A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.

Duas pequenas intervenções

EM TEMPO

“Com licença, posso meter um pouco a minha colher no assunto? Mas esse tão badalado realismo fantástico existiu sempre: é a poesia.”

OS EXCITANTES E A SATURAÇÃO

“Antes era a ponta do pé, nos primeiros tempos do romantismo; depois, os braços, de que o velho Machado não tirava os olhos. Agora, que está tudo à mostra, ninguém nota. O mesmo se dá com a literatura, onde tudo se nomeia e nada se diz. E, como a imaginação é que excita e, faltando ela, tudo falta, veio o pulo, o barulho, o berro para substituir a dança, a música, o canto. Em todo o caso, é de se esperar que não se esteja regredindo. Apenas uma pausa. Talvez uma necessária sonoterapia na arte de sentir e de expressar-se.”

– Ambos os trechos são retirados de A Vaca e o Hipogrifo, de Mario Quintana