Flaubert versus Balzac

James Wood, no ótimo Como funciona a ficção (Cosac Naify), opina – em uma nota de rodapé com um tamanho digno de David Foster Wallace -, sobre qual dos dois  gigantes da literatura, afinal, seria o francês “fundador da narrativa moderna de ficção”.

Há três diferenças entre o realismo de Balzac e o realismo de Flaubert: primeiro, Balzac observa bastante em sua literatura, é claro, mas a ênfase sempre recai mais na abundância do que numa seleção cerrada dos detalhes. Segundo, Balzac não tem nenhum compromisso especial com o estilo indireto livre nem com a impessoalidade do autor e se sente livre para se intromenter como autor/ narrador, com ensaios, digressões e informações sobre dados sociais. (Nesse aspecto, ele parece decididamente setecentista.) Terceiro, e decorrendo das duas diferenças anteriores: ele não tem nenhum interesse tipicamente flaubertiano em apagar a questão de quem é que está vendo tudo. Por tais razões, considero Flaubert, e não Balzac, o verdadeiro fundador da narrativa moderna de ficção.

O autor de Madame Bovary e A educação sentimental seria, segundo Wood, um “realista e um estilista”. O primeiro quer registrar tudo o que vê (à maneira balzaquiana), e o segundo “quer disciplinar essa enxurrada de detalhes, convertê-los em frases e imagens impecáveis”.

Anúncios

O desabafo de Duras

Durante o período da Segunda Guerra Mundial, a francesa Marguerite Duras sofria com a ocupação nazista no país. Mais que sofrer, se viu afastada de amigos e de seu amor, Robert – que fora lutar no front de batalha. A dor é exatamente uma tentativa de registrar a angústia – e se libertar dela – de uma das épocas mais difíceis de sua vida, um trabalho autobiográfico (com trechos ficcionais, acreditam muitos críticos) agoniante para o leitor.

O interessante, entretanto, é o prefácio da obra, em que a autora afirma não se lembrar de ter escrito os textos que compõe o relato – de dor, carinho, esperança e desespero:

Encontrei este diário em dois cadernos, nos armários azuis de Neaupble-le-Château.

Não tenho lembrança alguma de tê-lo escrito.

Sei que o fiz, que fui eu que escrevi, reconheço minha letra e os detalhes do que relato: revejo o lugar, a Estação de Orsay, os trajetos, mas não me vejo escrevendo o diário. Quando foi que o escrevi, em que ano, em que horas do dia, em que casa? Não sei mais nada.

O que é certo, evidente, é que não me parece possível ter escrito este texto enquanto esperava por Robert L.

Como pude escrever isto, que ainda não sei nomear e que assombra quando releio? Como pude abandonar este texto durante anos naquela casa de campo constantemente inundada no inverno?

A primeira vez que me preocupei com ele foi quando a revista Sorcièrse me solicitou um texto escrito em minha juventude.

A dor é uma das coisas mais importantes de minha vida. A palavra “escrito” não seria adequada. Encontrei-me diante de páginas metodicamente preenchidas com uma letra extraordinariamente regular e calma. Encontrei-me diante de uma fenomenal desordem de pensamento e do sentimento, que não ousei tocar, e comparada à qual a literatura me envergonha.

O pessimismo e a poesia

“O trabalho de assassinato, pois, é do que se trata, em breve chegará ao fim. Quando se sufoca a voz do poeta, a história perde o sentido e a ameaça escatológica irrompe como nova e terrível aurora nas consciências humanas. Somente agora, à beira do abismo, é possível compreender que “tudo o que nos ensinam é falso”.  A prova dessa afirmação devastadora está aí, visível, todo dia em toda parte: no campo de batalha, no laboratório, na fábrica, na imprensa, na escola, na igreja. Vivemos inteiramente no passado, alimentados por pensamentos estéreis, crenças obsoletas, ciências mortas. E é o passado que nos devora, não o futuro. O futuro sempre foi e sempre será do poeta.”

– Trecho de A hora dos assassinos – um estudo sobre Rimbaud (L&PM), de Henry Miller

Clique aqui para ler a resenha.

A hora dos assassinos

“Rimbaud foi um suicida vivo”. O diagnóstico de Henry Miller sobre o poeta do século XIX faz jus ao jovem inquieto que começou aos dez anos na literatura, viveu uma vida de excessos e morreu também muito precocemente, aos 37 anos.

rimbaudnovo

A Hora dos Assassinos, publicado em 1956, é mais que um estudo crítico de Miller sobre o francês. É uma identificação. Arthur Rimbaud foi um sonhador. Um rebelde boêmio que se entregou à vida e com ela se decepcionou. Viajou pelo mundo sob efeito de absinto e haxixe, virou traficante de armas, passou Uma Temporada no Inferno e retornou para nos narrar a experiência.

