Flaubert versus Balzac

James Wood, no ótimo Como funciona a ficção (Cosac Naify), opina – em uma nota de rodapé com um tamanho digno de David Foster Wallace -, sobre qual dos dois  gigantes da literatura, afinal, seria o francês “fundador da narrativa moderna de ficção”.

Há três diferenças entre o realismo de Balzac e o realismo de Flaubert: primeiro, Balzac observa bastante em sua literatura, é claro, mas a ênfase sempre recai mais na abundância do que numa seleção cerrada dos detalhes. Segundo, Balzac não tem nenhum compromisso especial com o estilo indireto livre nem com a impessoalidade do autor e se sente livre para se intromenter como autor/ narrador, com ensaios, digressões e informações sobre dados sociais. (Nesse aspecto, ele parece decididamente setecentista.) Terceiro, e decorrendo das duas diferenças anteriores: ele não tem nenhum interesse tipicamente flaubertiano em apagar a questão de quem é que está vendo tudo. Por tais razões, considero Flaubert, e não Balzac, o verdadeiro fundador da narrativa moderna de ficção.

O autor de Madame Bovary e A educação sentimental seria, segundo Wood, um “realista e um estilista”. O primeiro quer registrar tudo o que vê (à maneira balzaquiana), e o segundo “quer disciplinar essa enxurrada de detalhes, convertê-los em frases e imagens impecáveis”.

Intertextualidade e questões morais

Um dos livros mais consagradas da literatura mundial é também um dos mais controversos. Lolita (Abril Cultural), do russo-americano Vladimir Nabokov, foi taxado de pornográfico e considerado impróprio à época de sua publicação, em 1955, apesar de alcançar um sucesso estrondoso, esgotando edições em diversos países.

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Humbert Humbert, um professor de meia idade – e também nosso narrador -, envolve-se com a pequena Dolores Haze, apelidada de Lolita; sua enteada de 12 anos de idade. Ele mostra saber, durante toda a história, que seus atos são condenáveis, mas busca legitimá-los citando célebres escritores e figuras históricas que se casaram com garotas mais novas, suas próprias Lolitas.

Ele invoca Virgílio, Dante, e muitos outros que, supostamente, experimentaram a mesma atração irresistível e sufocante por meninas na “flor da idade” – se bem que em outra época, quando o casamento com noivas jovens era um hábito aceitável, e muitas vezes até incentivado pelos pais da moça.

O maior exemplo em que Humbert apoia sua defesa, entretanto, ele o faz discretamente em seu discurso, já no início da narração:

Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante.

Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins – os mal informados, simples alados serafins – invejavam. Olhai este emaranhado de espinhos.

Kingdom by the sea, seraphs1 e muitos outros termos são retirados do poema Annabel Lee, de Edgar Allan Poe. Este, um dos mestres de horror e do sobrenatural, casou-se com sua prima de 14 anos de idade, quando tinha pouco mais de 20 anos. Ou seja, fazendo referência ao poema, Humbert faz alusão a seu autor. Há, afinal, jeito melhor de tentar se justificar, mostrando que não foi o único, que, antes dele, homens admiráveis agiram da mesma forma?

Nos versos, Poe descreve um amor tão intenso, tão poderoso que despertou a inveja dos anjos, causando a morte de sua amada.

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.2
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.3

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(Tradução de Fernando Pessoa)

Annabel, não por acaso, também era o nome da primeira namorada de Humbert, a “precursora” de Dolores, quando eles ainda eram crianças – I was a child and she was a child4.

Humbert compõe sua defesa – lembrando que ele possui “uma prosa de estilo extravagante”, que utiliza muito sabiamente para nos contar sua versão da história – criando intertextualidades e arranjando argumentos sutilmente, que nos fazem criar empatia, apesar de não concordarmos com sua ações e escolhas.

***

1. “Reino ao pé do mar” e “anjos” na tradução de Fernando Pessoa para o poema; “principado junto ao mar” e “serafins” na tradução do livro de Brenno Silveira (São Paulo: Abril Cultural, 1981).
2. No original: “In a kingdom by the sea,”
3. “With a love that the winged seraphs of Heaven/ Coveted her and me.”
4. “Eu era criança e ela era criança” no poema.

