belga quisesse dizer muito mais do que isso. E ao usar tal referência para dar nome ao projeto de perfis literários, significa alertar o leitor sobre o que ele irá encontrar durante a leitura. Os escritores que posam para o Isto não é um cachimbo, não são os escritores em si, seus retratos fiéis. São também representações, uma pintura com muitas camadas, que mistura seus dados biográficos ao conteúdo da obra.

Sobre o evento mensal na Casa das Rosas: como surgiu a ideia de levar ao público uma experiência que antes era apenas de leitura, o perfil?

Desde a primeira edição do site, uma das reações que se repete por parte dos leitores é saber o que está por detrás das ficcionalizações. A curiosidade não está mais em distinguir o que é verdade do que é ficção, mas por que uma ficcionalização foi feita desta ou de outra maneira. Por que Marcia Tiburi escreveu sua trilogia no carpete do seu apartamento; por que Marcelino Freire fala dos seus livros em um palco de teatro; por que Andrea Del Fuego resolveu tirar as cartas na Padaria Real? São questionamentos que encontram respostas no universo ficcional do escritor, dentro dos seus livros, das suas histórias. Então pensei que seria interessante chamar novamente os escritores já retratados para falar sobre esses detalhes, que costumo inserir nos perfis. Nesse caso, falar sobre a vida de cada um deles, seria o mesmo que falar sobre a literatura que fazem.

Vocês pretendem levar à Casa todos os escritores que foram entrevistados para o site? 

Sim, a ideia é que todos os escritores sejam entrevistados ao vivo. Para o ano que vem, inclusive, há expectativa de que os eventos sejam realizados também no Rio de Janeiro. Este último semestre está sendo de mais planejamentos do que novas publicações. A partir do ano que vem, as edições voltarão a ser mensais. E ainda com a novidade de que o projeto de perfis literários será tema da minha dissertação de mestrado.

Se houvesse um perfil do Luiz Nadal, o que você acha que os leitores descobririam sobre ele?

Certamente não descobririam nenhuma verdade, porque ele adora inventar.

Você ambienta bem a entrevista, revelando pequenos detalhes, como a trilha-sonora e o leitor ideal do escritor. O que você responderia nesse casos (no seu perfil do Luiz Nadal)?

Acompanhamento: Sanduíche de atum com suco de tangerina

Trilha-sonora: It’s all right, ma (Caetano Veloso)

Leitor ideal: Aquele que inventa o texto.

Personagem: Dorian Gray, de O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)

Biblioteca: Estante estilo camping. Retangular, com dobradiças que permitem transportá-la em formato de mala. Capacidade para 30 exemplares, que são trocados a cada mês. Entre os livros da última viagem, Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa, Dois irmãos, de Milton Hatoum e Sidarta, de Hermann Hesse.

Tudo na vida vira poeirinha…

Tenho lido muita poesia, principalmente latino-americana. Me ajuda a esfriar a cabeça enquanto resolvo os últimos detalhes da vida acadêmica e a descontrair enquanto termino a leitura de Moby Dick.

Para marcar a volta do blog à rotina, separei quatro poemas de três poetas brasileiros contemporâneos que adoro.

Para trazer um pouquinho de encanto pra esta sexta-feira. :)

MAQUETE

o déficit de atenção
da sala passa correndo
vô soprá, vô soprá

o cdf diz cuidado jairo
a feira de ciências
é amanhã

vô soprá, vô soprá
fffuuu meu sopro
de avião fffuuu

lá se vai nosso dez
em estudos sociais
e agora jairo

qual é a moral
da história
diz a professora

tudo na vida vira poeirinha
fessora poeirinha em alto
mar meu pai que disse.

– Beber, em Rua da Padaria (Record)
 

MINAS

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais

– Ana Martins Marques, retirado do site da revista Piauí

A MINHA PESSOA

Só tem

Serve?

PRAIAS VIZINHAS

Vocês certamente se conhecem
e talvez até se admirem

– Francisco Alvim, em O Metro Nenhum (Companhia das Letras)

metro

As linhas da mão

Falei, no post anterior, sobre os tão complexos microcontos. Pois, um dos mestres de escrever em poucas linhas (mesmo que não sejam microcontos) é o argentino Julio Cortázar.

Muitos de seus textos não passam de uma ou duas páginas, e são de uma riqueza e um rigor primorosos, de causar inveja a muitos escritores. Inspirada por isso, vou deixar aqui um vídeo de animação (em espanhol) que recria As linhas da mão, conto presente em Histórias de Cronópios e Famas (Civilização Brasileira) – um prato cheio para quem gosta de histórias curtas -, e que tem a extensão, como vocês podem ver abaixo, de apenas um parágrafo curto.

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha cotinua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de nylon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) atinge o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.

Fonte do texto: Portal Vermelho

Em poucas palavras

Sempre achei fenomenal o fato de alguns escritores conseguirem passar uma ideia e completar uma narrativa em apenas algumas linhas. É muito difícil, e poucos são os que fazem isso com talento, o que dá ainda mais graça aos contos que realizam essa proposta com sucesso.

É muito complicado definir o tamanho de um microconto, já que os estudos sobre esse “gênero” (que não é considerado como tal) são escassos e menos ainda são as regras: alguns consideram o tamanho aceitável até 50 letras; outros, 140 caracteres (uma nova possibilidade aberta pelo Twitter e já muito explorada, com a twitteratura).

O conto mais curto e mais famoso do mundo, com apenas trinta e sete letras, é de autoria do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

“O dinossauro” foi escrito em 1959, como parte de Obras completas (y otros cuentos), e até hoje é muito estudado e debatido internacionalmente. Afinal, o que o autor quis dizer? Quem é a pessoa que acorda? Onde ela acorda? Qual o simbolismo do dinossauro? E por aí vai…

Instigado por contos como esse, de Monterroso, o escritor Marcelino Freire desafiou cem autores brasileiros a produzirem suas próprias histórias em tamanho pequeno, o que rendeu a antologia Os cem menores contos do século, lançado em 2004 pela Ateliê Editorial.

Marcelino Freire (esq.) e Bráulio Tavares (dir.)

Na palestra sobre Julio Cortázar (foto acima) que aconteceu em setembro, no Fantasticon, mediada pelo também escritor Bráulio Tavares, ele falou um pouco sobre essa experiência:

[Marcelino] “Eu pedi que os contos tivessem até cinquenta letras, sem contar o título. (…) Falei com o Millôr Fernandes de manhã. À tarde ele me mandou um email. Ele fez um título imenso, e apenas uma frase no conto. E o texto dele tem exatas cinquenta letras, sem tirar nem pôr. ”

[Bráulio] “É o conto do ‘João-sem-braço’, né. O ditado diz que todo regulamento pode ser driblado, se você tiver criatividade suficiente para isso. Foi exatamente o que ele fez.”

Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramírez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida, para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais

— Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode.

(Millôr Fernandes)

Ainda há muito a explorar com os microcontos, e muito leitor ainda vai descobrir o quão simples e rica é esse tipo de produção. Afinal, o que vale aqui é a astúcia do autor, e seu poder de concretizar, em poucas palavras, o que muitos precisariam de páginas inteiras para conseguir.

E para quem estiver interessado, Carlos William Leite reuniu, no site do Jornal Opção, trinta célebres microcontos de escritores nacionais e estrangeiros. Vale uma boa passada de olho para conhecer mais contos, como estes:

  • A velha insônia tossiu três da manhã. (Dalton Trevisan)
  • Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados. (Ernest Hemingway)
  • Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada. (Lygia Fagundes Telles)

Fontes: Recanto das letras e Digestivo Cultural