Miller, por sua vez, era subversivo e foi enfaticamente tachado de pornográfico. Trópico de Câncer, sua obra mais famosa, de 1934, foi banida em diversos países sob a acusação de obscenidade. Foi, em muitos sentidos, tão sonhador quanto seu ídolo e também experimentou o desconcerto com o mundo. O americano conheceu os versos de Rimbaud quando já adulto, e os recebeu com “o impacto de um tiro”.

O livro, que nasceu de uma tentativa falha de traduiz Uma Temporada no Inferno, exalta o poeta destacando a importância de sua obra para a literatura ocidental. Segundo o escritor, os trabalhos de Rimbaud não foram devidamente reconhecidos pela História. Por seu comportamento nada convencional, o jovem rebelde ficou marginalizado e sua poesia desmerecida. Miller se identifica com essa depreciação sofrida por ele e descobre no ídolo fraquezas e dúvidas que os aproximam.

Só agora se começa a compreender o que Rimbaud fez, não só pela poesia, mas pela linguagem. E isso, a meu ver, mais por leitores que por escritores. Ao menos em nosso país. Quase todos os poetas franceses modernos foram influenciados por ele. E de fato, pode-se dizer que a poesia francesa contemporânea tudo lhe deve. Até hoje, porém, ninguém o superou em ousadia e invenção.
(…)
Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta corações humanos, que faça borbulhar o sangue.

Dividido em duas partes, “Analogia, afinidades, correlações e repercussões”, e “Quando é que os anjos deixam de se assemelhar?”, o livro explora ao extremo esse caráter de “maldito” compartilhado pelos dois. Mais ainda, Miller vê no poeta um espelho seu.

À medida que a identificação se acentua, o livro se transforma em uma divagação, um monólogo quase sem pausas. Vê em comum a “qualidade confessional” de ambos, o gosto pela linguagem, pela música, e a incapacidade de adaptação a qualquer lugar, o “desenraizamento”.

As reflexões do autor sobre episódios da vida de Rimbaud se misturam a relatos de sua própria, deixando o fluxo de pensamentos se tornar cada vez mais intenso. Miller dedica boa parte do estudo para refletir sobre os anos finais de vida do francês e ao seu ato último, o suicídio. E coube também ressaltar as diferenças entre o escritor e seu ídolo.

Rimbaud trocou a literatura pela vida; fiz o contrário. Ele fugiu das quimeras que tinha criado; eu as aceitei. Temperado pela loucura e desperdício da mera experiência, dei um basta e concentrei minhas energias na criação. Mergulhei no ato de escrever com o mesmo fervor e entusiasmo com que mergulhara na vida.

Sincero e cativante, o livro A Hora dos Assassinos (L&PM) também cumpre um papel que seu autor jamais imaginou: ao mesmo tempo em que revela traços autobiográficos de Henry Miller, ultrapassa a vã tentativa de compreender a temática poética do francês e sua vida perturbada, e se torna um rico e íntimo relato de apego ao enfant terrible que tornou a poesia “perigosa demais”.

Em defesa da simplicidade

Estava atolada de livros para a faculdade. Livros que exigiam muita atenção, anotações e dedicação aos detalhes. Fui à casa de uma amiga jantar quando então o vi: Volta ao mundo em 80 dias, do francês Júlio Verne. Estava ali, esquecido, quase sumindo com suas 123 páginas em meio a tantos livros grossos e pomposos. E que bom que o encontrei.

Em meio a tantas leituras complicadas, foi um enorme alívio achar uma obra tão boa e tão simples. O texto é leve e a história muito divertida: Fíleas Fogg, nobre meticuloso e imperturbável, aposta com os colegas do Clube Reformador que é possível – no século XIX – dar a volta ao mundo em exatamente 80 dias. Quando ele parte para a viagem com seu empregado Jean Passepartout, começa uma investigação de um roubo de 55 mil libras do banco inglês. Aparentemente, os sinais físicos do assaltante batem com os de Fíleas, que se torna suspeito – e a viagem, uma fuga.

Durante os escassos instantes em que pudera vislumbrar Phileas Fogg, Passepartout havia examinado, rápida mas meticulosamente, o futuro patrão. Este era um homem de uns quarenta anos, de nobre e bela aparência, alto (…). Parecia possuir uma dose extremamente elevada daquilo que os fisionomistas denominam ‘repouso da ação’, faculdade comum a todos aqueles que mais realizam que apregoam.”

Quando você percebe – tarde demais para se conformar – o livro acabou. Mas aí está a graça: ele pode não te dar as melhores citações, como Água Viva, pode não propor as mais complicadas questões filosóficas, como Insustentável Leveza do Ser, e pode não ter o requinte de Lolita. Mas isso é ótimo. Volta ao mundo em 80 dias é divertido e muito rico, em sua simples maneira.

PS: Quem quiser baixar o livro, ele pertence ao domínio público :)