Ginsberg e McCartney juntos

Em 1995, quando estava de visita na casa de Paul McCartney, na Inglaterra, o poeta beat Allen Ginsberg (já com 70 anos de idade e a saúde frágil) convidou o ex-Beatle para musicar seu poema The Ballad of the Skeletons.

O resultado da parceria seria apresentado para apenas para a plateia em uma leitura de poesia no Royal Albert Hall, mas a combinação deu tão certo que virou oficial, e ganhou um vídeo clipe um ano mais tarde, dirigido pelo premiado diretor de cinema Gus Vun Saint (assista abaixo).

O poema pode ser lido na íntegra aqui.

As informações (e a história completa) são do Open Culture.

A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.

Rayuela: edição comemorativa

Aproveitei que estava em Buenos Aires em meio às comemorações dos 50 anos de Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, para comprar a edição especial que a Alfaguara lançou por lá – e vim postar algumas fotos aqui no blog, para quem ainda não viu.

A obra, descrita pelo crítico Otto Maria Carpeaux como “um dos romances mais complexos e mais importantes deste século”, foi lançado em junho de 1963, em meio ao boom da literatura latino-americana.

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O especial dessa edição é a coleção de cartas, que  vão de 17 de dezembro de 1958 a 29 de outubro de 1972, nas quais Cortázar fala sobre o processo de elaboração do romance. Assim, podemos descobrir um pouco mais sobre o livro, mas também entender mais sobre seu autor.

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Achei a edição bem bonita, e tem a vantagem de ser o texto original, em espanhol, o que sempre proporciona uma experiência mais rica para o leitor.

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Pra quem gosta do autor argentino, vale  apena investir na edição. Lá em BAs, paguei cerca de 50 reais, então quem quiser encomendar aqui do Brasil tem que se preparar para desembolsar um pouco mais. Para quem quer saber mais, o El País fez um especial sobre Jogo da Amarelinha (clique aqui).

Lembrando também que ano que vem marca os 30 anos da morte de Cortázar (em fevereiro) e também o centenário de seu nascimento (em agosto), então mais homenagens e comemorações são esperadas em todo o mundo.

Lá em cima, na montanha

Acho muito difícil falar sobre livros consagrados. É sempre um desafio abordar obras tão discutidas, tão analisadas e  tão amadas. Mas não tinha como eu não falar deste livro: meu lado impulsivo de leitora não iria deixar.

A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann, me pegou em um momento em que eu não tinha tempo para ler quase nada, quanto mais uma obra de mais de 900 páginas recheada de difíceis considerações filosóficas. Mas acho que foi por isso mesmo, de um jeito estranho, que me apaixonei pelo livro. Era o momento errado -de lê-lo, o que acabou sendo o certo.

Por isso, resolvi deixar aqui alguns pontos de reflexão que Jorge de Almeida levantou em sua ótima palestra sobre a obra de Mann, na Biblioteca Mário de Andrade, em junho. O professor de filosofia destacou, sobretudo, o Tempo.

  1. Tanto narrador como personagens se perdem na contagem do tempo. Na obra, o jovem engenheiro Hans Castorp vai fazer uma visita de três semanas ao primo doente, internado no sanatório Berghof, na região dos Alpes Suíços. Acaba ficando sete anos, o que mostra como a cronologia é distorcida “lá no topo”, na montanha em que fica o hospital.
  2. Nós também nos perdemos: Mann usa pouco mais de 100 páginas para narrar os acontecimentos de apenas um dia, quebrando totalmente nosso paralelo ao percebemos que, na página 102, ainda estamos acompanhando o primeiro contato de Castorp com as pessoas e o ambiente novo, quando a impressão é que se passaram semanas na história.
  3. Ele, Castorp, sai de uma metrópole (Hamburgo) para uma pequena cidade pacata onde nada acontece, ainda mais no topo da montanha. Mas o tédio não está presente no microcosmos do sanatório: o aborrecimento só é possível no intervalo de duas atividades, mas, ao contrário, não há quase ação lá. A rotina, muito regreda, se guia pelos horários de repouso diários. “Quando um dia parece como todos, todos os dias parecem como um só”.
  4. Além das horas reservadas para descanso, intercalados com as refeições, os moradores de Berghof têm outros índices próprios de tempo: o gráfico de temperatura de cada paciente, medido pelo termômetro cinco vezes ao dia, e as conferências quinzenais do doutor Krokowski.
  5. As estações do ano também se misturam “lá em cima”. Em um único dia, em uma única semana, todas estão presentes. Não há inverno ou verão definidos, mostrando que até mesmo a natureza perde sua bases naquele ambiente mágico.

