Literatura e violência

2666 (Companhia das Letras) é monumental. Não só no tamanho, que pode afugentar alguns leitores com falta de tempo, mas em sua realização: ficamos presos à trama até a última linha, e lamentamos quando esta chega.

Escrito pelo chileno Roberto Bolaño pouco antes de sua morte, em 2003, foi pensado para sair em cinco volumes (os cinco grande capítulos em que a história é dividida na edição). Mas os herdeiros do escritor, juntamente com o editor, consideraram melhor publicar a obra em volume único. Quando publicado postumamente em 2004, foi amplamente aclamado e teve grandes elogios da crítica, sendo classificado como o melhor livro da carreira do autor de Os detetives selvagens, e como melhor livro daquele ano.

Ao mesmo tempo em que as cinco partes são independentes, totais em seus próprios núcleos narrativos, são conectadas pelo cenário mexicano – Bolaño morou por muitos anos no país -, a atmosfera de violência e a melancolia que atinge alguns dos personagens. E, por isso mesmo (o tamanho descomunal e as tramas autônomas) a resenha vai ser dividida conforme o livro, em cinco volumes.

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A parte dos críticos

Quatro críticos literários europeus, especialistas na obra de um recluso escritor alemão, Benno von Archimboldi, veem a amizade entre eles crescendo, com encontros em conferências e eventos de letras. Com a afinidade, nasce um triângulo amoroso entre o espanhol Manuel Espinoza, Liz Norton, britânica fria e objetiva, e Jean-Claude Pelletier, francês um tanto inseguro e sentimental.

Em busca de saber mais sobre a vida de Archimboldi, os três vão para Santa Teresa (que seria o equivalente ficcional de Ciudad Juaréz), no norte do México, seguindo uma pista de que o escritor estaria por alguma razão na cidade. Enquanto isso, o italiano Piero Morini, afastado dos envolvimentos amorosos dos outros – mas, muito mais que isso, afastado por ser considerado pelos outros dois homens como academicamente “menor”  -, permanece na própria casa à espera de novidades.

Paralelamente à pesquisa de informações que os levassem ao alemão, com ajuda de Amalfitano, professor de filosofia da universidade local, uma quantidade assustadora assassinatos de mulheres marca a região pelo medo, fato que quase não é notado pelos turistas críticos, mas que será central nas próximas partes. Os quatro formam um pequeno “clube” particular, intransponível, e adotam uma atitude esnobe com qualquer um que se aproxime dos “catedráticos”.

A primeira impressão que os críticos tiveram de Amalfitano foi mais para ruim, perfeitamente e acordo com a mediocridade do lugar, só que o lugar, a extensa cidade no deserto, podia ser visto como algo típico, algo cheio de cor local, mais uma prova da riqueza muitas vezes atroz da paisagem humana, enquanto Amalfitano só podia ser visto como um náufrago, um sujeito descuidado no vestir, um professor inexistente em uma universidade inexistente, o soldado raso de uma batalha perdida de antemão contra a barbárie (…)

A parte de Amalfitano

Seguimos os primeiros meses de Amalfitano, espanhol que vai dar aulas na Universidade de Santa Teresa, na pequena cidade mexicana na fronteira com os Estados Unidos. Infeliz e um tanto confuso, o professor não consegue superar a partida ex-mulher e mãe de sua filha Rebeca, anos antes.

Tentando se manter discreto na novo ambiente, Amalfitano enfrenta, porém, uma série de encontros desastrosos com o filho do reitor da universidade, Marco Antonio Guerra, jovem encrenqueiro e perturbado. Guerra apresenta a mesma visão de uma parcela da sociedade – principalmente com a onda de violência contra mulheres em pleno auge -, de que os mexicanos estão fadados ao fracasso: “Nós, mexicanos, estamos podres, sabia? Todos. Aqui não se salva ninguém.”

O professor está perdido entre o passado e a desilusão com o futuro, e não sabe para onde correr. Os dias passam sem que ele perceba, em uma toada triste que contamina a narrativa.

