Pílulas de Saramago

Para quem gosta do autor português, o blog Outros Cadernos de Saramago, mantido pela Fundação José Saramago, traz trechos de livros, escritos políticos e entrevistas do renomado escritor, como esse aí:

Postado em Setembro 15, 2010

Simplesmente humanidade

Há um personagem [a rapariga dos óculos escuros] no meu livro [Ensaio sobre a Cegueira] que pronuncia as palavras chave: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Isso é o que somos”. Do que necessitamos é procurar e dar um nome a essa coisa: talvez lhe possamos chamar, simplesmente, “humanidade”.

“Las palabras ocultan la incapacidad de sentir”, ABC (Suplemento ABC Literario), Madrid, 9 de Agosto de 1996

Heteronímia

O trecho abaixo é retirado de uma carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de janeiro de 1935, época do lançamento de Mensagem. Nela, o poeta conta ao amigo como surgiram Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive (…).
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

(Clique aqui para ler o texto na íntegra)

É interessante notar que Pessoa fala dos três heterônimos partindo de uma autonomia deles, o que acaba por despersonalizar o próprio criador. O poeta “criou em si o seu mestre”, que se mostra mais completo e com características poéticas que, em tese, o próprio Pessoa não possui. E mesmo a justificativa para que eles não apareçam em Mensagem, de que “são mais puros e mais complexos”, demonstra isso.

Mas pode ele colocar em um heterônimo algo que ele mesmo não tem? Como em Álvaro de Campos, em que colocou uma emoção que não concede “nem a si mesmo nem à vida”? Aí percebemos o fenômeno singular que representam essas criações – poetas completos em si, independentes de Fernando Pessoa “ele mesmo”.