O tema é tão presente na obra, que o próprio Hans Castorp gasta muitas horas de seus dias pensando e tentando entender do que se trata:

Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas, deixaria de haver tempo, se não houvesse movimento? Não haveria movimento, sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, “traz consigo”. Que é que traz consigo? A transformação. O Agora não é o Então; o Aqui é indiferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o Então repete-se constantemente no Agora, e o Ali reaparece no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidindo-nos configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução aproximada a zero? É impossível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito? São compatíveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência de corpos limitados no Universo? Quantas perguntas improfícuas!

OBS: Li a edição do Círculo do Livro, mas, claro, há edições mais modernas e atualizadas, como a da Nova Fronteira.

Uma pequena nota

Apesar da minha paixão por Para te comer melhor (resenha aqui, e um trecho aqui), já há muito me conformei com a falta de reconhecimento da crítica brasileira com o autor, Eduardo Gudiño Kieffer. Ainda acredito nisso, mas a descoberta de um pequeno verbete sobre o escritor argentino em História da Literatura Hispano-americana, da crítica Bella Jozef, me deu uma alegria imensa. Kieffer está lá, ao lado de García Márquez, Vargas Llosa e outros pilares da literatura latina.

EDUARDO GUDIÑO KIEFFER (1932) – Em Para Comerte Mejor (1968), com sentido da narração, recria todas as possibilidades de uma linguagem expressiva. Manifesta, ao mesmo tempo, humor negro e ternura pelos destinos dos seres que desfilam em suas páginas e darão humanidade a este romance de estrutura aberta. Em Guía de Pecadores (1972), numa linguagem que deve muito a Quevedo, o grotesco e a farsa são trabalhados pela imaginação criadora do autor. Seus malabarismos técnicos, riqueza de linguagem e o ressurgimento do gênero picaresco fazem com que a realidade mais profunda se converta em algo irreal e grotesco neste caleidoscópio alucinante.

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Uma inspiração?

Em Histórias de Cronópios e de Famas (Civilização Brasileira), de 1962, de Julio Cortázar:

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio.
Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se.
Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

Em Para te comer melhor (Alfa-Omega), de 1968, de Eduardo Gudiño Kieffer:

Está nublado, chove. Escuta-se o tipi tip tip tap das gotas suicidando-se contra os vidros da janela. Uma luz acizentada enfeia as paredes e a beira dos móveis. O mundo acordou frio, paco, cinzento.

O desabafo de Duras

Durante o período da Segunda Guerra Mundial, a francesa Marguerite Duras sofria com a ocupação nazista no país. Mais que sofrer, se viu afastada de amigos e de seu amor, Robert – que fora lutar no front de batalha. A dor é exatamente uma tentativa de registrar a angústia – e se libertar dela – de uma das épocas mais difíceis de sua vida, um trabalho autobiográfico (com trechos ficcionais, acreditam muitos críticos) agoniante para o leitor.

O interessante, entretanto, é o prefácio da obra, em que a autora afirma não se lembrar de ter escrito os textos que compõe o relato – de dor, carinho, esperança e desespero:

Encontrei este diário em dois cadernos, nos armários azuis de Neaupble-le-Château.

Não tenho lembrança alguma de tê-lo escrito.

Sei que o fiz, que fui eu que escrevi, reconheço minha letra e os detalhes do que relato: revejo o lugar, a Estação de Orsay, os trajetos, mas não me vejo escrevendo o diário. Quando foi que o escrevi, em que ano, em que horas do dia, em que casa? Não sei mais nada.

O que é certo, evidente, é que não me parece possível ter escrito este texto enquanto esperava por Robert L.

