Para animar a segunda-feira

A série Blank on Blank, dos estúdios PBS Digital, traz grandes nomes da música, arte, literatura, política e esportes, como James Brown e Fidel Castro, em curtas de animação bem divertidos (em inglês). Separei dois para deixar aqui:

O escritor David Foster Wallace fala sobre perfeccionismo e ambição, seus anos de estudo e a prática de esportes.

Perfectionism is very dangerous, because, of course, if your fidelity to perfectionism is too high you never do anything. Because doing anything results in – it’s actually kind of tragic – because it means you sacrifice hoe gorgeous and perfect it is in your head for what it really is.

***

Maurice Sendak, autor do livro infantil Onde vivem os monstros, fala sobre as delícias e aventuras de ser criança.

I always had a deep respect for children and how they solve complex problems by themselves. (…) I think through shrewdness, fantasy and just plain strenght. They want to survive. They want to survive.

Os áudios são originais, de entrevistas concedidas por eles.
Quem quer ver todos os vídeos da série, é só clicar aqui.

PS: Estou numa fase de amor com vídeos animação, perceberam? :)

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Monstros à solta (É sexta-feira 13!)

Em 1816, o poeta Percy Bysshe Shelley e sua noiva Mary Shelley, acompanhados da meia-irmã dela, Claire Clairmont, foram passar um fim de semana agradável na propriedade do amigo e também poeta Lord Byron, na região do Lago Genebra, na Suíça. Para completar o grupo, o também escritor John Polidori.

Porém, os planos dos cinco foram interrompidos por uma forte tempestade, que acabou obrigando o grupo a confinados na mansão por quase todo o período. Como passar o tempo? Contar histórias de terror, claro.

Então começou o festival de vampiros, aberrações e fantasmas. Após esgotarem o repertório de contos que conheciam, e para não ficarem olhando para o teto, Lord Byron teve a ideia de cada um escrever uma história nova, e competirem por quem inventaria a narrativa mais horripilante.

Foi assim que Mary, de apenas dezenove anos, criou o doutor Victor Frankenstein e seu monstro feito de pedaços de cadáveres.

Frankenstein's_monster editado

O Moderno Prometeu se tornou um clássico da literatura gótica de horror, e um fenômeno mundial. A consagração final veio com o filme de James Whale, de 1931. O filme se tornou um sucesso (chegando a ganhar o túítulo de um dos 100 melhores filmes de todos os tempos, pelo American Film Institute) e consolidou a imagem do monstro interpretado por Boris Karloff, deixando-a gravada para sempre no imaginário popular.

Para combinar com esta sexta-feira 13, separei alguns vídeos de animação curtinhos inspirados na história de Mary Shelley e na estética do monstro de Frankenstein.

Aproveitem! :)

The Frank Job

Proinex Felices Fiestas

The Puppet Monster

E, para os saudosistas, o trailer do clássico de 1931:

Um pouco de Ray Bradbury

Nem tudo são flores no começo da carreira de um escritor. E com o americano Ray Bradbury, autor da consagrada distopia Fahrenheit 451, não foi diferente.

Nesse vídeo curtinho ele conta como no início o dinheiro era curto, como demorou para começar a receber pagamento pela publicação de seus textos, e, principalmente, como foi difícil gostar do que escrevia.

Somente após 10 longos anos o autor pôde realmente dizer que escreveu algo bonito – um conto chamado “O lago”. E, nesse momento, ele percebeu o que fez de certo:

I turned the corner into my interior self. I wasn’t writing exterior stuff, I wasn’t writing for the right or the left or for the in between. I was writing for me. And I discovered that was the way to go.

O segredo, diz ele, é a persistência: escrever, escrever e escrever mais. 

Achei no blog da Eletric Literature.

Flaubert versus Balzac

James Wood, no ótimo Como funciona a ficção (Cosac Naify), opina – em uma nota de rodapé com um tamanho digno de David Foster Wallace -, sobre qual dos dois  gigantes da literatura, afinal, seria o francês “fundador da narrativa moderna de ficção”.

