Histórias de… terror? (E um recado)

O blog vai ficar um tantinho parado e quietinho, até a primeira semana de novembro – tempo suficiente para a autora resolver pendências da vida, como o TCC, e preparar coisas bem legais para postar aqui.

Para ocupar (um pouco) esse tempo, deixo o ótimo Granny O’Grimm (em inglês), do diretor Nicky Phelan, que foi indicada ao Oscar por Melhor Curta de Animação em 2010.

Indicações #9

1. Para quem ainda não leu, o ótimo discurso de Luiz Rufatto na Feira do Livro de Frankfurt.

2. Refeições dos personagens de grandes livros recriados e fotografados,

3. Para os amantes da linguagem, ou para quem simplesmente adora curiosidades de diversas línguas do mundo, um tumblr muito bom para seguir: o Word Stuck.

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“Frankenstein mora na casa ao lado. Eu sou o monstro do Frankenstein. É um erro comum.”

As linhas da mão

Falei, no post anterior, sobre os tão complexos microcontos. Pois, um dos mestres de escrever em poucas linhas (mesmo que não sejam microcontos) é o argentino Julio Cortázar.

Muitos de seus textos não passam de uma ou duas páginas, e são de uma riqueza e um rigor primorosos, de causar inveja a muitos escritores. Inspirada por isso, vou deixar aqui um vídeo de animação (em espanhol) que recria As linhas da mão, conto presente em Histórias de Cronópios e Famas (Civilização Brasileira) – um prato cheio para quem gosta de histórias curtas -, e que tem a extensão, como vocês podem ver abaixo, de apenas um parágrafo curto.

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha cotinua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de nylon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) atinge o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.

Fonte do texto: Portal Vermelho

Em poucas palavras

Sempre achei fenomenal o fato de alguns escritores conseguirem passar uma ideia e completar uma narrativa em apenas algumas linhas. É muito difícil, e poucos são os que fazem isso com talento, o que dá ainda mais graça aos contos que realizam essa proposta com sucesso.

É muito complicado definir o tamanho de um microconto, já que os estudos sobre esse “gênero” (que não é considerado como tal) são escassos e menos ainda são as regras: alguns consideram o tamanho aceitável até 50 letras; outros, 140 caracteres (uma nova possibilidade aberta pelo Twitter e já muito explorada, com a twitteratura).

O conto mais curto e mais famoso do mundo, com apenas trinta e sete letras, é de autoria do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

“O dinossauro” foi escrito em 1959, como parte de Obras completas (y otros cuentos), e até hoje é muito estudado e debatido internacionalmente. Afinal, o que o autor quis dizer? Quem é a pessoa que acorda? Onde ela acorda? Qual o simbolismo do dinossauro? E por aí vai…

Instigado por contos como esse, de Monterroso, o escritor Marcelino Freire desafiou cem autores brasileiros a produzirem suas próprias histórias em tamanho pequeno, o que rendeu a antologia Os cem menores contos do século, lançado em 2004 pela Ateliê Editorial.

Marcelino Freire (esq.) e Bráulio Tavares (dir.)

Na palestra sobre Julio Cortázar (foto acima) que aconteceu em setembro, no Fantasticon, mediada pelo também escritor Bráulio Tavares, ele falou um pouco sobre essa experiência:

[Marcelino] “Eu pedi que os contos tivessem até cinquenta letras, sem contar o título. (…) Falei com o Millôr Fernandes de manhã. À tarde ele me mandou um email. Ele fez um título imenso, e apenas uma frase no conto. E o texto dele tem exatas cinquenta letras, sem tirar nem pôr. ”

[Bráulio] “É o conto do ‘João-sem-braço’, né. O ditado diz que todo regulamento pode ser driblado, se você tiver criatividade suficiente para isso. Foi exatamente o que ele fez.”

Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramírez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida, para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais

— Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode.

(Millôr Fernandes)

Ainda há muito a explorar com os microcontos, e muito leitor ainda vai descobrir o quão simples e rica é esse tipo de produção. Afinal, o que vale aqui é a astúcia do autor, e seu poder de concretizar, em poucas palavras, o que muitos precisariam de páginas inteiras para conseguir.

E para quem estiver interessado, Carlos William Leite reuniu, no site do Jornal Opção, trinta célebres microcontos de escritores nacionais e estrangeiros. Vale uma boa passada de olho para conhecer mais contos, como estes:

  • A velha insônia tossiu três da manhã. (Dalton Trevisan)
  • Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados. (Ernest Hemingway)
  • Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada. (Lygia Fagundes Telles)

Fontes: Recanto das letras e Digestivo Cultural

Para animar a segunda-feira

A série Blank on Blank, dos estúdios PBS Digital, traz grandes nomes da música, arte, literatura, política e esportes, como James Brown e Fidel Castro, em curtas de animação bem divertidos (em inglês). Separei dois para deixar aqui:

O escritor David Foster Wallace fala sobre perfeccionismo e ambição, seus anos de estudo e a prática de esportes.

Perfectionism is very dangerous, because, of course, if your fidelity to perfectionism is too high you never do anything. Because doing anything results in – it’s actually kind of tragic – because it means you sacrifice hoe gorgeous and perfect it is in your head for what it really is.

***

Maurice Sendak, autor do livro infantil Onde vivem os monstros, fala sobre as delícias e aventuras de ser criança.

I always had a deep respect for children and how they solve complex problems by themselves. (…) I think through shrewdness, fantasy and just plain strenght. They want to survive. They want to survive.

Os áudios são originais, de entrevistas concedidas por eles.
Quem quer ver todos os vídeos da série, é só clicar aqui.

