Indicações #7

1. Os novos documentário e biografia sobre J.D. Salinger estão reavivando polêmicas sobre o autor de Apanhador no Campo de Centeio.

Para entender os motivos, vale a leitura de Who was J.D. Salinger?, do blog Page-Turner (New Yorker) , Film on Salinger claims more books are coming, do New York Times, e as resenhas do filme dde Shane Salerno dos sites Guardian e NYTimes.

2.  Para os fãs de teatro, entrou em cartaz em São Paulo a peça Estrada do Sul, inspirada no conto Autoestrada do sul, do argentino Júlio Cortázar. O espetáculo usa 18 carros como cenografia, de onde os espectadores podem assistir a peça.

3. Desenhos da Era do Jazz, do escritor americano William Faulkner, no Brain Pickings.

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Salinger e o behaviorismo

“Outros escritores também partem dos pormenores observados com precisão, mesmo fora do ‘anti-romance’, porém vão além de um mundo no qual tudo se congelou em objetos ou situações fixas. J.D. Salinger é um desses escritores. Também ele emprega o método behaviorista, retratando o comportamento das pessoas través de uma sequência de detalhes irrelevantes. Segue-se, aqui, uma passagem tomada ao acaso de Franny & Zooey:

Às dez e trinta de uma manhã de segunda -feira em novembro de 1955, Zooey Glass,um jovem de 25 anos, estava sentando em uma banheira transbordante…

Com base nesse mosaico de pormenores e gestos, servindo-se de pedaços de conversas e esboços de situações, Salinger cria um máximo de atmosfera e descobre aspectos novos da realidade psicológica e social. Suas estórias não têm comentários ou propaganda e são interessantes, prendem o leitor, talvez precisamente por essa razão. Em Salinger, a realidade é redescoberta por jovens entediados pelo mundo que os cerca e empenhados, de um modo ou de outro, na busca de um sentido para a vida. Nessa forma nova e extraordinariamente sutil de crítica social, a obra de Salinger tornava-se válida e bastante interessante, superando  de muito o behaviorismo do ‘anti-romance’. O mundo é visto através dos olhos de criaturas muito jovens ou de crianças: por isso, aparece como realidade inesperada e surpreendente e não como um sistema convencional circunscrito por frases feitas.”

– Trecho de Necessidade da Arte (LTC), de Ernst Fischer

Uma pessoa difícil

Dizem que J. D. Salinger era chato. Um pesadelo para editores. Era avesso à publicidade e não queria que seus livros apresentassem orelha, foto do autor, frases de efeito ou seu nome na capa, tudo o que aumenta a propaganda e da mais visibilidade ao livro. Além de viver uma vida de reclusão em Cornish, New Hampshire, por mais de quarenta anos.

Em 1988, Roger Lathbury, dono de uma pequena editora de livros, escreveu uma carta a Salinger propondo a publicação de Hapworth 16, 1924, seu último conto. Por incrível que pareça, o autor de Apanhador no campo de centeio respondeu que iria considerar a oferta.

Oito anos se passaram até que o autor entrasse em contato novamente. Para deleite de Lathbury, ele aceitara a proposta – seguindo, obviamente, suas especificações exatas. A distribuição seria de poucos exemplares e teria preço fixo, para que as grandes cadeias de livrarias não tivessem descontos e, assim, interesse no livro.

Algumas conversas e encontros com Salinger se passaram para discutir a publicação, e tudo corria aparentemente bem. Porém o vazamento – por culpar do próprio Lathbury – da informação que Hapworth seria publicado trouxe uma enxurrada de repórteres a busca de informações, e enfureceu Salinger, que desistiu do projeto.

Para quem quiser ler o testemunho de Roger Lathbury, achei uma matéria muito boa publicada por ele mesmo na NY Magazine (é velhinha, de abril de 2010, mas vale muito a pena). É só clicar aqui.

A história demonstra como Salinger era rigoroso em suas vontades e na questão do isolamento. Mas para mim, uma informação que passa quase desapercebida no texto é a mais preciosa: Salinger comentou com Lathbury que estava trabalhando em algumas histórias da família Glass (protagonistas de Franny & ZooeyCarpenteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour: uma apresentação; além de alguns contos de Nove Estórias). Claro, o editor se contentou com a informação e não perguntou nada, mas são famosos os boatos de que o autor teria terminado dezenas de livros antes de morrer. Como fã, espero muito que sim. 

Melhores inícios

Tem livros que são tão bons, que começam ótimos já desde as primeiras linhas. Eles te conquistam de primeira e você não os larga mais.

Pensando nisso, fiz a minha listinha do que considero as aberturas mais incríveis que já li, em ordem de preferência.

5. Medo e Delírio em Las Vegas – Hunter S. Thompson

 “Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito…”

4. Ana Karênina – Liev Tolstói

“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”

3. Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

“Se querem realmente saber a meu respeito, a primeira coisa que provavelmente vão querer saber é onde nasci, e como foi a desgraçada da minha infância, o que meus pais faziam antes de me terem, e toda aquela baboseira tipo David Copperfield, mas não estou afim disso, se querem saber a verdade.”

2. A Metamorfose – Franz Kafka

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

1. Lolita – Vladimir Nabokov

“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.”