A parte de Fate

A viagem do americano Oscar Fate à Santa Teresa já começa de um ponto de vista negativo, que o marcará por toda o relato. Com a morte de sua mãe e uma confusão mental que com a qual ele não quer lidar, o jornalista cultural parte à trabalho para cobrir uma luta na cidade por falta do repórter esportivo da redação, e acaba envolvido não só com a história dos assassinatos mas também se vê em um romance um tanto perigoso com uma jovem local.

“Em que momento afundei?”, ele se questiona logo na abertura do capítulo, e a pergunta fica no ar acompanhada de muitas outras, que vêm e vão embora enquanto Fate tenta achar um caminho em busca de si mesmo, e em busca de algo que faça a vida valer ser vivida, algo a que se agarrar.

Aqui também se apresenta a mesma perspectiva de antes, dessa vez proferida por um senhor sentado no restaurante, uma conversa ouvida por Fate.

Vou compartilhar com você três certezas. A: essa sociedade está fora da sociedade, todos, absolutamente todos, são como os antigos cristãos no circo. B: os crimes têm assinaturas diferentes. C: essa cidade parece pujante, parece progredir de alguma maneira, mas o melhor que poderiam fazer é sair uma noite ao deserto e cruzar a fronteira, todos sem exceção, todos, todos.

A parte dos crimes

Sucessivos relatos dos homicídios – a maioria combinada de violência sexual, cujas vítimas são de classes sociais mais baixas, em geral trabalhadoras das fábricas maquiladoras – durante quatro anos, entre 1993 e 1997, constroem o histórico dos assassinatos e nos mostram a dimensão da brutalidade e da impunidade que atingem aquela parte do mundo.

Tomamos parte, também, das investigações da polícia local, que não se mostra muito empenhada em sua função, como percebemos por pequenas dicas que o autor nos dá ao longo do texto. A falta de vontade, ou de interesse, de fazer cessar os assassinatos e descobrir seu autor é tão frustrante que não conseguimos não nos sentir incomodados. E essa não é a única vez que o leitor se vê frente ao desconforto. As piadas machistas dos investigadores, a falta de provas, o jogo de poder… e a violência por si só nos tira do lugar confortável em que nos encontramos e nos joga na realidade de 2666.

A alternância entre os crimes, listados em uma linguagem objetiva e jornalística, e a visão de alguns agentes da polícia, os indiciados e a vida na cadeia, além de Florita Almada, uma senhora considerada vidente que aparece ocasionalmente na televisão, quebra algum possível cansaço causado pela quantidade de boletins policiais sobre as jovens mortas, e mantém o interesse em desvendar o que há por trás dos homicídios e a verdadeira culpa de um dos poucos suspeitos presos, Klaus Haas.

A parte de Archimboldi

Hans Reiter, alemão de proporções gigantescas e de família pobre, parte para lutar na Segunda Guerra Mundial. Durante uma inspeção a uma casa desocupada, em uma vila ucraniana, encontra o diário de um escritor chamado Boris Ansky. Com a leitura, cria um vínculo sentimental com o desconhecido, possivelmente já morto, e enxerga a vida por seus olhos. Ansky se torna seu companheiro, em um momento de isolamento humano e falta de esperança.

A literatura é assunto pulsante nessa parte final, se misturando não só à violência e à solidão da guerra, mas despertando ambições literárias em Reiter. O destino final do jovem vai se revelando conforme o passar dos anos, até a conexão final com os assassinatos em Santa Teresa e o resto da trama que compõe o conjunto de 2666.

Pendurar uma panela com água ou pôr o samovar junto dos tições se mostrava uma tarefa impossível, de modo que finalmente concluiu que quem havia construído o esconderijo o fez pensando que alguém, um dia, se esconderia e outra pessoa o ajudaria a se esconder. O que salva, pensou Reiter, e o que o salva. O que viverá e o que morrerá. O que fugirá quando cair a noite e o que ficará e se tornará vítima. Às vezes, de tarde, se enfiava no esconderijo, armado somente com os papéis de Boris Ansky e uma vela, e ficava ali até alta noite, até ficar com cãibra em seus músculos e com o corpo gelado, lendo, lendo.

