Três contos

Aproveitei o domingo para fuçar na internet atrás de coisas sobre Anne Enright, autora de O Encontro (resenha aqui, trechos aqui) e de Valsa Esquecida (trechos aqui), minha última leitura. Achei três contos – em inglês – da irlandesa publicados no site da revista amerina New Yorker, todos muito bons. Por isso preparei um pequeno guia – bem básico mesmo – para quem tiver interesse:

In the Bed Department (clique aqui)

Kitty trabalha em uma loja de departamentos, na seção de camas. Ela observa sua vida mudar, ao mesmo tempo que vê pequenas transformações na loja. “Ela ficou na Seção de Camas e esperou por ondas de calor. Ela não se importava de envelhecer desde que significasse um crescimento fácil, mas não parecia estar acontecendo dessa maneira. Houve uma agitação, uma turbulência no seu sangue.”

Natalie (aqui)

Natalie é uma garota “como uma chama na luz do dia (…) –  inabalável, dificilmente você pode vê-la, mas ela está sempre lá”. Acompanhamos os acontecimentos na família de Billy, seu namorado, à partir do olhar atento – como uma observadora de pássaros, que ainda não entende seu foco de atenção – da nossa narradora, a melhora amiga da garota.

Della (aqui)

Della percebe que seu vizinho – que ela considera o homem mais irritante do mundo – está cego. O conto, meu favorito dos três, nos mostra como a velhice está ligada às lembranças. “Às vezes ela queria lembrá-lo que ele não a conhecia realmente. Que qualquer um podia ter comprado a casa vizinha. Qualquer um podia estar passeando com o filho recém-nascido no jardim frontal quando ele passasse e perguntasse ‘como está o fedelho?’ através do muro.”

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PS1: Os trechos nas pequenas sinopses foram traduzidos por mim, sem pretensão nenhum de soar profissional. Por isso, fiquem atentos à versão original, sempre (muito) mais rica.

PS2: No site da revista também está publicado o conto Taking Pictures, mas é restrito a assinantes.

Solidão dos poetas

“Afirma Kafka que escrever é um sono mais profundo que a morte. Ainda pensando em  Cabral, eu me pergunto que poeta dormia dentro dele enquanto escrevia seus versos de pedra. Pergunto-me, também, que poeta dormia dentro de Kafka, levando-o a escrever uma ficção tão metódica e ríspida. Talvez Kafka e Cabral se encontrem aí: na frieza. Nos dois casos, ela parece ser apenas o nome fantasioso de uma explosão. Ninguém escreve Uma faca só lâmina, ninguém escreve O processo sem um coração em chamas. A escrita (é isso o que Kafka nos diz) é o manto com que o abafamos.

Penso em meu próprio e pequeno caso. Sempre que estou diante de situações atordoantes, quase sempre sou tomado por um súbito sono. Posso vê-lo como um esgotamento, mas também como um cobertor. Sempre que tomo minhas tristes anotações, elas me servem igualmente como uma coberta. Um anteparo. Uma defesa. Não é isso a literatura, uma maneira de dizer o impossível? Não é para isso que as palavras servem, para nos iludir a respeito de nossa solidão?”

(Trecho do ensaio Kafka e Cabral com sono, de José Castello, reproduzido na versão impressa – e no site – do jornal Rascunho)

Kafka e as deformidades

“Quando visitava uma exposição de pintura francesa numa galeria de Praga, Franz Kafka ficou diante de várias obras de Picasso, naturezas-mortas cubistas e alguns quadro pós-cubistas. Estava acompanhado na ocasião pelo jovem Gustav Janouch, escritor de quem foi mentor na adolescência e que deixou um dos mais importantes depoimentos sobre o poeta tcheco – Conversas com Kafka. Janouch comentou que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka respondeu que Picasso não pensava desse modo: ‘Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência’. Com uma pontaria de mestre, acrescentou que ‘a arte é um espelho que adianta, como um relógio’, sugerindo que Picasso refletia algo que um dia se tornaria lugar-comum da percepção -“não as nossas formas, mas as nossas deformidades’.”