PS: Estou numa fase de amor com vídeos animação, perceberam? :)

Indicações #8 (Calendário)

A semana vai ser bem agitada para quem curte literatura e mora em São Paulo:

1. Hoje começa a Pauliceia Literária, com uma programação de palestras que vai até domingo (22). Entre os convidados estão o mexicano Juan Pablo Villalobos, e os brasileiros Ana Maria Machado e Michel Laub.

2. Nos dias 20, 21 e 22 acontecem também as palestras, bate-papos e shows da FLAP, em diversos lugares espalhados da cidade, como a Casa das Rosas e a Biblioteca Mário de Andrade.

3. No final de semana também acontece o Fantasticon, simpósio de literatura fantástica que acontece na Biblioteca Viriato Corrêa. O evento promove oficinas e palestras, e tem entre os convidados Ignácio de Loyola Brandão, Andrea del Fuego e Marcelino Freire.

Quem for vai me encontrar lá, principalmente nas palestras sobre realismo fantástico.

Bom fim de semana pra todos :)

Monstros à solta (É sexta-feira 13!)

Em 1816, o poeta Percy Bysshe Shelley e sua noiva Mary Shelley, acompanhados da meia-irmã dela, Claire Clairmont, foram passar um fim de semana agradável na propriedade do amigo e também poeta Lord Byron, na região do Lago Genebra, na Suíça. Para completar o grupo, o também escritor John Polidori.

Porém, os planos dos cinco foram interrompidos por uma forte tempestade, que acabou obrigando o grupo a confinados na mansão por quase todo o período. Como passar o tempo? Contar histórias de terror, claro.

Então começou o festival de vampiros, aberrações e fantasmas. Após esgotarem o repertório de contos que conheciam, e para não ficarem olhando para o teto, Lord Byron teve a ideia de cada um escrever uma história nova, e competirem por quem inventaria a narrativa mais horripilante.

Foi assim que Mary, de apenas dezenove anos, criou o doutor Victor Frankenstein e seu monstro feito de pedaços de cadáveres.

Frankenstein's_monster editado

O Moderno Prometeu se tornou um clássico da literatura gótica de horror, e um fenômeno mundial. A consagração final veio com o filme de James Whale, de 1931. O filme se tornou um sucesso (chegando a ganhar o túítulo de um dos 100 melhores filmes de todos os tempos, pelo American Film Institute) e consolidou a imagem do monstro interpretado por Boris Karloff, deixando-a gravada para sempre no imaginário popular.

Para combinar com esta sexta-feira 13, separei alguns vídeos de animação curtinhos inspirados na história de Mary Shelley e na estética do monstro de Frankenstein.

Aproveitem! :)

The Frank Job

Proinex Felices Fiestas

The Puppet Monster

E, para os saudosistas, o trailer do clássico de 1931:

Indicações #7

1. Os novos documentário e biografia sobre J.D. Salinger estão reavivando polêmicas sobre o autor de Apanhador no Campo de Centeio.

Para entender os motivos, vale a leitura de Who was J.D. Salinger?, do blog Page-Turner (New Yorker) , Film on Salinger claims more books are coming, do New York Times, e as resenhas do filme dde Shane Salerno dos sites Guardian e NYTimes.

2.  Para os fãs de teatro, entrou em cartaz em São Paulo a peça Estrada do Sul, inspirada no conto Autoestrada do sul, do argentino Júlio Cortázar. O espetáculo usa 18 carros como cenografia, de onde os espectadores podem assistir a peça.

3. Desenhos da Era do Jazz, do escritor americano William Faulkner, no Brain Pickings.

williamfaulknerdrawings9

Um pouco de Ray Bradbury

Nem tudo são flores no começo da carreira de um escritor. E com o americano Ray Bradbury, autor da consagrada distopia Fahrenheit 451, não foi diferente.

Nesse vídeo curtinho ele conta como no início o dinheiro era curto, como demorou para começar a receber pagamento pela publicação de seus textos, e, principalmente, como foi difícil gostar do que escrevia.

Somente após 10 longos anos o autor pôde realmente dizer que escreveu algo bonito – um conto chamado “O lago”. E, nesse momento, ele percebeu o que fez de certo:

I turned the corner into my interior self. I wasn’t writing exterior stuff, I wasn’t writing for the right or the left or for the in between. I was writing for me. And I discovered that was the way to go.

O segredo, diz ele, é a persistência: escrever, escrever e escrever mais. 

Achei no blog da Eletric Literature.

Flaubert versus Balzac

James Wood, no ótimo Como funciona a ficção (Cosac Naify), opina – em uma nota de rodapé com um tamanho digno de David Foster Wallace -, sobre qual dos dois  gigantes da literatura, afinal, seria o francês “fundador da narrativa moderna de ficção”.

Há três diferenças entre o realismo de Balzac e o realismo de Flaubert: primeiro, Balzac observa bastante em sua literatura, é claro, mas a ênfase sempre recai mais na abundância do que numa seleção cerrada dos detalhes. Segundo, Balzac não tem nenhum compromisso especial com o estilo indireto livre nem com a impessoalidade do autor e se sente livre para se intromenter como autor/ narrador, com ensaios, digressões e informações sobre dados sociais. (Nesse aspecto, ele parece decididamente setecentista.) Terceiro, e decorrendo das duas diferenças anteriores: ele não tem nenhum interesse tipicamente flaubertiano em apagar a questão de quem é que está vendo tudo. Por tais razões, considero Flaubert, e não Balzac, o verdadeiro fundador da narrativa moderna de ficção.

O autor de Madame Bovary e A educação sentimental seria, segundo Wood, um “realista e um estilista”. O primeiro quer registrar tudo o que vê (à maneira balzaquiana), e o segundo “quer disciplinar essa enxurrada de detalhes, convertê-los em frases e imagens impecáveis”.