Ginsberg e McCartney juntos

Em 1995, quando estava de visita na casa de Paul McCartney, na Inglaterra, o poeta beat Allen Ginsberg (já com 70 anos de idade e a saúde frágil) convidou o ex-Beatle para musicar seu poema The Ballad of the Skeletons.

O resultado da parceria seria apresentado para apenas para a plateia em uma leitura de poesia no Royal Albert Hall, mas a combinação deu tão certo que virou oficial, e ganhou um vídeo clipe um ano mais tarde, dirigido pelo premiado diretor de cinema Gus Vun Saint (assista abaixo).

O poema pode ser lido na íntegra aqui.

As informações (e a história completa) são do Open Culture.

Indicações #4

Algumas coisas legais que vi durante a semana:

1. Postei (aqui) uma palestra do designer gráfico Chip Kidd no TED, sobre o processo de criar capas de livros. Agora, é uma reportagem da BBC sobre o assunto (vi no Posfácio).

2. Por falar em capas de livro, o The Book Cover Archive reúne centenas delas.

3. O poema Annabel Lee, do americano Edgar Allan Poe, em forma de quadrinhos: partes 12345 e 6. Os desenhos são de Julian Peters.

4. O anúncio de um kit para você virar um Beatnik, no Não me Culpe pelo Aspecto Sinistro.

Os Beats

Não estou acostumada a ler – e falar de – HQs, e a falta de costume pode trazer a falta de jeito, então sejam compreensíveis. O fato é que comprei Os Beats (Benvirá) por curiosidade, quando lia tudo sobre a Geração Beat que pudesse encontrar pela frente. E gostei muito da graphic novel encabeçada por Harvey Parker, autor de American Splendour, e completada por muitas outras mãos.

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Entre os escritores convidados para o roteiro estão Nancy J Peters, Joyce Brabner, Penélope Rosemont, entre outras. Os desenhos são assinados por Ed Piskor, Jay Kinney, Nick Thorkelson e muitos mais.

A HQ conta a vida de diversos poetas da cena Beat, grupo de escritores e artistas que destoavam do american way of life, do período pós Segunda Guerra e que produziam uma arte contaminada de provocação.

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Os três primeiros (e maiores) capítulos acompanham os passos de Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William S. Burroughs, enquanto o resto do livro, intitulado “Os Beats: perpectivas”, passa pela trajetória de poetas mais desconhecidos que os primeiros, como Lawrence Ferlinghetti e Michael McClure. Ao final também estão presentes outros pequenos mimos para o leitor, como os capítulos “Garotas beatnik” e “Jazz e poesia”, que ajudam a ilustrar a história do movimento.

Como é uma graphic novel colaborativa, os desenhos de cada história têm traços diferentes, pessoais de cada quadrinista. Esse é um dos pontos fortes da obra, que não se torna enfadonha ao longo do caminho e está sempre mudando de personagens e de visual.

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Os Beats é uma boa indicação para quem quer uma começar a entrar no mundo dos quadrinhos ou apenas que ler sobre a Geração Beat, de uma forma leve e divertida. Hoje, tem lugar marcado na minha estante de favoritos.

Uivo e outros poemas

uivo novoA leitura dramática do poema Uivo, realizada um ano antes de sua publicação, na Six Gallery de San Francisco, virou um dos marcos de início da contracultura americana e rendeu a Allen Ginsberg e seu editor um julgamento por referências pornográficas e a drogas ilícitas.

Apreendido pela polícia americana sob acusação de obscenidade, o livro Uivo e outros poemas é considerado uma das primeiras, e também principais, obras da Geração Beat. Lançado em 1956, conta com seis poemas que versam temas como sexualidade, repressão, religião e amor. Claro, também há inúmeras – e pesadas – críticas aos EUA, muito explícitas em América.

Uivo, o primeiro e mais longo poema, é uma enxurrada de aventuras vividas por Allen e os colegas beats. As viagens, amor livre e experiências alucinógenas do poeta são recriados por cenas fortes, construídas em ritmo tão rápido que soa raivoso. São pouco mais de dez páginas de versos longos, divididos em três partes, em que Ginsberg despeja sobre nós o seu descontentamento com o mundo e com as tradições.

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,/ arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa. / (…) que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica, / que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos” (Trecho de Uivo)

Em Sutra do Girassol e Transcrição de música de órgão, o beat mostra um lado espiritual. Já no nome podemos perceber a carga mística incorporada na poesia: Sutras são textos védicos religiosos ou filosóficos. Em ambos, as flores adquirem o caráter de companheiras do poeta solitário, juntamente com Jack Kerouac e as citações de William Blake.

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Ginsberg encontra Walt Whitman entre as prateleiras abarrotadas de produtos em Um Supermercado na Califórnia, fazendo referência ao seu ídolo. Um pequeno poema de duas almas solitárias e atormentadas que se encontram em sonho. Canção, que encerra a obra, é quase delicado, como um suspiro após um grito de sufoco. Doloroso e amargo, nos mostra o autor sob um prisma de solidão latente.

“O peso do mundo/ é o amor./ Sob o fardo/ da solidão,/ sob o fardo/ da insatisfação./ o peso/ o peso que carregamos/ é o amor.”
(Trecho de Canção)

Em pleno controle ideológico decorrente da Guerra Fria, o tom anticapitalista e a espontaneidade do texto de Allen foram mal aceitos pelos críticos conservadores. Porém, a rejeição dos acadêmicos apenas reforçou sua popularidade e caráter de porta-voz, ao lado de Kerouac, da juventude insatisfeita.

Seja por seu delírio e misticismo ou pela linguagem crua e despretensiosa, a poesia de Ginsberg, como anuncia em Sutra do Girassol, é como um sermão nascido para salvar a alma do próprio autor – e das pessoas comuns que elegeram Uivo e outros poemas (L&PM) como uma “bíblia” da desilusão com o mundo.

PS: Essa ediçãoda LP&M inclui também Kaddish e outros poemas e é comentada.

Atualização: para quem quer saber mais da história de Allen Ginsberg e seus companheiros, fiz uma resenha do graphic novel “Os Beats”. É só clicar aqui para ver ;)