– Trecho do ensaio Realismo de Kafka, no livro Lição de Kafka (Companhia das Letras), de Modesto Carone

O Encontro

Os Hegarty são uma família grande. Doze filhos de uma mãe cuja função na vida parece ser apenas procriar e cuidar da prole, completados por um pai rígido e um tanto ausente. E como em toda família, há histórias e memórias de infância que deveriam ficar guardadas para sempre.

Em O Encontro (Alfaguara), da irlandesa Anne Enright, são máculas como essas que Veronica tem que enfrentar ao embarcar em uma viagem para recolher o corpo de seu irmão suícida, Liam, em Londres. Ganhador do Man Booker Prize de 2007, o sexto romance da escritora traz um texto furioso, que nos machuca por sua forma seca e despretensiosa.

Não importa. Não sei qual é a verdade e não sei como contar a verdade. Tudo o que tenho são histórias, ideias noturnas, as súbitas convicções que a incerteza desova. Tudo o tenho são delírios, é mais isso. (…) Espero pelo sentido que o amanhecer nos traz quando não se dorme nada.

Duas histórias coexistem na Dublin de tempo chuvoso. Veronica resgata lembranças da relação com seu irmão mais querido: as brincadeiras na casa sempre cheia de gente, as encrencas da adolescência e as primeiras mágoas. A tentativa de fuga do cotidiano acontece com voltas noturnas de carro, quase os únicos momentos de sossego que consegue. Ela aprende que nem sempre gostamos das pessoas que amamos, ou que temos que amar. Sua crise matrimonial e a falta de carinho pelas filhas deixam-na em um buraco de solidão que só poderá ser superado com o enfrentamento.

Paralelamente, memórias – algumas não vividas por ela, mas contadas entre os Hegartys – reconstroem o encontro de Ada Merriman, sua avó, com o futuro marido Charlie. O passado, já enterrado há muito, e o presente, dolorido e sufocante, estão ligados inevitavelmente. O casamento de Ada, a presença sempre constante do amigo do casal, Lambert Nugent e as férias com os netos em Brodstone são chave para entender o desfecho de Liam.

Ela sabe porque ela é minha avó e quando colocava a mão no meu rosto eu sentia a proximidade da morte e era confortada por isso. Não há nada mais prescrutador que o toque de uma velha; tão amoroso e tão horrendo.

As duas histórias, ambas permeadas por cenas frias e escuras, se juntam para explicar a tragédia de uma família já cheia de desgraças. A presença da morte e a perda das pessoas amadas vêm nos lembrar que as tarefas cotidianas não são tão importantes como imaginamos. Em certa medida, Veronica invejava o irmão. Liam conseguiu uma libedade que ela não parece capaz de reclamar para si. A vida do jovem longe da família superpopulosa, entretanto, não foi sua salvação.

As personagens são comuns, quase estereótipos, mas sem o serem de maneira alguma. Os sentimentos são compartilhados, as mágoas são banais. Enright nos propõe uma história sobre sentimentos sem cair no melodrama. Ao contrário, traz a tona o que pensamos mas não temos coragem de pronunciar, uma realidade tão crua que chega a ser irônica. Sobretudo, O Encontro é uma história simples. Uma história provocadora sobre Veronica, Ada, ou sobre qualquer um de nós.

Melhores inícios

Tem livros que são tão bons, que começam ótimos já desde as primeiras linhas. Eles te conquistam de primeira e você não os larga mais.

Pensando nisso, fiz a minha listinha do que considero as aberturas mais incríveis que já li, em ordem de preferência.

5. Medo e Delírio em Las Vegas – Hunter S. Thompson

 “Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito…”

4. Ana Karênina – Liev Tolstói

“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”

3. Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

“Se querem realmente saber a meu respeito, a primeira coisa que provavelmente vão querer saber é onde nasci, e como foi a desgraçada da minha infância, o que meus pais faziam antes de me terem, e toda aquela baboseira tipo David Copperfield, mas não estou afim disso, se querem saber a verdade.”

2. A Metamorfose – Franz Kafka

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

1. Lolita – Vladimir Nabokov

“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.”