Para animar a segunda-feira

A série Blank on Blank, dos estúdios PBS Digital, traz grandes nomes da música, arte, literatura, política e esportes, como James Brown e Fidel Castro, em curtas de animação bem divertidos (em inglês). Separei dois para deixar aqui:

O escritor David Foster Wallace fala sobre perfeccionismo e ambição, seus anos de estudo e a prática de esportes.

Perfectionism is very dangerous, because, of course, if your fidelity to perfectionism is too high you never do anything. Because doing anything results in – it’s actually kind of tragic – because it means you sacrifice hoe gorgeous and perfect it is in your head for what it really is.

***

Maurice Sendak, autor do livro infantil Onde vivem os monstros, fala sobre as delícias e aventuras de ser criança.

I always had a deep respect for children and how they solve complex problems by themselves. (…) I think through shrewdness, fantasy and just plain strenght. They want to survive. They want to survive.

Os áudios são originais, de entrevistas concedidas por eles.
Quem quer ver todos os vídeos da série, é só clicar aqui.

PS: Estou numa fase de amor com vídeos animação, perceberam? :)

Um pouco de Ray Bradbury

Nem tudo são flores no começo da carreira de um escritor. E com o americano Ray Bradbury, autor da consagrada distopia Fahrenheit 451, não foi diferente.

Nesse vídeo curtinho ele conta como no início o dinheiro era curto, como demorou para começar a receber pagamento pela publicação de seus textos, e, principalmente, como foi difícil gostar do que escrevia.

Somente após 10 longos anos o autor pôde realmente dizer que escreveu algo bonito – um conto chamado “O lago”. E, nesse momento, ele percebeu o que fez de certo:

I turned the corner into my interior self. I wasn’t writing exterior stuff, I wasn’t writing for the right or the left or for the in between. I was writing for me. And I discovered that was the way to go.

O segredo, diz ele, é a persistência: escrever, escrever e escrever mais. 

Achei no blog da Eletric Literature.

Intertextualidade e questões morais

Um dos livros mais consagradas da literatura mundial é também um dos mais controversos. Lolita (Abril Cultural), do russo-americano Vladimir Nabokov, foi taxado de pornográfico e considerado impróprio à época de sua publicação, em 1955, apesar de alcançar um sucesso estrondoso, esgotando edições em diversos países.

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Humbert Humbert, um professor de meia idade – e também nosso narrador -, envolve-se com a pequena Dolores Haze, apelidada de Lolita; sua enteada de 12 anos de idade. Ele mostra saber, durante toda a história, que seus atos são condenáveis, mas busca legitimá-los citando célebres escritores e figuras históricas que se casaram com garotas mais novas, suas próprias Lolitas.

Ele invoca Virgílio, Dante, e muitos outros que, supostamente, experimentaram a mesma atração irresistível e sufocante por meninas na “flor da idade” – se bem que em outra época, quando o casamento com noivas jovens era um hábito aceitável, e muitas vezes até incentivado pelos pais da moça.

O maior exemplo em que Humbert apoia sua defesa, entretanto, ele o faz discretamente em seu discurso, já no início da narração:

Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante.

Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins – os mal informados, simples alados serafins – invejavam. Olhai este emaranhado de espinhos.

Kingdom by the sea, seraphs1 e muitos outros termos são retirados do poema Annabel Lee, de Edgar Allan Poe. Este, um dos mestres de horror e do sobrenatural, casou-se com sua prima de 14 anos de idade, quando tinha pouco mais de 20 anos. Ou seja, fazendo referência ao poema, Humbert faz alusão a seu autor. Há, afinal, jeito melhor de tentar se justificar, mostrando que não foi o único, que, antes dele, homens admiráveis agiram da mesma forma?

Nos versos, Poe descreve um amor tão intenso, tão poderoso que despertou a inveja dos anjos, causando a morte de sua amada.

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.2
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.3

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(Tradução de Fernando Pessoa)

Annabel, não por acaso, também era o nome da primeira namorada de Humbert, a “precursora” de Dolores, quando eles ainda eram crianças – I was a child and she was a child4.

Humbert compõe sua defesa – lembrando que ele possui “uma prosa de estilo extravagante”, que utiliza muito sabiamente para nos contar sua versão da história – criando intertextualidades e arranjando argumentos sutilmente, que nos fazem criar empatia, apesar de não concordarmos com sua ações e escolhas.