***

Considerado o nome mais importante da literatura latino-americana desde Gabriel García Márquez, Bolaño criou uma obra de interligações e suspensões. Acompanhamos passo a passo o desenrolar da trama, sempre querendo mais, e cada vez mais perdidos em um labirinto de acontecimentos, autoenganos e pistas recolhidas: nos cabe desvendar os detalhes escondidos e outros discretamente colocados durante o texto, que facilmente passam desapercebidos a olhos desatentos. 

O ritmo é rápido, graças aos trechos curtos que compõe cada parte e que vão ora criando contrapontos entre diferentes personagens, ora segurando nossa ansiedade por mais peças que possam nos encaminhar para uma compreensão, e montar o quebra-cabeças por inteiro.

Sobre o número que dá nome ao livro, Ignacio Echevarría lembra, na nota sobre a primeira edição, uma referência a outra obra de Bolaño. Um trecho de Amuleto (Companhia das Letras) em que Auxilio Lacouture, seguindo Arturo Belano, afirma que “a [Avenida] Guerrero, a essa hora, se parece mais que tudo com um cemitério, mas não com um cemitério de 1974, nem com um cemitério de 1968, nem com cemitério de 1975, mas com um cemitério do ano de 2666, um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo.”

Intertextualidade e questões morais

Um dos livros mais consagradas da literatura mundial é também um dos mais controversos. Lolita (Abril Cultural), do russo-americano Vladimir Nabokov, foi taxado de pornográfico e considerado impróprio à época de sua publicação, em 1955, apesar de alcançar um sucesso estrondoso, esgotando edições em diversos países.

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Humbert Humbert, um professor de meia idade – e também nosso narrador -, envolve-se com a pequena Dolores Haze, apelidada de Lolita; sua enteada de 12 anos de idade. Ele mostra saber, durante toda a história, que seus atos são condenáveis, mas busca legitimá-los citando célebres escritores e figuras históricas que se casaram com garotas mais novas, suas próprias Lolitas.

Ele invoca Virgílio, Dante, e muitos outros que, supostamente, experimentaram a mesma atração irresistível e sufocante por meninas na “flor da idade” – se bem que em outra época, quando o casamento com noivas jovens era um hábito aceitável, e muitas vezes até incentivado pelos pais da moça.

O maior exemplo em que Humbert apoia sua defesa, entretanto, ele o faz discretamente em seu discurso, já no início da narração:

Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante.

Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins – os mal informados, simples alados serafins – invejavam. Olhai este emaranhado de espinhos.

Kingdom by the sea, seraphs1 e muitos outros termos são retirados do poema Annabel Lee, de Edgar Allan Poe. Este, um dos mestres de horror e do sobrenatural, casou-se com sua prima de 14 anos de idade, quando tinha pouco mais de 20 anos. Ou seja, fazendo referência ao poema, Humbert faz alusão a seu autor. Há, afinal, jeito melhor de tentar se justificar, mostrando que não foi o único, que, antes dele, homens admiráveis agiram da mesma forma?

Nos versos, Poe descreve um amor tão intenso, tão poderoso que despertou a inveja dos anjos, causando a morte de sua amada.

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.2
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.3

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(Tradução de Fernando Pessoa)

Annabel, não por acaso, também era o nome da primeira namorada de Humbert, a “precursora” de Dolores, quando eles ainda eram crianças – I was a child and she was a child4.

Humbert compõe sua defesa – lembrando que ele possui “uma prosa de estilo extravagante”, que utiliza muito sabiamente para nos contar sua versão da história – criando intertextualidades e arranjando argumentos sutilmente, que nos fazem criar empatia, apesar de não concordarmos com sua ações e escolhas.

