Piglia e o romance epistolar

“Por outro lado, a correspondência é um gênero perverso: tem necessidade de distância e ausência para prosperar. Só nos romances epistolares as pessoas escrevem estando próximas, em vez de conversar, mandam cartas umas para as outras, inclusive vivendo debaixo do mesmo teto, obrigadas pela retórica do gênero, que, diga-se de passagem, foi liquidado pelo telefone (o gênero epistolar), tornando-se inteiramente anacrônico (seria o caso de dizer que com Hemingway passamos do gênero epistolar para o gênero telefônico; não porque as conversas, mesmo que os personagens estejam sentados num bar um na frente do outro, por exemplo, ou na cama, têm sempre o estilo seco e sincopado dos diálogos telefônicos, a maneira de estabelecer relação entre os interlocutores que o linguista Roman Jakobson – para aproveitar meus conhecimentos universitários e fazer frente, ao mesmo tempo, à ciência imperial de nosso tempo com o artesanato anacrônico dessa disciplina que você pratica e que já vive seu ocaso depois do esplendor que a manteve no alto durante o século XIX, quando se transformou, com Hegel, no substituto laico da religião; fecham-se os travessões e que limitam a digressão sobre a linguística e a história – chama a função fática da linguagem e que poderia ser representada, no caso de Hemingway, mais ou menos, da seguinte maneira: Tudo bem: Tudo bem. E você? Bem, muito bem. Uma cerveja: Boa ideia, uma cerveja. Gelada? O quê? A cerveja, gelada? É, gelada etc., etc.). Com isso o gênero epistolar envelheceu, mas assim mesmo confesso a você que um dos sonhos da minha vida é algum dia escrever um romance só de cartas.”

(Em Respiração artificial (Companhia das Letras), de Ricardo Piglia)

Me deparei com o trecho acima durante minha leitura do romance do argentino – que é, também, narrado a partir da troca de correspondência entre os personagens principais -, e achei interessante colocá-lo aqui – até por aparecer, de raspão, um pouco do Piglia crítico literário, autor do livro de ensaios Formas Breves.

Não são poucos os romances epistolares consagrados na literatura: os mais comumente citados são Pamela, do inventor do gênero, o inglês Samuel Richardson; Memórias de duas jovens esposas, de Honoré de Balzac; A cor púrpura, de Alice Walker; Sofrimentos do jovem Wether, de Goethe; e assim por diante. A lista é longa, e leva a alguns livros contemporâneos, como Precisamos falar sobre Kevin, de Leonel Shriver.

Atualização: A querida Lidy Aquino, que escreve no De maneira alguma, fez um texto sobre Piglia e as cartas há um tempo – e coincidentemente pegou o trecho anterior ao que usei aqui! Vale a leitura :)

As linhas da mão

Falei, no post anterior, sobre os tão complexos microcontos. Pois, um dos mestres de escrever em poucas linhas (mesmo que não sejam microcontos) é o argentino Julio Cortázar.

Muitos de seus textos não passam de uma ou duas páginas, e são de uma riqueza e um rigor primorosos, de causar inveja a muitos escritores. Inspirada por isso, vou deixar aqui um vídeo de animação (em espanhol) que recria As linhas da mão, conto presente em Histórias de Cronópios e Famas (Civilização Brasileira) – um prato cheio para quem gosta de histórias curtas -, e que tem a extensão, como vocês podem ver abaixo, de apenas um parágrafo curto.

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha cotinua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de nylon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) atinge o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.

Fonte do texto: Portal Vermelho

Rayuela: edição comemorativa

Aproveitei que estava em Buenos Aires em meio às comemorações dos 50 anos de Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, para comprar a edição especial que a Alfaguara lançou por lá – e vim postar algumas fotos aqui no blog, para quem ainda não viu.

A obra, descrita pelo crítico Otto Maria Carpeaux como “um dos romances mais complexos e mais importantes deste século”, foi lançado em junho de 1963, em meio ao boom da literatura latino-americana.

Rayuela1

O especial dessa edição é a coleção de cartas, que  vão de 17 de dezembro de 1958 a 29 de outubro de 1972, nas quais Cortázar fala sobre o processo de elaboração do romance. Assim, podemos descobrir um pouco mais sobre o livro, mas também entender mais sobre seu autor.