Como pude escrever isto, que ainda não sei nomear e que assombra quando releio? Como pude abandonar este texto durante anos naquela casa de campo constantemente inundada no inverno?

A primeira vez que me preocupei com ele foi quando a revista Sorcièrse me solicitou um texto escrito em minha juventude.

A dor é uma das coisas mais importantes de minha vida. A palavra “escrito” não seria adequada. Encontrei-me diante de páginas metodicamente preenchidas com uma letra extraordinariamente regular e calma. Encontrei-me diante de uma fenomenal desordem de pensamento e do sentimento, que não ousei tocar, e comparada à qual a literatura me envergonha.

O olfato de Gabito

Como uma boa leitora da obra do colombiano Gabriel García Márquez, sempre achei curioso o gosto do autor por cheiros, odores, aromas e perfumes. Um sentido muitas vezes esquecido por nós, humanos, ganha importância em suas histórias e se mostra revelador na descrição de ambientes e personagens.

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Márquez abre Do amor e outros demônios, por exemplo, relacionando um cheiro aparentemente tão banal com um sentido nem tão convencional:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Em A Revoada, seu primeiro livro, publicado em 1955, são muitas as referências a odores. Grande parte delas se relaciona ao cheiro de putrefação do cadáver do Doutor após seu suicídio, acontecimento que norteia o livro, e o cheiro de podridão que a companhia bananeira deixou no povoado, com sua revoada de destruição. Mas uma, longe disso, tem um significado especial, mais amplo que a simples constatação de um cheiro. É uma lembrança:

Não há em toda casa um só cheiro que eu não reconheça. Quando me deixam sozinho no corredor, fecho os olhos, estendo os braços e caminho. Penso: “Quando sentir um cheiro de rum canforado, estarei no quarto do meu avô.” (…) Continuo caminhando e sinto o cheiro no mesmo instante em que escuto a voz de minha mãe, cantando no quarto. Então sinto o cheiro de alcatrão e de naftalina.
(…)
Essa noite, quando eu começava a dormir, senti um cheiro que não existe em nenhum dos outros quartos da casa. Era um cheiro forte e morno, como se alguém tivesse mexido num jasmineiro.
(…)
– Está sentindo? É como se houvesse jasmins em alguma parte.
Então ela [Ada] disse:
– É o cheiro dos jasmins que durante nove anos ficaram junto do muro.
Sentei-me em suas pernas.
-Mas agora não há jasmins – disse. E ela disse:
–  Agora não. Mas há nove anos, quando você nasceu, havia um jasmineiro plantado junto à parede do pátio. De noite fazia calor e cheirava como está cheirando agora.

Ela remonta uma lembrança da casa de seus avós em Aracataca, como descreve em sua autobiografia Viver para contar. “Cataca”, como chama a cidade carinhosamente, cheirava a jasmins no tempo em que morou lá. Porém, quando retornou anos depois com sua mãe para vender a casa, não encontrou o aroma que definia o pequeno povoado, agora destruído pela partida da companhia bananeira.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma de jasmins, o amor.

E as semelhanças entre a cidade ficcional de Macondo e Aracataca não são à toa: no mesmo livro, Márquez nos conta como a pequena cidade dos avós inspirou a criação do povoado que estaria em três livros seus. Voltando ao olfato, o mais próximo que cheguei de uma explicação por essa fascinação veio também de Viver para contar. Nele, Márquez conta como sua educação formou essa sensibilidade:

O consolo foi que em Cataca tinham aberto naqueles anos a escola montessoriana, cujas professoras estimulavam os cinco sentidos através de exercícios práticos, e ensinavam a cantar. Aprendi a apreciar o olfato, cujo poder de evocações nostálgicas é arrasador. O paladar, que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa. Na teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos, mas quem os tenha vivido os compreenderá de imediato.

Assim, o olfato vira um poderoso instrumento descritivo nas mãos do escritor colombiano. Então a reunião de depoimentos feitos a seu amigo, Plinio Apuleyo Mendonza, publicada aqui no Brasil pela Record, não poderia ter um nome que combinasse mais com o autor: Cheiro de Goiaba.