***

1. “Reino ao pé do mar” e “anjos” na tradução de Fernando Pessoa para o poema; “principado junto ao mar” e “serafins” na tradução do livro de Brenno Silveira (São Paulo: Abril Cultural, 1981).
2. No original: “In a kingdom by the sea,”
3. “With a love that the winged seraphs of Heaven/ Coveted her and me.”
4. “Eu era criança e ela era criança” no poema.

Lá em cima, na montanha

Acho muito difícil falar sobre livros consagrados. É sempre um desafio abordar obras tão discutidas, tão analisadas e  tão amadas. Mas não tinha como eu não falar deste livro: meu lado impulsivo de leitora não iria deixar.

A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann, me pegou em um momento em que eu não tinha tempo para ler quase nada, quanto mais uma obra de mais de 900 páginas recheada de difíceis considerações filosóficas. Mas acho que foi por isso mesmo, de um jeito estranho, que me apaixonei pelo livro. Era o momento errado -de lê-lo, o que acabou sendo o certo.

Por isso, resolvi deixar aqui alguns pontos de reflexão que Jorge de Almeida levantou em sua ótima palestra sobre a obra de Mann, na Biblioteca Mário de Andrade, em junho. O professor de filosofia destacou, sobretudo, o Tempo.

  1. Tanto narrador como personagens se perdem na contagem do tempo. Na obra, o jovem engenheiro Hans Castorp vai fazer uma visita de três semanas ao primo doente, internado no sanatório Berghof, na região dos Alpes Suíços. Acaba ficando sete anos, o que mostra como a cronologia é distorcida “lá no topo”, na montanha em que fica o hospital.
  2. Nós também nos perdemos: Mann usa pouco mais de 100 páginas para narrar os acontecimentos de apenas um dia, quebrando totalmente nosso paralelo ao percebemos que, na página 102, ainda estamos acompanhando o primeiro contato de Castorp com as pessoas e o ambiente novo, quando a impressão é que se passaram semanas na história.
  3. Ele, Castorp, sai de uma metrópole (Hamburgo) para uma pequena cidade pacata onde nada acontece, ainda mais no topo da montanha. Mas o tédio não está presente no microcosmos do sanatório: o aborrecimento só é possível no intervalo de duas atividades, mas, ao contrário, não há quase ação lá. A rotina, muito regreda, se guia pelos horários de repouso diários. “Quando um dia parece como todos, todos os dias parecem como um só”.
  4. Além das horas reservadas para descanso, intercalados com as refeições, os moradores de Berghof têm outros índices próprios de tempo: o gráfico de temperatura de cada paciente, medido pelo termômetro cinco vezes ao dia, e as conferências quinzenais do doutor Krokowski.
  5. As estações do ano também se misturam “lá em cima”. Em um único dia, em uma única semana, todas estão presentes. Não há inverno ou verão definidos, mostrando que até mesmo a natureza perde sua bases naquele ambiente mágico.

O tema é tão presente na obra, que o próprio Hans Castorp gasta muitas horas de seus dias pensando e tentando entender do que se trata:

Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas, deixaria de haver tempo, se não houvesse movimento? Não haveria movimento, sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, “traz consigo”. Que é que traz consigo? A transformação. O Agora não é o Então; o Aqui é indiferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o Então repete-se constantemente no Agora, e o Ali reaparece no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidindo-nos configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução aproximada a zero? É impossível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito? São compatíveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência de corpos limitados no Universo? Quantas perguntas improfícuas!

OBS: Li a edição do Círculo do Livro, mas, claro, há edições mais modernas e atualizadas, como a da Nova Fronteira.

O desabafo de Duras

Durante o período da Segunda Guerra Mundial, a francesa Marguerite Duras sofria com a ocupação nazista no país. Mais que sofrer, se viu afastada de amigos e de seu amor, Robert – que fora lutar no front de batalha. A dor é exatamente uma tentativa de registrar a angústia – e se libertar dela – de uma das épocas mais difíceis de sua vida, um trabalho autobiográfico (com trechos ficcionais, acreditam muitos críticos) agoniante para o leitor.

