Indicações #6

Faz um bom tempinho que não posto indicações, então aí vão algumas ótimas distrações para o fim de semana:

1. Grant Snider faz tirinhas muito divertidas inspiradas em literatura e artes, e coloca tudo lá no Incidental Comics. Já postei algumas no twitter, como o bingo de Haruki Murakami.

2. O ator de filmes clássicos de horror Vincent Price lê “O corvo”, mais famoso poema de Edgar Allan Poe. Vi no Open Culture.

3. Para quem não conhece, a Blimunda é a revista digital da Fundação José Saramago. Gosto especialmente da ed. 12, em homenagem ao colombiano Gabriel García Márquez.

4. A escritora chilena Isabel Allende conta histórias de paixão, no TED.

Aniversário :)

recite-29126-1090293975-1yppwfzHoje o Leitura Sabática completa um ano de vida!

Para comemorar, fiz um top5 com os posts mais populares desses 12 meses.

Espero que gostem!

1. Angústia: duas histórias sobre o mar

2. Uma entrevista com Toni Morrison

3. Uivo e outros poemas (resenha)

4. O olfato de Gabito

5. Heteronímia

A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.

O olfato de Gabito

Como uma boa leitora da obra do colombiano Gabriel García Márquez, sempre achei curioso o gosto do autor por cheiros, odores, aromas e perfumes. Um sentido muitas vezes esquecido por nós, humanos, ganha importância em suas histórias e se mostra revelador na descrição de ambientes e personagens.

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Márquez abre Do amor e outros demônios, por exemplo, relacionando um cheiro aparentemente tão banal com um sentido nem tão convencional:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Em A Revoada, seu primeiro livro, publicado em 1955, são muitas as referências a odores. Grande parte delas se relaciona ao cheiro de putrefação do cadáver do Doutor após seu suicídio, acontecimento que norteia o livro, e o cheiro de podridão que a companhia bananeira deixou no povoado, com sua revoada de destruição. Mas uma, longe disso, tem um significado especial, mais amplo que a simples constatação de um cheiro. É uma lembrança:

Não há em toda casa um só cheiro que eu não reconheça. Quando me deixam sozinho no corredor, fecho os olhos, estendo os braços e caminho. Penso: “Quando sentir um cheiro de rum canforado, estarei no quarto do meu avô.” (…) Continuo caminhando e sinto o cheiro no mesmo instante em que escuto a voz de minha mãe, cantando no quarto. Então sinto o cheiro de alcatrão e de naftalina.
(…)
Essa noite, quando eu começava a dormir, senti um cheiro que não existe em nenhum dos outros quartos da casa. Era um cheiro forte e morno, como se alguém tivesse mexido num jasmineiro.
(…)
– Está sentindo? É como se houvesse jasmins em alguma parte.
Então ela [Ada] disse:
– É o cheiro dos jasmins que durante nove anos ficaram junto do muro.
Sentei-me em suas pernas.
-Mas agora não há jasmins – disse. E ela disse:
–  Agora não. Mas há nove anos, quando você nasceu, havia um jasmineiro plantado junto à parede do pátio. De noite fazia calor e cheirava como está cheirando agora.

Ela remonta uma lembrança da casa de seus avós em Aracataca, como descreve em sua autobiografia Viver para contar. “Cataca”, como chama a cidade carinhosamente, cheirava a jasmins no tempo em que morou lá. Porém, quando retornou anos depois com sua mãe para vender a casa, não encontrou o aroma que definia o pequeno povoado, agora destruído pela partida da companhia bananeira.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma de jasmins, o amor.

E as semelhanças entre a cidade ficcional de Macondo e Aracataca não são à toa: no mesmo livro, Márquez nos conta como a pequena cidade dos avós inspirou a criação do povoado que estaria em três livros seus. Voltando ao olfato, o mais próximo que cheguei de uma explicação por essa fascinação veio também de Viver para contar. Nele, Márquez conta como sua educação formou essa sensibilidade:

O consolo foi que em Cataca tinham aberto naqueles anos a escola montessoriana, cujas professoras estimulavam os cinco sentidos através de exercícios práticos, e ensinavam a cantar. Aprendi a apreciar o olfato, cujo poder de evocações nostálgicas é arrasador. O paladar, que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa. Na teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos, mas quem os tenha vivido os compreenderá de imediato.

