Lá em cima, na montanha

Acho muito difícil falar sobre livros consagrados. É sempre um desafio abordar obras tão discutidas, tão analisadas e  tão amadas. Mas não tinha como eu não falar deste livro: meu lado impulsivo de leitora não iria deixar.

A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann, me pegou em um momento em que eu não tinha tempo para ler quase nada, quanto mais uma obra de mais de 900 páginas recheada de difíceis considerações filosóficas. Mas acho que foi por isso mesmo, de um jeito estranho, que me apaixonei pelo livro. Era o momento errado -de lê-lo, o que acabou sendo o certo.

Por isso, resolvi deixar aqui alguns pontos de reflexão que Jorge de Almeida levantou em sua ótima palestra sobre a obra de Mann, na Biblioteca Mário de Andrade, em junho. O professor de filosofia destacou, sobretudo, o Tempo.

  1. Tanto narrador como personagens se perdem na contagem do tempo. Na obra, o jovem engenheiro Hans Castorp vai fazer uma visita de três semanas ao primo doente, internado no sanatório Berghof, na região dos Alpes Suíços. Acaba ficando sete anos, o que mostra como a cronologia é distorcida “lá no topo”, na montanha em que fica o hospital.
  2. Nós também nos perdemos: Mann usa pouco mais de 100 páginas para narrar os acontecimentos de apenas um dia, quebrando totalmente nosso paralelo ao percebemos que, na página 102, ainda estamos acompanhando o primeiro contato de Castorp com as pessoas e o ambiente novo, quando a impressão é que se passaram semanas na história.
  3. Ele, Castorp, sai de uma metrópole (Hamburgo) para uma pequena cidade pacata onde nada acontece, ainda mais no topo da montanha. Mas o tédio não está presente no microcosmos do sanatório: o aborrecimento só é possível no intervalo de duas atividades, mas, ao contrário, não há quase ação lá. A rotina, muito regreda, se guia pelos horários de repouso diários. “Quando um dia parece como todos, todos os dias parecem como um só”.
  4. Além das horas reservadas para descanso, intercalados com as refeições, os moradores de Berghof têm outros índices próprios de tempo: o gráfico de temperatura de cada paciente, medido pelo termômetro cinco vezes ao dia, e as conferências quinzenais do doutor Krokowski.
  5. As estações do ano também se misturam “lá em cima”. Em um único dia, em uma única semana, todas estão presentes. Não há inverno ou verão definidos, mostrando que até mesmo a natureza perde sua bases naquele ambiente mágico.

O tema é tão presente na obra, que o próprio Hans Castorp gasta muitas horas de seus dias pensando e tentando entender do que se trata:

Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas, deixaria de haver tempo, se não houvesse movimento? Não haveria movimento, sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, “traz consigo”. Que é que traz consigo? A transformação. O Agora não é o Então; o Aqui é indiferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o Então repete-se constantemente no Agora, e o Ali reaparece no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidindo-nos configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução aproximada a zero? É impossível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito? São compatíveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência de corpos limitados no Universo? Quantas perguntas improfícuas!

OBS: Li a edição do Círculo do Livro, mas, claro, há edições mais modernas e atualizadas, como a da Nova Fronteira.