Há três diferenças entre o realismo de Balzac e o realismo de Flaubert: primeiro, Balzac observa bastante em sua literatura, é claro, mas a ênfase sempre recai mais na abundância do que numa seleção cerrada dos detalhes. Segundo, Balzac não tem nenhum compromisso especial com o estilo indireto livre nem com a impessoalidade do autor e se sente livre para se intromenter como autor/ narrador, com ensaios, digressões e informações sobre dados sociais. (Nesse aspecto, ele parece decididamente setecentista.) Terceiro, e decorrendo das duas diferenças anteriores: ele não tem nenhum interesse tipicamente flaubertiano em apagar a questão de quem é que está vendo tudo. Por tais razões, considero Flaubert, e não Balzac, o verdadeiro fundador da narrativa moderna de ficção.

O autor de Madame Bovary e A educação sentimental seria, segundo Wood, um “realista e um estilista”. O primeiro quer registrar tudo o que vê (à maneira balzaquiana), e o segundo “quer disciplinar essa enxurrada de detalhes, convertê-los em frases e imagens impecáveis”.

Intertextualidade e questões morais

Um dos livros mais consagradas da literatura mundial é também um dos mais controversos. Lolita (Abril Cultural), do russo-americano Vladimir Nabokov, foi taxado de pornográfico e considerado impróprio à época de sua publicação, em 1955, apesar de alcançar um sucesso estrondoso, esgotando edições em diversos países.

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Humbert Humbert, um professor de meia idade – e também nosso narrador -, envolve-se com a pequena Dolores Haze, apelidada de Lolita; sua enteada de 12 anos de idade. Ele mostra saber, durante toda a história, que seus atos são condenáveis, mas busca legitimá-los citando célebres escritores e figuras históricas que se casaram com garotas mais novas, suas próprias Lolitas.

Ele invoca Virgílio, Dante, e muitos outros que, supostamente, experimentaram a mesma atração irresistível e sufocante por meninas na “flor da idade” – se bem que em outra época, quando o casamento com noivas jovens era um hábito aceitável, e muitas vezes até incentivado pelos pais da moça.

O maior exemplo em que Humbert apoia sua defesa, entretanto, ele o faz discretamente em seu discurso, já no início da narração:

Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante.

Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins – os mal informados, simples alados serafins – invejavam. Olhai este emaranhado de espinhos.

Kingdom by the sea, seraphs1 e muitos outros termos são retirados do poema Annabel Lee, de Edgar Allan Poe. Este, um dos mestres de horror e do sobrenatural, casou-se com sua prima de 14 anos de idade, quando tinha pouco mais de 20 anos. Ou seja, fazendo referência ao poema, Humbert faz alusão a seu autor. Há, afinal, jeito melhor de tentar se justificar, mostrando que não foi o único, que, antes dele, homens admiráveis agiram da mesma forma?

Nos versos, Poe descreve um amor tão intenso, tão poderoso que despertou a inveja dos anjos, causando a morte de sua amada.

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.2
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.3

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(Tradução de Fernando Pessoa)

Annabel, não por acaso, também era o nome da primeira namorada de Humbert, a “precursora” de Dolores, quando eles ainda eram crianças – I was a child and she was a child4.

Humbert compõe sua defesa – lembrando que ele possui “uma prosa de estilo extravagante”, que utiliza muito sabiamente para nos contar sua versão da história – criando intertextualidades e arranjando argumentos sutilmente, que nos fazem criar empatia, apesar de não concordarmos com sua ações e escolhas.

***

1. “Reino ao pé do mar” e “anjos” na tradução de Fernando Pessoa para o poema; “principado junto ao mar” e “serafins” na tradução do livro de Brenno Silveira (São Paulo: Abril Cultural, 1981).
2. No original: “In a kingdom by the sea,”
3. “With a love that the winged seraphs of Heaven/ Coveted her and me.”
4. “Eu era criança e ela era criança” no poema.

Ginsberg e McCartney juntos

Em 1995, quando estava de visita na casa de Paul McCartney, na Inglaterra, o poeta beat Allen Ginsberg (já com 70 anos de idade e a saúde frágil) convidou o ex-Beatle para musicar seu poema The Ballad of the Skeletons.

O resultado da parceria seria apresentado para apenas para a plateia em uma leitura de poesia no Royal Albert Hall, mas a combinação deu tão certo que virou oficial, e ganhou um vídeo clipe um ano mais tarde, dirigido pelo premiado diretor de cinema Gus Vun Saint (assista abaixo).

O poema pode ser lido na íntegra aqui.

As informações (e a história completa) são do Open Culture.

A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.