Assim, o olfato vira um poderoso instrumento descritivo nas mãos do escritor colombiano. Então a reunião de depoimentos feitos a seu amigo, Plinio Apuleyo Mendonza, publicada aqui no Brasil pela Record, não poderia ter um nome que combinasse mais com o autor: Cheiro de Goiaba.

Para um novo ano

Sei que é clichê fazer esses apanhados de livros para encerrar o ano, mas não resisti à fazer o meu! 2012 termina com um total de 39 obras lidas: algumas simples e descomplicadas, enredos leves e pouco aprofundados; outras, herméticas e minuciosas. E todas valeram a pena, cada uma à sua maneira.

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Comecei janeiro com Nemesis, de Philip Roth e fui até a Batismo de Fogo, do Vargas Llosa. Me encantei com o Livro de Areia, do Jorge Luis Borges, e as Intermitências da Morte, de Saramago.

Me surpreendi especialmente com A Vida de Pi, de Yann Martel, emprestado por uma amiga querida. “Esse livro vai mudar a sua vida”, disse ela ao me entregá-lo. Não foi para tanto, mas realmente me prendeu até suas últimas palavras.

Amei os mistérios de Aura, do mexicano Carlos Fuentes, um dos maiores escritores fantásticos da América Latina. E comecei minha jornada adentrando a extensa obra de Gabriel García Márquez, tema do meu TCC, com Amor nos Tempos do Cólera e  A triste história de Erêndira e sua avó desalmada.

Por fim, passei por clássicos como Anna Karenina, de Tolstói, a Odisséia, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes, e Esperando Godot, de Samuel Beckett – sendo esse último um dos top 3 do ano, com toda a certeza.

Vou viajar e espero voltar com a resenha pronta de Precisamos Falar Sobre Kevin, que vai ficar para a próximo balanço, e muitas outras novidades aqui para o blog. Um ótimo ano novo para todos! :)

Angústia: duas histórias sobre o mar

Dez dias. No horizonte, apenas a água escura e calma. No céu, o sol à pino torturante. Nove noites de escuridão e frio. Medo. De não ser resgatado; da fome e da sede; de ser atacado por tubarões. Medo da morte.

Luís Alexandre Velasco, marinheiro colombiano, sobreviveu ao cair do navio ARC Caldas. O acidente ocorreu depois de a carga do destroyer se soltar e desestabilizar a embarcação. Na água, oito companheiros de tripulação afundavam e gritavam ao seu redor. Mas ele foi o único que conseguiu alcançar a balsa.

Gabriel García Márquez, na época repórter do jornal El Espectador, remonta o relato de Velasco. A narração, mais tarde transformada no livro Relatos do Náufrago (Record), é séria e despretensiosa. Quase podemos ouvir a voz do próprio Velasco, calma e pausada, própria de alguém que tem pouco a comemorar. Nos dias que seguiram o naufrágio, o soldado da marinha foi tratado como herói. Essa condição, porém, durou pouco: sua fama trouxe à tona a denúncia de que o governo colombiano estava transportando produtos de contrabando. A verdade lhe custou o fama e a credibilidade.

Quando li Relatos do Náufrago, lembrei imediatamente de minha avó. Helene Panteliou me deixou recentemente, aos 91 anos. Ficou a saudade, a herança de uma caixinha com selos gregos antigos, e uma história de vida incrível, que me contou em todos os detalhes para um trabalho de faculdade, e que agora fica aqui como homenagem.

selos

 Três dias. No horizonte, apenas a água escura e calma. No céu, o sol à pino torturante. Duas noites de escuridão e frio. Medo. Foi isso que levou Helene Apokoto Panteliou a entrar em uma pequena canoa de pesca com o marido Antonios, o filho Minas, e um casal de amigos. A tentativa de chegar à costa da Turquia – ou qualquer lugar que oferecesse refúgio – era a única saída aos horrores de guerra que estava sofrendo na Grécia.

