Flaubert versus Balzac

James Wood, no ótimo Como funciona a ficção (Cosac Naify), opina – em uma nota de rodapé com um tamanho digno de David Foster Wallace -, sobre qual dos dois  gigantes da literatura, afinal, seria o francês “fundador da narrativa moderna de ficção”.

Há três diferenças entre o realismo de Balzac e o realismo de Flaubert: primeiro, Balzac observa bastante em sua literatura, é claro, mas a ênfase sempre recai mais na abundância do que numa seleção cerrada dos detalhes. Segundo, Balzac não tem nenhum compromisso especial com o estilo indireto livre nem com a impessoalidade do autor e se sente livre para se intromenter como autor/ narrador, com ensaios, digressões e informações sobre dados sociais. (Nesse aspecto, ele parece decididamente setecentista.) Terceiro, e decorrendo das duas diferenças anteriores: ele não tem nenhum interesse tipicamente flaubertiano em apagar a questão de quem é que está vendo tudo. Por tais razões, considero Flaubert, e não Balzac, o verdadeiro fundador da narrativa moderna de ficção.

O autor de Madame Bovary e A educação sentimental seria, segundo Wood, um “realista e um estilista”. O primeiro quer registrar tudo o que vê (à maneira balzaquiana), e o segundo “quer disciplinar essa enxurrada de detalhes, convertê-los em frases e imagens impecáveis”.

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O olfato de Gabito

Como uma boa leitora da obra do colombiano Gabriel García Márquez, sempre achei curioso o gosto do autor por cheiros, odores, aromas e perfumes. Um sentido muitas vezes esquecido por nós, humanos, ganha importância em suas histórias e se mostra revelador na descrição de ambientes e personagens.

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Márquez abre Do amor e outros demônios, por exemplo, relacionando um cheiro aparentemente tão banal com um sentido nem tão convencional:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Em A Revoada, seu primeiro livro, publicado em 1955, são muitas as referências a odores. Grande parte delas se relaciona ao cheiro de putrefação do cadáver do Doutor após seu suicídio, acontecimento que norteia o livro, e o cheiro de podridão que a companhia bananeira deixou no povoado, com sua revoada de destruição. Mas uma, longe disso, tem um significado especial, mais amplo que a simples constatação de um cheiro. É uma lembrança:

Não há em toda casa um só cheiro que eu não reconheça. Quando me deixam sozinho no corredor, fecho os olhos, estendo os braços e caminho. Penso: “Quando sentir um cheiro de rum canforado, estarei no quarto do meu avô.” (…) Continuo caminhando e sinto o cheiro no mesmo instante em que escuto a voz de minha mãe, cantando no quarto. Então sinto o cheiro de alcatrão e de naftalina.
(…)
Essa noite, quando eu começava a dormir, senti um cheiro que não existe em nenhum dos outros quartos da casa. Era um cheiro forte e morno, como se alguém tivesse mexido num jasmineiro.
(…)
– Está sentindo? É como se houvesse jasmins em alguma parte.
Então ela [Ada] disse:
– É o cheiro dos jasmins que durante nove anos ficaram junto do muro.
Sentei-me em suas pernas.
-Mas agora não há jasmins – disse. E ela disse:
–  Agora não. Mas há nove anos, quando você nasceu, havia um jasmineiro plantado junto à parede do pátio. De noite fazia calor e cheirava como está cheirando agora.

Ela remonta uma lembrança da casa de seus avós em Aracataca, como descreve em sua autobiografia Viver para contar. “Cataca”, como chama a cidade carinhosamente, cheirava a jasmins no tempo em que morou lá. Porém, quando retornou anos depois com sua mãe para vender a casa, não encontrou o aroma que definia o pequeno povoado, agora destruído pela partida da companhia bananeira.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma de jasmins, o amor.

E as semelhanças entre a cidade ficcional de Macondo e Aracataca não são à toa: no mesmo livro, Márquez nos conta como a pequena cidade dos avós inspirou a criação do povoado que estaria em três livros seus. Voltando ao olfato, o mais próximo que cheguei de uma explicação por essa fascinação veio também de Viver para contar. Nele, Márquez conta como sua educação formou essa sensibilidade:

O consolo foi que em Cataca tinham aberto naqueles anos a escola montessoriana, cujas professoras estimulavam os cinco sentidos através de exercícios práticos, e ensinavam a cantar. Aprendi a apreciar o olfato, cujo poder de evocações nostálgicas é arrasador. O paladar, que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa. Na teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos, mas quem os tenha vivido os compreenderá de imediato.

Assim, o olfato vira um poderoso instrumento descritivo nas mãos do escritor colombiano. Então a reunião de depoimentos feitos a seu amigo, Plinio Apuleyo Mendonza, publicada aqui no Brasil pela Record, não poderia ter um nome que combinasse mais com o autor: Cheiro de Goiaba.

Kafka e as deformidades

“Quando visitava uma exposição de pintura francesa numa galeria de Praga, Franz Kafka ficou diante de várias obras de Picasso, naturezas-mortas cubistas e alguns quadro pós-cubistas. Estava acompanhado na ocasião pelo jovem Gustav Janouch, escritor de quem foi mentor na adolescência e que deixou um dos mais importantes depoimentos sobre o poeta tcheco – Conversas com Kafka. Janouch comentou que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka respondeu que Picasso não pensava desse modo: ‘Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência’. Com uma pontaria de mestre, acrescentou que ‘a arte é um espelho que adianta, como um relógio’, sugerindo que Picasso refletia algo que um dia se tornaria lugar-comum da percepção -“não as nossas formas, mas as nossas deformidades’.”

– Trecho do ensaio Realismo de Kafka, no livro Lição de Kafka (Companhia das Letras), de Modesto Carone