O interessante, entretanto, é o prefácio da obra, em que a autora afirma não se lembrar de ter escrito os textos que compõe o relato – de dor, carinho, esperança e desespero:

Encontrei este diário em dois cadernos, nos armários azuis de Neaupble-le-Château.

Não tenho lembrança alguma de tê-lo escrito.

Sei que o fiz, que fui eu que escrevi, reconheço minha letra e os detalhes do que relato: revejo o lugar, a Estação de Orsay, os trajetos, mas não me vejo escrevendo o diário. Quando foi que o escrevi, em que ano, em que horas do dia, em que casa? Não sei mais nada.

O que é certo, evidente, é que não me parece possível ter escrito este texto enquanto esperava por Robert L.

Como pude escrever isto, que ainda não sei nomear e que assombra quando releio? Como pude abandonar este texto durante anos naquela casa de campo constantemente inundada no inverno?

A primeira vez que me preocupei com ele foi quando a revista Sorcièrse me solicitou um texto escrito em minha juventude.

A dor é uma das coisas mais importantes de minha vida. A palavra “escrito” não seria adequada. Encontrei-me diante de páginas metodicamente preenchidas com uma letra extraordinariamente regular e calma. Encontrei-me diante de uma fenomenal desordem de pensamento e do sentimento, que não ousei tocar, e comparada à qual a literatura me envergonha.

O olfato de Gabito

Como uma boa leitora da obra do colombiano Gabriel García Márquez, sempre achei curioso o gosto do autor por cheiros, odores, aromas e perfumes. Um sentido muitas vezes esquecido por nós, humanos, ganha importância em suas histórias e se mostra revelador na descrição de ambientes e personagens.

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Márquez abre Do amor e outros demônios, por exemplo, relacionando um cheiro aparentemente tão banal com um sentido nem tão convencional:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Em A Revoada, seu primeiro livro, publicado em 1955, são muitas as referências a odores. Grande parte delas se relaciona ao cheiro de putrefação do cadáver do Doutor após seu suicídio, acontecimento que norteia o livro, e o cheiro de podridão que a companhia bananeira deixou no povoado, com sua revoada de destruição. Mas uma, longe disso, tem um significado especial, mais amplo que a simples constatação de um cheiro. É uma lembrança:

Não há em toda casa um só cheiro que eu não reconheça. Quando me deixam sozinho no corredor, fecho os olhos, estendo os braços e caminho. Penso: “Quando sentir um cheiro de rum canforado, estarei no quarto do meu avô.” (…) Continuo caminhando e sinto o cheiro no mesmo instante em que escuto a voz de minha mãe, cantando no quarto. Então sinto o cheiro de alcatrão e de naftalina.
(…)
Essa noite, quando eu começava a dormir, senti um cheiro que não existe em nenhum dos outros quartos da casa. Era um cheiro forte e morno, como se alguém tivesse mexido num jasmineiro.
(…)
– Está sentindo? É como se houvesse jasmins em alguma parte.
Então ela [Ada] disse:
– É o cheiro dos jasmins que durante nove anos ficaram junto do muro.
Sentei-me em suas pernas.
-Mas agora não há jasmins – disse. E ela disse:
–  Agora não. Mas há nove anos, quando você nasceu, havia um jasmineiro plantado junto à parede do pátio. De noite fazia calor e cheirava como está cheirando agora.

Ela remonta uma lembrança da casa de seus avós em Aracataca, como descreve em sua autobiografia Viver para contar. “Cataca”, como chama a cidade carinhosamente, cheirava a jasmins no tempo em que morou lá. Porém, quando retornou anos depois com sua mãe para vender a casa, não encontrou o aroma que definia o pequeno povoado, agora destruído pela partida da companhia bananeira.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma de jasmins, o amor.