_DSC0186[1]

Rayuela2

Achei a edição bem bonita, e tem a vantagem de ser o texto original, em espanhol, o que sempre proporciona uma experiência mais rica para o leitor.

Rayuela3

Pra quem gosta do autor argentino, vale  apena investir na edição. Lá em BAs, paguei cerca de 50 reais, então quem quiser encomendar aqui do Brasil tem que se preparar para desembolsar um pouco mais. Para quem quer saber mais, o El País fez um especial sobre Jogo da Amarelinha (clique aqui).

Lembrando também que ano que vem marca os 30 anos da morte de Cortázar (em fevereiro) e também o centenário de seu nascimento (em agosto), então mais homenagens e comemorações são esperadas em todo o mundo.

Uma pequena nota

Apesar da minha paixão por Para te comer melhor (resenha aqui, e um trecho aqui), já há muito me conformei com a falta de reconhecimento da crítica brasileira com o autor, Eduardo Gudiño Kieffer. Ainda acredito nisso, mas a descoberta de um pequeno verbete sobre o escritor argentino em História da Literatura Hispano-americana, da crítica Bella Jozef, me deu uma alegria imensa. Kieffer está lá, ao lado de García Márquez, Vargas Llosa e outros pilares da literatura latina.

EDUARDO GUDIÑO KIEFFER (1932) – Em Para Comerte Mejor (1968), com sentido da narração, recria todas as possibilidades de uma linguagem expressiva. Manifesta, ao mesmo tempo, humor negro e ternura pelos destinos dos seres que desfilam em suas páginas e darão humanidade a este romance de estrutura aberta. Em Guía de Pecadores (1972), numa linguagem que deve muito a Quevedo, o grotesco e a farsa são trabalhados pela imaginação criadora do autor. Seus malabarismos técnicos, riqueza de linguagem e o ressurgimento do gênero picaresco fazem com que a realidade mais profunda se converta em algo irreal e grotesco neste caleidoscópio alucinante.

bella

Uma inspiração?

Em Histórias de Cronópios e de Famas (Civilização Brasileira), de 1962, de Julio Cortázar:

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio.
Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se.
Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

Em Para te comer melhor (Alfa-Omega), de 1968, de Eduardo Gudiño Kieffer:

Está nublado, chove. Escuta-se o tipi tip tip tap das gotas suicidando-se contra os vidros da janela. Uma luz acizentada enfeia as paredes e a beira dos móveis. O mundo acordou frio, paco, cinzento.

Sobre a cor das palavras

“E me acompanham os livros , os que gritam ‘levanta-te’. (…) Swift com palavras pequenininhas que têm braços e pernas e correm rapidamente e formam pirâmides de equilibristas; Rimbaud com palavras vermelhas, verdes, azuis (cor, nada mais que cor); Ambrose Bierce com palavras cheias de espinhas, de arestas, de fios, de unhas, de aspas; Lewis Carrol com palavras-valise, palavras-surpresa; Macedonio com palavras-brinde e palavras-prólogo e palavras-dúvida; Cortázar com palavras-espelho e palavras-suicidas; Elliot com palavras-grito e palavras-agonia…”

(Trecho de Para te comer melhor, de Eduardo Gudiño Kieffer)

É exatamente assim que imagino as palavras. Em especial as de Rimbaud: vermelhas, corrosivas, escandalosas. Quando me deparei com esse trecho, a identificação foi tão forte que nunca mais esqueci. Toda vez que lia Uma Temporada no Inferno era como se as palavras surgissem rubras em um fundo escuro, destacadas na escuridão.

É o poder da literatura, com suas palavras coloridas…

Para Te Comer Melhor

Há alguns anos, encontrei duas caixas de livros abarrotadas no depósito aqui de casa. Quase um tesouro para uma menina com então 15 anos. Eram livros antigos dos meus pais, tão cheios de pó e desarrumados que não ganharam lugar nas prateleiras da sala. Tirei mais de trinta obras daquele esquecimento, e li uma por uma. E, graças a esse achado, descobri um dos que meus livros favoritos.

paracomer

Para Te Comer Melhor (Alfa-Omega) não é tão reconhecido quanto merece. Nunca conheci alguém da minha geração o tenha lido. Uma pena. E, infelizmente, não tive acesso a outros livros do autor, o argentino Eduardo Gudiño Kieffer. Outra pena. Considero esse o melhor livro para indicar nessa primeira resenha do blog.

