Três contos

Aproveitei o domingo para fuçar na internet atrás de coisas sobre Anne Enright, autora de O Encontro (resenha aqui, trechos aqui) e de Valsa Esquecida (trechos aqui), minha última leitura. Achei três contos – em inglês – da irlandesa publicados no site da revista amerina New Yorker, todos muito bons. Por isso preparei um pequeno guia – bem básico mesmo – para quem tiver interesse:

In the Bed Department (clique aqui)

Kitty trabalha em uma loja de departamentos, na seção de camas. Ela observa sua vida mudar, ao mesmo tempo que vê pequenas transformações na loja. “Ela ficou na Seção de Camas e esperou por ondas de calor. Ela não se importava de envelhecer desde que significasse um crescimento fácil, mas não parecia estar acontecendo dessa maneira. Houve uma agitação, uma turbulência no seu sangue.”

Natalie (aqui)

Natalie é uma garota “como uma chama na luz do dia (…) –  inabalável, dificilmente você pode vê-la, mas ela está sempre lá”. Acompanhamos os acontecimentos na família de Billy, seu namorado, à partir do olhar atento – como uma observadora de pássaros, que ainda não entende seu foco de atenção – da nossa narradora, a melhora amiga da garota.

Della (aqui)

Della percebe que seu vizinho – que ela considera o homem mais irritante do mundo – está cego. O conto, meu favorito dos três, nos mostra como a velhice está ligada às lembranças. “Às vezes ela queria lembrá-lo que ele não a conhecia realmente. Que qualquer um podia ter comprado a casa vizinha. Qualquer um podia estar passeando com o filho recém-nascido no jardim frontal quando ele passasse e perguntasse ‘como está o fedelho?’ através do muro.”

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PS1: Os trechos nas pequenas sinopses foram traduzidos por mim, sem pretensão nenhum de soar profissional. Por isso, fiquem atentos à versão original, sempre (muito) mais rica.

PS2: No site da revista também está publicado o conto Taking Pictures, mas é restrito a assinantes.

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O Encontro

Os Hegarty são uma família grande. Doze filhos de uma mãe cuja função na vida parece ser apenas procriar e cuidar da prole, completados por um pai rígido e um tanto ausente. E como em toda família, há histórias e memórias de infância que deveriam ficar guardadas para sempre.

Em O Encontro (Alfaguara), da irlandesa Anne Enright, são máculas como essas que Veronica tem que enfrentar ao embarcar em uma viagem para recolher o corpo de seu irmão suícida, Liam, em Londres. Ganhador do Man Booker Prize de 2007, o sexto romance da escritora traz um texto furioso, que nos machuca por sua forma seca e despretensiosa.

Não importa. Não sei qual é a verdade e não sei como contar a verdade. Tudo o que tenho são histórias, ideias noturnas, as súbitas convicções que a incerteza desova. Tudo o tenho são delírios, é mais isso. (…) Espero pelo sentido que o amanhecer nos traz quando não se dorme nada.

Duas histórias coexistem na Dublin de tempo chuvoso. Veronica resgata lembranças da relação com seu irmão mais querido: as brincadeiras na casa sempre cheia de gente, as encrencas da adolescência e as primeiras mágoas. A tentativa de fuga do cotidiano acontece com voltas noturnas de carro, quase os únicos momentos de sossego que consegue. Ela aprende que nem sempre gostamos das pessoas que amamos, ou que temos que amar. Sua crise matrimonial e a falta de carinho pelas filhas deixam-na em um buraco de solidão que só poderá ser superado com o enfrentamento.

Paralelamente, memórias – algumas não vividas por ela, mas contadas entre os Hegartys – reconstroem o encontro de Ada Merriman, sua avó, com o futuro marido Charlie. O passado, já enterrado há muito, e o presente, dolorido e sufocante, estão ligados inevitavelmente. O casamento de Ada, a presença sempre constante do amigo do casal, Lambert Nugent e as férias com os netos em Brodstone são chave para entender o desfecho de Liam.

Ela sabe porque ela é minha avó e quando colocava a mão no meu rosto eu sentia a proximidade da morte e era confortada por isso. Não há nada mais prescrutador que o toque de uma velha; tão amoroso e tão horrendo.

As duas histórias, ambas permeadas por cenas frias e escuras, se juntam para explicar a tragédia de uma família já cheia de desgraças. A presença da morte e a perda das pessoas amadas vêm nos lembrar que as tarefas cotidianas não são tão importantes como imaginamos. Em certa medida, Veronica invejava o irmão. Liam conseguiu uma libedade que ela não parece capaz de reclamar para si. A vida do jovem longe da família superpopulosa, entretanto, não foi sua salvação.

As personagens são comuns, quase estereótipos, mas sem o serem de maneira alguma. Os sentimentos são compartilhados, as mágoas são banais. Enright nos propõe uma história sobre sentimentos sem cair no melodrama. Ao contrário, traz a tona o que pensamos mas não temos coragem de pronunciar, uma realidade tão crua que chega a ser irônica. Sobretudo, O Encontro é uma história simples. Uma história provocadora sobre Veronica, Ada, ou sobre qualquer um de nós.