***

1. “Reino ao pé do mar” e “anjos” na tradução de Fernando Pessoa para o poema; “principado junto ao mar” e “serafins” na tradução do livro de Brenno Silveira (São Paulo: Abril Cultural, 1981).
2. No original: “In a kingdom by the sea,”
3. “With a love that the winged seraphs of Heaven/ Coveted her and me.”
4. “Eu era criança e ela era criança” no poema.

Ginsberg e McCartney juntos

Em 1995, quando estava de visita na casa de Paul McCartney, na Inglaterra, o poeta beat Allen Ginsberg (já com 70 anos de idade e a saúde frágil) convidou o ex-Beatle para musicar seu poema The Ballad of the Skeletons.

O resultado da parceria seria apresentado para apenas para a plateia em uma leitura de poesia no Royal Albert Hall, mas a combinação deu tão certo que virou oficial, e ganhou um vídeo clipe um ano mais tarde, dirigido pelo premiado diretor de cinema Gus Vun Saint (assista abaixo).

O poema pode ser lido na íntegra aqui.

As informações (e a história completa) são do Open Culture.

O menino macabro de Tim Burton

Em 1982, quando trabalhava para a Walt Disney Animation Studios, Tim Burton levou dois meses – e sessenta mil dólares do chefe de Desenvolvimento Criativo do estúdio – para produzir Vincent, um curta experimental baseado no poema homônimo do diretor.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=QkmKhd_h3lk]

O filme conta a história de Vincent Malloy, um garoto desajustado de sete anos, que é obcecado por Edgar Allan Poe e deseja ser como Vincent Price. Este, astro de filmes de horror dos anos 70 e 80, é o narrador do filme.

O aspecto macabro e fantasioso, característico da produção de Burton, é gritante na fotografia em preto e branco e também na aparência das personagens. Esse foi seu primeiro trabalho utilizando a técnica de stop-motion (bonecos fotografados quadro a quadro), repetida nas produções de Estranho Mundo de Jack (1993), Noiva Cadáver (2005), e recentemente em Frankenweenie (2012).

É muito legal ver as semelhanças (muito claras!) nos traços das personagens dos quatro filmes. Vincent é um mimo imperdível para quem é fã da obra de animação do diretor.

Os Beats

Não estou acostumada a ler – e falar de – HQs, e a falta de costume pode trazer a falta de jeito, então sejam compreensíveis. O fato é que comprei Os Beats (Benvirá) por curiosidade, quando lia tudo sobre a Geração Beat que pudesse encontrar pela frente. E gostei muito da graphic novel encabeçada por Harvey Parker, autor de American Splendour, e completada por muitas outras mãos.

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Entre os escritores convidados para o roteiro estão Nancy J Peters, Joyce Brabner, Penélope Rosemont, entre outras. Os desenhos são assinados por Ed Piskor, Jay Kinney, Nick Thorkelson e muitos mais.

A HQ conta a vida de diversos poetas da cena Beat, grupo de escritores e artistas que destoavam do american way of life, do período pós Segunda Guerra e que produziam uma arte contaminada de provocação.

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Os três primeiros (e maiores) capítulos acompanham os passos de Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William S. Burroughs, enquanto o resto do livro, intitulado “Os Beats: perpectivas”, passa pela trajetória de poetas mais desconhecidos que os primeiros, como Lawrence Ferlinghetti e Michael McClure. Ao final também estão presentes outros pequenos mimos para o leitor, como os capítulos “Garotas beatnik” e “Jazz e poesia”, que ajudam a ilustrar a história do movimento.

Como é uma graphic novel colaborativa, os desenhos de cada história têm traços diferentes, pessoais de cada quadrinista. Esse é um dos pontos fortes da obra, que não se torna enfadonha ao longo do caminho e está sempre mudando de personagens e de visual.

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Os Beats é uma boa indicação para quem quer uma começar a entrar no mundo dos quadrinhos ou apenas que ler sobre a Geração Beat, de uma forma leve e divertida. Hoje, tem lugar marcado na minha estante de favoritos.

As vantagens de ser invisível

Charlie é um menino sensível. Mais que isso, tem tendência à depressão e dificuldade de interagir com as outras pessoas. Tem pais carinhosos, um irmão, que mora longe, e uma irmã com que briga de vez em quando. Seu único amigo, Michael, cometeu suicídio. Charlie está sozinho. Sua tia Helen, que também era sua amiga, morreu em um acidente de carro no dia do seu aniversário, na véspera de Natal, quando ainda era pequeno. E ele se sente cada vez mais sozinho. Até que conhece Patrick e Sam.

