Sobre morangos

E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também!?
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.
(Trecho de A hora da estrela, de Clarice Lispector)

Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.
Achava que sim.
Que sim.
Sim.
(Trecho de Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu)

Morangos aparecem na obra de dois grandes nomes da literatura brasileira. Mas será por acaso? Como afirma Marcelo Secron Bessa, no prefácio de Melhores Contos de Caio Fernando Abreu (Global), o autor gaúcho faz uma referência clara ao livro de Clarice, do qual era conhecidamente fã.

Uma possível interpretação apontada por Bessa é a de que essas frutas representam a vida. “As histórias de Caio – de amor ou não e até mesmo aquelas consideradas pesadas, chulas e tristes – parecem lembrar que a vida, apesar dos pesares, ainda vale a pena ser vivida (…) Mesmo que estejam mofados, sugere o escritor, os morangos continuam sendo morangos. Em outras palavras, Caio Fernando Abreu nos lembra em seus textos que a vida – apesar de, às vezes, ser dolorosa e um tanto cruel, continua sendo a vida.”

morangos

Em Carta ao Zézim, Caio fala sobre a criação de seu célebre conto:

Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (…) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho.

E aí surge uma grande diferença entre os dois autores. Enquanto para o personagem de Caio ainda resta um pedacinho de esperança, os morangos presentes no triste fim de Macabéa aparecem apenas como um conforto diante da inevitabilidade da morte.

Na mesma carta, datada de 22 de dezembro de 1979, o autor fala de Clarice, ressaltando seu aspecto triste:

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando.

Talvez o fim dos personagens seja um reflexo de seus criadores no momento da criação. Para nós, o conselho de Clarice serve como lembrete, como serviu para ambos os autores. Nunca esquecer que é tempo de morangos.

Foto original daqui.

Anúncios

Caio Fernando Abreu e seus livros

Li Para Sempre Teu, Caio F. (Record), de Paula Dip, em dois dias. É delicioso. Ela, amiga pessoal de Caio Fernando Abreu, nos conta a história do autor gaúcho de forma bem leve e cheia de carinho.

As cartas destinadas a ela, algumas expostas integralmente, são um dos maiores trunfos do livro. Lindas, intensas. Bem à maneira de seu autor. Mas vou avisando: algumas dão uma tristeza, uma saudade… e vontade de escrever pra quem se ama.

Mas não é por isso que eu vim aqui hoje. Durante a leitura, achei trechos bem curiosos sobre os livros do autor. Mais especificamente, são trechos em que Caio Fernando explica os nomes de seus livros.

Separei alguns para postar:

Ovo apunhalado

“Os contos giram em torno dessa unidade vital, o ovo, sangrado pelo punhal do cotidiano seco, pelas muitas formas de opressão, a vida  violentada, você é um ovo apunhalado, eu sou um ovo apunhalado. De onde escorre uma gota de sangue maduro. O próprio livro foi tão apunhalado que censuraram três contos, cortaram algumas ‘palavras fortes’ e proibiram a capa, feita por Bruno Schmidt, o que só confirmou minha teoria sobre ovos e punhais”.

Pedras de Calcutá

O título eu tirei do Trecho de diário, de Mario Quintana: ‘Hoje me acordei pensando em pedra em uma rua de Calcutá…’ Para mim a pedra de Calcutá é a dose cotidiana de poesia ou beleza, ou sonho, ou mesmo escapismo, por que não? Necessária e fundamental para qualquer um continuar vivo… São odaras. Joias raras. No mais, sou um jornalista sem registro, que vivo numa comunidade no Jardim Botânico, em Porto Alegre, numa casinha de madeira, com um casal de amigos, Sandra e Gui, de velhas batalhas pelo mundo, moradores flutuantes e uma gata chamada Tigresa. Planto pitangueira, jacarandá, begônia, gerânio, margarida, samambaia.

 Os dragões não conhecem o paraíso

O Dragões é um livro de contos que eu também chamo de romance móbile, onde até podem faltar algumas peças. Quando eu falo de dragões eu falo do mito chinês daqueles animais fantásticos, que não existem e que eu acho que são muito semelhantes às pessoas ditas loucas, muito semelhantes às pessoas ditas loucas, muito criativas e pessoas que não se adaptam simplesmente a trabalhar, ganhar dinheiro e ter uma vida normal. Eu acho que essas pessoas são dragões e não conhecem o paraíso, que é o paraíso da gratificação burguesa, da gratificação do sistema do forno de micro-ondas, da casa própria. Esse tipo de dragão não conhece mesmo este tipo de paraíso.

Ainda vou fazer um texto completinho sobre o livro da Paula Dip e posto aqui :)