As linhas da mão

Falei, no post anterior, sobre os tão complexos microcontos. Pois, um dos mestres de escrever em poucas linhas (mesmo que não sejam microcontos) é o argentino Julio Cortázar.

Muitos de seus textos não passam de uma ou duas páginas, e são de uma riqueza e um rigor primorosos, de causar inveja a muitos escritores. Inspirada por isso, vou deixar aqui um vídeo de animação (em espanhol) que recria As linhas da mão, conto presente em Histórias de Cronópios e Famas (Civilização Brasileira) – um prato cheio para quem gosta de histórias curtas -, e que tem a extensão, como vocês podem ver abaixo, de apenas um parágrafo curto.

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha cotinua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de nylon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) atinge o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.

Fonte do texto: Portal Vermelho

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Indicações #7

1. Os novos documentário e biografia sobre J.D. Salinger estão reavivando polêmicas sobre o autor de Apanhador no Campo de Centeio.

Para entender os motivos, vale a leitura de Who was J.D. Salinger?, do blog Page-Turner (New Yorker) , Film on Salinger claims more books are coming, do New York Times, e as resenhas do filme dde Shane Salerno dos sites Guardian e NYTimes.

2.  Para os fãs de teatro, entrou em cartaz em São Paulo a peça Estrada do Sul, inspirada no conto Autoestrada do sul, do argentino Júlio Cortázar. O espetáculo usa 18 carros como cenografia, de onde os espectadores podem assistir a peça.

3. Desenhos da Era do Jazz, do escritor americano William Faulkner, no Brain Pickings.

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Rayuela: edição comemorativa

Aproveitei que estava em Buenos Aires em meio às comemorações dos 50 anos de Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, para comprar a edição especial que a Alfaguara lançou por lá – e vim postar algumas fotos aqui no blog, para quem ainda não viu.

A obra, descrita pelo crítico Otto Maria Carpeaux como “um dos romances mais complexos e mais importantes deste século”, foi lançado em junho de 1963, em meio ao boom da literatura latino-americana.

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O especial dessa edição é a coleção de cartas, que  vão de 17 de dezembro de 1958 a 29 de outubro de 1972, nas quais Cortázar fala sobre o processo de elaboração do romance. Assim, podemos descobrir um pouco mais sobre o livro, mas também entender mais sobre seu autor.

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Achei a edição bem bonita, e tem a vantagem de ser o texto original, em espanhol, o que sempre proporciona uma experiência mais rica para o leitor.

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Pra quem gosta do autor argentino, vale  apena investir na edição. Lá em BAs, paguei cerca de 50 reais, então quem quiser encomendar aqui do Brasil tem que se preparar para desembolsar um pouco mais. Para quem quer saber mais, o El País fez um especial sobre Jogo da Amarelinha (clique aqui).

Lembrando também que ano que vem marca os 30 anos da morte de Cortázar (em fevereiro) e também o centenário de seu nascimento (em agosto), então mais homenagens e comemorações são esperadas em todo o mundo.

Uma inspiração?

Em Histórias de Cronópios e de Famas (Civilização Brasileira), de 1962, de Julio Cortázar:

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio.
Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se.
Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

Em Para te comer melhor (Alfa-Omega), de 1968, de Eduardo Gudiño Kieffer:

Está nublado, chove. Escuta-se o tipi tip tip tap das gotas suicidando-se contra os vidros da janela. Uma luz acizentada enfeia as paredes e a beira dos móveis. O mundo acordou frio, paco, cinzento.

Indicações #3 (Ou, sobre o fim do Google Reader)

Já que o Google resolveu acabar com um dos seus melhores serviços, o  Google Reader, aproveitei minha mudança para outro leitor de feed e resgatei alguns posts e reportagens que estavam salvos como favoritos. Espero que gostem!

Como escrever uma boa resenha má, do Sérgio Rodrigues, no Todoprosa

Brazil: a user’s guide (em inglês), escrito pelo mexicano Juan Pablo Villalobos (autor de Festa no Covil), no site da revista Granta

Hypochondria – An inside look (em inglês), texto do Woody Allen para o The New York Times

La memoria ajena (em espanhol), no site da revista colombiana El Malpensante, em que o argentino Ricardo Piglia fala sobre seu conterrâneo Jorge Luis Borges

In theory: the unread and the unreadable, escrito por Andrew Gallix, no Guardian, e My new year’s resolution: read fewer books, por Michael Bourne no site The Millions, ambos sobre a nossa mania incansável de querer ler todos os livros do mundo (os dois em inglês)

O trompete-vocal de Cortázar, no blog da Cosac Naify, por Daniel Benevides

O inimigo número um de Macondo, em que a Raquel Cozer fala sobre o escritor André Caicedo, no Biblioteca de Raquel

Revistas literárias: Rascunho, veterana aos 12, entrevista que a Josélia Aguiar fez com Rogério Pereira (editor do Rascunho), no Livros Etc

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Ufa! Bastante coisa, não?

Ah, para quem está procurando um leitor de feed novo, estou usando o The Old Reader e estou gostando bastante.