Uma pequena nota

Apesar da minha paixão por Para te comer melhor (resenha aqui, e um trecho aqui), já há muito me conformei com a falta de reconhecimento da crítica brasileira com o autor, Eduardo Gudiño Kieffer. Ainda acredito nisso, mas a descoberta de um pequeno verbete sobre o escritor argentino em História da Literatura Hispano-americana, da crítica Bella Jozef, me deu uma alegria imensa. Kieffer está lá, ao lado de García Márquez, Vargas Llosa e outros pilares da literatura latina.

EDUARDO GUDIÑO KIEFFER (1932) – Em Para Comerte Mejor (1968), com sentido da narração, recria todas as possibilidades de uma linguagem expressiva. Manifesta, ao mesmo tempo, humor negro e ternura pelos destinos dos seres que desfilam em suas páginas e darão humanidade a este romance de estrutura aberta. Em Guía de Pecadores (1972), numa linguagem que deve muito a Quevedo, o grotesco e a farsa são trabalhados pela imaginação criadora do autor. Seus malabarismos técnicos, riqueza de linguagem e o ressurgimento do gênero picaresco fazem com que a realidade mais profunda se converta em algo irreal e grotesco neste caleidoscópio alucinante.

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Uma inspiração?

Em Histórias de Cronópios e de Famas (Civilização Brasileira), de 1962, de Julio Cortázar:

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio.
Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se.
Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

Em Para te comer melhor (Alfa-Omega), de 1968, de Eduardo Gudiño Kieffer:

Está nublado, chove. Escuta-se o tipi tip tip tap das gotas suicidando-se contra os vidros da janela. Uma luz acizentada enfeia as paredes e a beira dos móveis. O mundo acordou frio, paco, cinzento.

Sobre a cor das palavras

“E me acompanham os livros , os que gritam ‘levanta-te’. (…) Swift com palavras pequenininhas que têm braços e pernas e correm rapidamente e formam pirâmides de equilibristas; Rimbaud com palavras vermelhas, verdes, azuis (cor, nada mais que cor); Ambrose Bierce com palavras cheias de espinhas, de arestas, de fios, de unhas, de aspas; Lewis Carrol com palavras-valise, palavras-surpresa; Macedonio com palavras-brinde e palavras-prólogo e palavras-dúvida; Cortázar com palavras-espelho e palavras-suicidas; Elliot com palavras-grito e palavras-agonia…”

(Trecho de Para te comer melhor, de Eduardo Gudiño Kieffer)

É exatamente assim que imagino as palavras. Em especial as de Rimbaud: vermelhas, corrosivas, escandalosas. Quando me deparei com esse trecho, a identificação foi tão forte que nunca mais esqueci. Toda vez que lia Uma Temporada no Inferno era como se as palavras surgissem rubras em um fundo escuro, destacadas na escuridão.

É o poder da literatura, com suas palavras coloridas…

Para Te Comer Melhor

Há alguns anos, encontrei duas caixas de livros abarrotadas no depósito aqui de casa. Quase um tesouro para uma menina com então 15 anos. Eram livros antigos dos meus pais, tão cheios de pó e desarrumados que não ganharam lugar nas prateleiras da sala. Tirei mais de trinta obras daquele esquecimento, e li uma por uma. E, graças a esse achado, descobri um dos que meus livros favoritos.

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Para Te Comer Melhor (Alfa-Omega) não é tão reconhecido quanto merece. Nunca conheci alguém da minha geração o tenha lido. Uma pena. E, infelizmente, não tive acesso a outros livros do autor, o argentino Eduardo Gudiño Kieffer. Outra pena. Considero esse o melhor livro para indicar nessa primeira resenha do blog.

Desde o título,  Kieffer  provoca o leitor. Para Te Comer Melhor desperta curiosidade e não faz feio ao desfazê-la: enquanto o verdadeiro sentido da frase vai se revelando, somos apresentados à história de Sebástian, um artista de 24 anos afligido pela incompreensão do mundo a seu redor.

Porque sabia (ou porque não sabia) que tudo estava destinado a terminar assim; porque pensava que escrever não valia a pena, e supôs que Merdalim e Merdalhão sobreviveriam apesar de tudo; porque o mundo foi e será uma porcaira, já o sei (quem não sabe), porém vale mais vivê-lo esculhambado e tudo como é, que pensá-lo aristotelicamente, kantinianamente, sartreanamente. Ou cantá-lo em letras de tango. E morrer é a melhor maneira quando alguém se dá o gosto de escolher o momento e a forma;

A partir de seu suicídio, os últimos anos de vida do protagonista são remontados pelo olhar dos que conviviam com ele.  Ana, “Ana palíndroma”, é sensível e delicada. Sua única culpa é amar demais e não ser correspondida, pelo menos não na medida certa. Ela não pode evitar a raiva que a toma quando se depara com a barreira de indiferença de Sebástian, constantemente presente. Mas o que pode fazer? Se manter fiel e esperar pela atenção dele, que a atravessa com o gosto de esmola, é tudo o que encontra.

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Já Merdalim e Merdalhão, seus dois companheiros imaginários, expõem suas inquietações e conflitos. O bem e o mal, presentes em todo ser humano, são personificados por Sebástian. São muitos, também, os diálogos com Cecília, a presença feminina em sua consciência, companheira idealizada e irreal. Esses momentos de aparente loucura, entretanto, trazem lucidez ao leitor, que passa a compreender que tipo de tormentos essas personagens internas representam.

Merdalhão me iniciava na masturbação, ai, docemente, enquanto Merdalim gritava por um Anjo da Guarda que estava sempre de folga. Merdalhão me fazia fugir da fé e da moral; Merdalim me obrigava a reencontrá-las com ataques de arrependimento e misticismo que por pouco não se transformavam em vocação religiosa.

O livro é cheio de sinestesias, o que cria imagens inusitadas e dá colorido e um quê de confusão à vida do jovem “corroído, doente, (…) já quase morto de palavras”. As cenas estão sempre mudando de direção e comando. Vão dos pensamentos do protagonista, registrados em seu caderno, para seus amigos.

Robbie e Flor de Irupê são comuns, retratos de como duas almas, aparentemente opostas, podem se encontrar em meio à vida cotidiana da cidade grande. O rapaz “de cabelos desbotados olhos azuis pele dourada” e a moça do interior da Argentina que, após destruição de sua casa por uma enchente, vai tentar o sucesso como cantora na Buenos Aires de “rios asfaltados”. Ela conquista pela fala simples e ingênua – quase como a de uma criança – que dá real intenção a todas as frases e traz um toque de leveza ao enredo.

Flor de Irupê caiu em Robbie e ficou flutuando para sempre em Robbie, coisa que é bastante lógica se se pensa que afinal de contas Flor de Irupê era só isso, uma Flor de Irupê, e que Robbie era uma espécie de terreno úmido onde certas plantas podem crescer, desenvolver-se e adquirir sua plenitude.

As intervenções de Cabeleira, personagem misterioso que parece não se encaixar na trama, nos deixam inqueitos. Sua função no enredo é uma das grandes – e delíciosas – descobertas que fazemos. Aliás, Para te comer melhor é isso: um livro de descobertas. O título, os personagens, a história, a construção do texto. Somos instigados do começo ao fim. Sebastian poderia ser qualquer um de nós, à exceção que teve a coragem – ou covardia? – de se matar. Seus medos soam palpáveis, facilmente compartilhados por qualquer pessoa que já tenha se sentido sufocada pela realidade.