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Em um impulso de coragem, Charlie senta-se ao lado de Patrick – ou “Nada”, como odeia ser chamado -, garoto que faz parte de sua turma de Tarefas Manuais, no jogo de futebol americano da escola. Lá conhece também Sam, meia irmã de Patrick, e inicia duas amizades que vão levar o jovem de 15 anos à experiências e sentimentos que nunca experimentou.

É como quando você se olha no espelho e diz seu nome. E chega a um ponto em que nada parece real. Bem, às vezes, eu posso fazer isso. Mas não preciso de uma hora diante do espelho. Acontece muito rápido e as coisas começam a escapulir. E eu abro meus olhos e não vejo nada. E depois começo a respirar com dificuldade, tentando ver alguma coisa, mas não consigo. Não acontece o tempo todo, mas quando acontece fico assustado.

Através de cartas é que As vantagens de ser invisível (Rocco), de 1999, do norte-americano Stephen Chbosky, se contrói. Não conhecemos o destinatário, e essa pessoa também não conhece Charlie: mas sua história é aos poucos contada por suas palavras e frases simples, como se fosse um diário; como ele mesmo diz, escreve como fala, mantendo a narrativa leve e despretenciosa. Aliás, não só na escrita, mas em tudo sua ingenuidade é próxima à de uma criança, e ele leva as coisas muito ao pé da letra.

Ao mesmo tempo que entra em contato com o grupo de amigos de Patrick, e começa a tentar enteder as relações humanas (e ficar perdido, claro), também cria amizade com seu professor de inglês, Bill. Esse vê potencial no aluno, e incentiva-o dando leituras complementares – todas ótimas, diga-se de passagem.

Quando terminei de ler o poema, todos estavam em silêncio. Um silêncio muito triste. Mas a coisa maravilhosa foi que não era uma tristeza ruim. Era só alguma coisa que fazia com que todos olhassem para os outros e soubessem quem eles eram. Sam e Patrick olharam para mim. E eu olhei para eles. E acho que eles sabiam. Não alguma coisa específica. Apenas sabiam. E eu acho que é tudo o que você pode pedir de um amigo.

Charlie é sincero em tudo o que faz – até demais, em algumas situações em que uma mentirinha seria muito bem vinda. Seu livro favorito é sempre o último que leu. Ele gosta de montar mixtapes em fitas cassete. Se não gosta de uma coisa, não gosta. É simples assim, e não precisa ser mais complicado. Charlie é invisível, como define Patrick: Você vê as coisas. Você guarda silêncio sobre elas. Você compreende.

Drogas, bebida, festas, amor, sexo. Um novo mundo se abre diante dos olhos de Charlie, e ele tenta absorver tudo do jeito que pode. Sua atração por Sam; o namoro com a amiga dessa, Mary Alice; os erros; os livros de Bill; a diversão; a tristeza: tudo se mistura de uma forma caótica que só a cabeça de um adolescente pode oferecer. As vantagens de ser invisível é um clássico jovem, cheio de sensibilidade e afabilidade, Senti a mesma sensação acolhedora de quando li The Outsiders (que continua sendo, até hoje, um dos meus livros favoritos). Sentimos carinho, tanto pelos personagens quanto por nós. Nos sentimos incluídos. Afinal, quem não merece amigos, felicidade, amor? Charlie nos mostra que, na fase mais complexa do desenvolvimento de uma pessoa, muito pode ser aprendido e muito pode ser ensinado. E terminamos o livro com a consciência disso: Charlie nos ensinou muito.

***

PS1: O filme também é muito bom, e está sendo muito aplaudido. Mas eu sempre prefiro o livro, muito mais rico. Nesse caso, Stephen Chbosky foi quem dirigiu a película, com a vantagem de ser o autor e ter um olhar privilegiado sobre a obra a ser adaptada.

PS2: Como li em ebook – sim, eu sei, estou viciada no meu novo Kobo (♥) -, a imagem hoje não é do livro, mas sim uma foto (também minha!) que achei que combina com a leitura que fiz. Espero que tenham gostado :)

PS3: Dá para ler algumas citações do livro no Depósito.