Desde o título,  Kieffer  provoca o leitor. Para Te Comer Melhor desperta curiosidade e não faz feio ao desfazê-la: enquanto o verdadeiro sentido da frase vai se revelando, somos apresentados à história de Sebástian, um artista de 24 anos afligido pela incompreensão do mundo a seu redor.

Porque sabia (ou porque não sabia) que tudo estava destinado a terminar assim; porque pensava que escrever não valia a pena, e supôs que Merdalim e Merdalhão sobreviveriam apesar de tudo; porque o mundo foi e será uma porcaira, já o sei (quem não sabe), porém vale mais vivê-lo esculhambado e tudo como é, que pensá-lo aristotelicamente, kantinianamente, sartreanamente. Ou cantá-lo em letras de tango. E morrer é a melhor maneira quando alguém se dá o gosto de escolher o momento e a forma;

A partir de seu suicídio, os últimos anos de vida do protagonista são remontados pelo olhar dos que conviviam com ele.  Ana, “Ana palíndroma”, é sensível e delicada. Sua única culpa é amar demais e não ser correspondida, pelo menos não na medida certa. Ela não pode evitar a raiva que a toma quando se depara com a barreira de indiferença de Sebástian, constantemente presente. Mas o que pode fazer? Se manter fiel e esperar pela atenção dele, que a atravessa com o gosto de esmola, é tudo o que encontra.

paracomerp

Já Merdalim e Merdalhão, seus dois companheiros imaginários, expõem suas inquietações e conflitos. O bem e o mal, presentes em todo ser humano, são personificados por Sebástian. São muitos, também, os diálogos com Cecília, a presença feminina em sua consciência, companheira idealizada e irreal. Esses momentos de aparente loucura, entretanto, trazem lucidez ao leitor, que passa a compreender que tipo de tormentos essas personagens internas representam.

Merdalhão me iniciava na masturbação, ai, docemente, enquanto Merdalim gritava por um Anjo da Guarda que estava sempre de folga. Merdalhão me fazia fugir da fé e da moral; Merdalim me obrigava a reencontrá-las com ataques de arrependimento e misticismo que por pouco não se transformavam em vocação religiosa.

O livro é cheio de sinestesias, o que cria imagens inusitadas e dá colorido e um quê de confusão à vida do jovem “corroído, doente, (…) já quase morto de palavras”. As cenas estão sempre mudando de direção e comando. Vão dos pensamentos do protagonista, registrados em seu caderno, para seus amigos.

Robbie e Flor de Irupê são comuns, retratos de como duas almas, aparentemente opostas, podem se encontrar em meio à vida cotidiana da cidade grande. O rapaz “de cabelos desbotados olhos azuis pele dourada” e a moça do interior da Argentina que, após destruição de sua casa por uma enchente, vai tentar o sucesso como cantora na Buenos Aires de “rios asfaltados”. Ela conquista pela fala simples e ingênua – quase como a de uma criança – que dá real intenção a todas as frases e traz um toque de leveza ao enredo.

Flor de Irupê caiu em Robbie e ficou flutuando para sempre em Robbie, coisa que é bastante lógica se se pensa que afinal de contas Flor de Irupê era só isso, uma Flor de Irupê, e que Robbie era uma espécie de terreno úmido onde certas plantas podem crescer, desenvolver-se e adquirir sua plenitude.

As intervenções de Cabeleira, personagem misterioso que parece não se encaixar na trama, nos deixam inqueitos. Sua função no enredo é uma das grandes – e delíciosas – descobertas que fazemos. Aliás, Para te comer melhor é isso: um livro de descobertas. O título, os personagens, a história, a construção do texto. Somos instigados do começo ao fim. Sebastian poderia ser qualquer um de nós, à exceção que teve a coragem – ou covardia? – de se matar. Seus medos soam palpáveis, facilmente compartilhados por qualquer pessoa que já tenha se sentido sufocada pela realidade.