Nascida na ilha de Simis, em 1922, Helene tinha apenas 17 anos quando a Segunda Guerra Mundial começou. A invasão das ilhas gregas pela Itália foi difícil e longa.  Com Rodes, onde morava na época, não foi diferente: a miséria era permanente e os bombardeios constantes. Ela viu sua mãe se arrastar e se contorcer no chão de tanta fome. E seu pai morrer envenenado depois de comer a manteiga de uma lata que achara na rua. Quando a violência se intensificou, e a fome já era uma carga pesada demais, Antonios só viu uma coisa a fazer: fugir.

À noite, escondidos do exército italiano – se fossem encontrados, seriam mortos – Antonios e Helene, carregando Minas, se encontraram com o casal de vizinhos e entraram na canoa abastecida minimamente com alimentos e água. Foram três dias e duas noites de viagem, sofrendo com o racionamento dos alimentos, a falta de espaço, o sol forte e a chuva. “Não conseguia sentir meus pés por causa da desidratação e do tempo que ficava sentada na mesma posição. Minha pele estava sempre enrugada”, relembra.

Helene tentava não pensar nos peixes que passavam rente à canoa. E muito menos nos tubarões ou outros animais maiores. Mas quando a escuridão chegava – e o sono não -, era difícil manter a calma. Conseguiu dormir pouco mais de cinco horas durante toda a viagem. “É impossível se sentir bem com o balanço do barco”, conta. Seus ossos doíam e sua cabeça latejava. Muitas coisas podem dar errado em alto mar. E ser descoberto significava o fim. Não existe misericórdia em tempos de guerra.

Finalmente, após três longos dias, chegaram à costa da Turquia, onde as famílias foram acolhidas por soldados turcos, que os protegeram e alimentaram. Com os detalhes da estadia já um pouco apagados pelo tempo, Helene conta que os soldados jogavam dinamite no mar e puxavam a rede de pesca, trazendo alimento para os refugiados. E que, quando a noite chegou, o casal de amigos foi dormir em uma cabana cedida pelo exército, mas sua família dormiu no barco, por decisão de Antonios. “Ele não queria dever nada a ninguém. Não acreditava na bondade dos turcos”, reclama, erguendo os olhos para o teto da sala.

Quando a ilha de Rodes foi recuperada pelos aliados, o casal aproveitou uma embarcação que se dirigia para a Grécia e decidiu voltar para casa, para reconstruir seu país. Apesar do fim da dominação nazista, a fome, entretanto, não se ausentou. As coisas continuavam difíceis para a população grega. Minas, entretanto, foi o amuleto de sorte que salvou a família: um soldado indiano que passava pela rua viu o menino e chamou-o. “Came on”, ele disse. Minas então sorriu e acenou para o estranho.

Com a simpatia, o jovem começou a levar comida escondido para alimentar o garoto e sua famíla. “Não me lembro seu nome, mas nunca vou esquecer seu rosto moreno”, conta Helene. Anos depois, Minas se lembraria do indiano pelo nome da única lembrança que guardou: o saldado “Camon”.

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Assim como Luís Alexandre Velasco viu a tragédia se abater sobre seus amigos e companheiros, Helene viveu em zona de conflito constante. Os dias no mar unem as histórias desses dois personagens e mostram a fragilidade da vida cotidiana. Tudo muda e o que nos parece certo perde a solidez.

A angústia os acompanhou lado a lado, perfurante e impiedosa. Em certo momento, ambos sentiram a sensação agonizante que a falta de esperança traz. O vazio. O momento em que tudo o que importa é o fim do sofrimento. Para ele, as gaivotas o puxavam de volta à vida, alertando para uma possível proximidade com a terra. Ela, por sua vez, tirava forças ao olhar para o filho pequeno, abraçado às suas pernas, apertado entre os corpos adultos no pequeno barco.

Atualização 09/03/2013: Editei o post adicionando mais detalhes dados pelo meu pai. Assim, a história ficou mais completa. Espero que gostem :)