Indicações #8 (Calendário)

A semana vai ser bem agitada para quem curte literatura e mora em São Paulo:

1. Hoje começa a Pauliceia Literária, com uma programação de palestras que vai até domingo (22). Entre os convidados estão o mexicano Juan Pablo Villalobos, e os brasileiros Ana Maria Machado e Michel Laub.

2. Nos dias 20, 21 e 22 acontecem também as palestras, bate-papos e shows da FLAP, em diversos lugares espalhados da cidade, como a Casa das Rosas e a Biblioteca Mário de Andrade.

3. No final de semana também acontece o Fantasticon, simpósio de literatura fantástica que acontece na Biblioteca Viriato Corrêa. O evento promove oficinas e palestras, e tem entre os convidados Ignácio de Loyola Brandão, Andrea del Fuego e Marcelino Freire.

Quem for vai me encontrar lá, principalmente nas palestras sobre realismo fantástico.

Bom fim de semana pra todos :)

Indicações #3 (Ou, sobre o fim do Google Reader)

Já que o Google resolveu acabar com um dos seus melhores serviços, o  Google Reader, aproveitei minha mudança para outro leitor de feed e resgatei alguns posts e reportagens que estavam salvos como favoritos. Espero que gostem!

Como escrever uma boa resenha má, do Sérgio Rodrigues, no Todoprosa

Brazil: a user’s guide (em inglês), escrito pelo mexicano Juan Pablo Villalobos (autor de Festa no Covil), no site da revista Granta

Hypochondria – An inside look (em inglês), texto do Woody Allen para o The New York Times

La memoria ajena (em espanhol), no site da revista colombiana El Malpensante, em que o argentino Ricardo Piglia fala sobre seu conterrâneo Jorge Luis Borges

In theory: the unread and the unreadable, escrito por Andrew Gallix, no Guardian, e My new year’s resolution: read fewer books, por Michael Bourne no site The Millions, ambos sobre a nossa mania incansável de querer ler todos os livros do mundo (os dois em inglês)

O trompete-vocal de Cortázar, no blog da Cosac Naify, por Daniel Benevides

O inimigo número um de Macondo, em que a Raquel Cozer fala sobre o escritor André Caicedo, no Biblioteca de Raquel

Revistas literárias: Rascunho, veterana aos 12, entrevista que a Josélia Aguiar fez com Rogério Pereira (editor do Rascunho), no Livros Etc

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Ufa! Bastante coisa, não?

Ah, para quem está procurando um leitor de feed novo, estou usando o The Old Reader e estou gostando bastante.

Sobre a inocência

Li Festa no Covil (Companhia das Letras), de Juan Pablo Villalobos, sem saber o que esperar. O que foi ótimo, porque me surpreendeu muito (no melhor dos sentidos, com certeza). Não vim aqui fazer uma resenha, mas sim uma espécie de comentário da obra, pois  não resisti, claro. A leitura foi boa demais para não merecer menção no blog.

No livro, o menino Tochtli nos conta sua história, mais como uma conversa que uma narração – talvez pela inocência e pela sinceridade do discurso dele, bem característico de uma criança. Filho de um chefe do tráfico mexicano, Yolcault “El Rey”, ele é criado como um príncipe, em um palácio afastado. E é com essas verdades que o garoto segue sua vida.

Com essas verdades e com algumas manias. Ou vícios. Ou apenas hábitos de alguém solitário. Ele ama olhar palavras no dicionário.  Adora particularmente as palavras “patético”, “nefasto”, “pulcro”, “sórdido” e “fulminante”. Animais selvagens são seus bichos de estimação. Coleciona chapéus samurais, adora os franceses e, como gosta constantemente de afirmar, tem muito, mas muito, dinheiro.

Paul Smith também fala com o erre muito esquisito, mas não como os franceses, que parece que estão com dor de garganta de tanto cortar a cabeça dos reis. O erre do Paul Smith é de quem se acha grande coisa.

As poucas pessoas que conhece – 13 ou 14, por suas contas – não são capazes de eliminar sua solidão. E sua falta de entendimento das coisas, por mais que imperceptível que seja para ele, é desconcertantemente, comovente, e até fofa. Simpatizamos com o jovem Tochtli. Por isso o personagem de Villalobos me lembrou muito Charlie, jovem deprimido de As vantagens de ser invisível. Não só pela ingenuidade, mas também pelo desconcerto: por mais que tentem, não vão se adaptar a essa coisa louca chamada de mundo.

festa

O que prendeu muito meu interesse na edição do livro foi o ótimo posfácio de Adam Thirlwell. Tão bom em entender a obra de Juan Pablo Villalobos que separei um trecho para postar aqui:

Porque Tochtli possui algo similar ao conhecimento, embora não seja exatamente a mesma coisa — seu amor pelos hipopótamos anões da Libéria. E isso, no fim das contas, é um avanço. Talvez seja um futuro. E o leitor não falante do espanhol, mas habituado à literatura de língua inglesa, pode avaliar esse futuro tendo em mente um momento em miniatura neste livro em miniatura sobre como essa coisa chamada vida pode ser insignificante. No início da narrativa, Tochtli apresenta uma síntese fiel e implacável da ação de matar — um exercício involuntário de insensibilidade: “Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar”. O resto do romance funciona como uma confirmação dessa frase, mas uma confirmação que ganha a forma de negação: a insensibilidade se transforma em lamento. A superfície linguística opaca deste romance — tão limitada, tão inarticulada! — assume contornos de uma espécie de verdade.
Sim, uma coisa insensível, inocente, perturbada, opaca, devastada: isso, na minha opinião, é a grande invenção de Juan Pablo Villalobos neste espaço minúsculo e cômico; e é isso o que pode representar um futuro para uma literatura adequada — uma literatura adequada ao que anda acontecendo. E não só na América Latina.