Olho mais azul

Claudia destrói bonecas. Bonecas de pele branca, cabelos loiros e olhos azuis. Bonecas que representam uma beleza que ela, suas irmãs e suas amigas nunca vão ter. E queria poder fazer o mesmo com meninas brancas.

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O que há por trás da confissão, mais uma reclamação raivosa, da menina de pele negra que sempre conviveu com o mesmo ideal de beleza, propagado pela sociedade americana aos quatro ventos, é a crítica central de Olho Mais Azul, romance da ganhadora do Nobel de Literatura de 1993 Toni Morrison. É com esse mesmo modelo de beleza na cabeça que Pecola Breedlove, menina também negra que vai morar com a família de Claudia após ser separada da família disfuncional, convive. Porém, de forma muito mais penetrante e cruel.

Pecola está grávida aos 13 anos, resultado do abuso do próprio pai, Cholly. Claudia e sua irmã Frieda então decidem juntar seu dinheiro para comprar sementes, acreditando que se florecessem, o filho de Pecola sobreviveria ao parto. O início do livro conquista exatamente por essa inocência das irmãs, que contam como acreditavam que se plantassem as calêndulas, e dissessem as palavras certas sobre elas, a  mágica ocorreria e tudo ficaria bem. Mas as calêndulas não florecem, e nada está bem.

Em boa parte do livro, principalmente quando Claudia narra em primeira pessoa, percebemos a fala sincera de uma criança. Os significados são levados ao pé da letra, e o discurso adquire uma fragilidade conquistadora. Quando conta que ficou doente, por exemplo, Claudia lembra que quando pensa em outono, “pensa em alguém cujas mãos não querem que ela morra”. A linguagem infantil e o poder que Morrison dá as meninas de dizerem tudo o que pensam – afinal, são crianças – é um dos trunfos do livro.

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O feio aparece frequentemente como caracterização. A família Breedlove, por exemplo, é de uma “feiúra única”, particular. Pecola é invisível aos adultos brancos, como seu vizinho, que parece nem enxergar a menina, uma “total ausência de reconhecimento humano”. Ela interpreta essa idiferença como causa de sua pele negra: “And it is the blackness that accounts for, that creates, the vacuum edged with distance in white eyes”. Mas tudo ficaria bem se tivesse olhos azuis.  Ela concetra seu poder de transformação, na verdade transformação dos outros em relação a ela, nos olhos.

Um dos destaques do livro é a carta de Elihue Whitcomb, um advinho pedófilo a quem Pecola procura para conseguir olhos azuis, escreve para Deus. Ele tenta se defender de seus crimes, às vezes nos lembrando Humbert, do romance Lolita (Vladimir Nabokov):

Do you know what she came for? Blue eyes. (…) She must have asked you for them for a very long time, and you hadn’t replied. (…) That’s why I changed the little black girl’s eyes for her, and I didn’t touch her; not a finger did I lay on her. But I gave her those blue eyes she wanted. Not for pleasure, and not for money. I did what You did not, could not, would not do: I looked at that ugly little black girl, and I loved her. I played You. And it was a very good show! I, I have caused a miracle.

Toni Morrison começa sua crítica à hegemonia de um estereótipo de beleza pela fase inicial da educação das crianças: os capítulos do romance são retirados do livro Dick e Jane, personagens principais de livros que ensinavam as crianças a ler. Ou seja, ao aprender a ler, as crianças americanas já se deparavam com a estética branca.

Em muitos trechos, Morrison utiliza negativas em sequência, para afirmar o que os personagens não são. Assim, acabamos simpatizando com – ou apenas não condenando – os “marginais” do romance, como as prostitutas Poland e China, e o pai de Pecola, Cholly. Em alguns momentos, ao dar voz a ele – que canaliza sua raiva diretamente à esposa e aos homens brancos – parece que a autora quer nos deixar em dúvida sobre se condená-lo, não estaríamos sendo superficiais demais.

He [Cholly], at any rate, was the one who loved her enough to touch her, envelop her, give something of himself to her. But his touch was fatal, and the something he gave her filled the matrix of her agony with death. Love is never any better than the lover. Wicked people love wickedlykly, violent  people love violently, weak people love weakly stupid people love spudly, but the love of a free man is never safe. There is no gift for the beloved. The lover alone possesses his gift of love. The loved one is shorn, neutralized, frozen in the glare of the lover’s inward eye.

Postei semana passada uma entrevista com Toni Morrison, em que comenta sua personagem Pecola (é só clicar aqui para ver). Os trechos estão em inglês porque li na língua original, e infelizmente não achei a tradução para colocar aqui. Esta foi uma das resenhas mais difíceis que fiz, talvez pelo fato de que li e estudei muito esse livro, e a familiaridade muitas vezes dificulta o processo de análise crítica.  Já li outros livros da autora, mas Olho mais azul é o meu favorito, e acredito que vai continuar sendo por um bom tempo.

Uma entrevista com Toni Morrison

Hoje não tem resenha, mas achei um entrevista bem legal (em inglês) com a americana Toni Morrison, autora de Olho mais azul. A escritora fala sobre suas personagens, sobre a vida e sobre ser mãe.

As pessoas dizem “eu não pedi pra nascer”, mas eu acho que a gente pediu sim. E é por isso que estamos aqui. Nós estamos aqui e precisamos fazer algo nutritivo que repeitaremos antes de partirmos. Nós devemos. É mais interessante, complicado, intelectual e moralmente exigente amar alguém. Cuidar de alguém. Fazer outra pessoa se sentir bem. Agora, os perigos de fazer isso são os perigos de se se colocar como mártir, aquele sem o qual nada pode ser feito.

Atualização: clique aqui para ler a resenha de Olho mais azul.