E as semelhanças entre a cidade ficcional de Macondo e Aracataca não são à toa: no mesmo livro, Márquez nos conta como a pequena cidade dos avós inspirou a criação do povoado que estaria em três livros seus. Voltando ao olfato, o mais próximo que cheguei de uma explicação por essa fascinação veio também de Viver para contar. Nele, Márquez conta como sua educação formou essa sensibilidade:

O consolo foi que em Cataca tinham aberto naqueles anos a escola montessoriana, cujas professoras estimulavam os cinco sentidos através de exercícios práticos, e ensinavam a cantar. Aprendi a apreciar o olfato, cujo poder de evocações nostálgicas é arrasador. O paladar, que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa. Na teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos, mas quem os tenha vivido os compreenderá de imediato.

Assim, o olfato vira um poderoso instrumento descritivo nas mãos do escritor colombiano. Então a reunião de depoimentos feitos a seu amigo, Plinio Apuleyo Mendonza, publicada aqui no Brasil pela Record, não poderia ter um nome que combinasse mais com o autor: Cheiro de Goiaba.

Sobre a inocência

Li Festa no Covil (Companhia das Letras), de Juan Pablo Villalobos, sem saber o que esperar. O que foi ótimo, porque me surpreendeu muito (no melhor dos sentidos, com certeza). Não vim aqui fazer uma resenha, mas sim uma espécie de comentário da obra, pois  não resisti, claro. A leitura foi boa demais para não merecer menção no blog.

No livro, o menino Tochtli nos conta sua história, mais como uma conversa que uma narração – talvez pela inocência e pela sinceridade do discurso dele, bem característico de uma criança. Filho de um chefe do tráfico mexicano, Yolcault “El Rey”, ele é criado como um príncipe, em um palácio afastado. E é com essas verdades que o garoto segue sua vida.

Com essas verdades e com algumas manias. Ou vícios. Ou apenas hábitos de alguém solitário. Ele ama olhar palavras no dicionário.  Adora particularmente as palavras “patético”, “nefasto”, “pulcro”, “sórdido” e “fulminante”. Animais selvagens são seus bichos de estimação. Coleciona chapéus samurais, adora os franceses e, como gosta constantemente de afirmar, tem muito, mas muito, dinheiro.

Paul Smith também fala com o erre muito esquisito, mas não como os franceses, que parece que estão com dor de garganta de tanto cortar a cabeça dos reis. O erre do Paul Smith é de quem se acha grande coisa.

As poucas pessoas que conhece – 13 ou 14, por suas contas – não são capazes de eliminar sua solidão. E sua falta de entendimento das coisas, por mais que imperceptível que seja para ele, é desconcertantemente, comovente, e até fofa. Simpatizamos com o jovem Tochtli. Por isso o personagem de Villalobos me lembrou muito Charlie, jovem deprimido de As vantagens de ser invisível. Não só pela ingenuidade, mas também pelo desconcerto: por mais que tentem, não vão se adaptar a essa coisa louca chamada de mundo.

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O que prendeu muito meu interesse na edição do livro foi o ótimo posfácio de Adam Thirlwell. Tão bom em entender a obra de Juan Pablo Villalobos que separei um trecho para postar aqui:

Porque Tochtli possui algo similar ao conhecimento, embora não seja exatamente a mesma coisa — seu amor pelos hipopótamos anões da Libéria. E isso, no fim das contas, é um avanço. Talvez seja um futuro. E o leitor não falante do espanhol, mas habituado à literatura de língua inglesa, pode avaliar esse futuro tendo em mente um momento em miniatura neste livro em miniatura sobre como essa coisa chamada vida pode ser insignificante. No início da narrativa, Tochtli apresenta uma síntese fiel e implacável da ação de matar — um exercício involuntário de insensibilidade: “Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar”. O resto do romance funciona como uma confirmação dessa frase, mas uma confirmação que ganha a forma de negação: a insensibilidade se transforma em lamento. A superfície linguística opaca deste romance — tão limitada, tão inarticulada! — assume contornos de uma espécie de verdade.
Sim, uma coisa insensível, inocente, perturbada, opaca, devastada: isso, na minha opinião, é a grande invenção de Juan Pablo Villalobos neste espaço minúsculo e cômico; e é isso o que pode representar um futuro para uma literatura adequada — uma literatura adequada ao que anda acontecendo. E não só na América Latina.