Sobre as ruas

“Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, a analisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal, como sonharam um mundo melhor. William Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas de parte alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.

Rimbaud, nas Illuminations, teve a ideia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céu cinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockeard, já sonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que Gustavo Khan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernal sulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá de sindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia, serão como elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.”

– Trecho de Alma encantadora das ruas (Companhia das letras), de João do Rio

Anúncios

Sobre a cor das palavras

“E me acompanham os livros , os que gritam ‘levanta-te’. (…) Swift com palavras pequenininhas que têm braços e pernas e correm rapidamente e formam pirâmides de equilibristas; Rimbaud com palavras vermelhas, verdes, azuis (cor, nada mais que cor); Ambrose Bierce com palavras cheias de espinhas, de arestas, de fios, de unhas, de aspas; Lewis Carrol com palavras-valise, palavras-surpresa; Macedonio com palavras-brinde e palavras-prólogo e palavras-dúvida; Cortázar com palavras-espelho e palavras-suicidas; Elliot com palavras-grito e palavras-agonia…”

(Trecho de Para te comer melhor, de Eduardo Gudiño Kieffer)

É exatamente assim que imagino as palavras. Em especial as de Rimbaud: vermelhas, corrosivas, escandalosas. Quando me deparei com esse trecho, a identificação foi tão forte que nunca mais esqueci. Toda vez que lia Uma Temporada no Inferno era como se as palavras surgissem rubras em um fundo escuro, destacadas na escuridão.

É o poder da literatura, com suas palavras coloridas…

O pessimismo e a poesia

“O trabalho de assassinato, pois, é do que se trata, em breve chegará ao fim. Quando se sufoca a voz do poeta, a história perde o sentido e a ameaça escatológica irrompe como nova e terrível aurora nas consciências humanas. Somente agora, à beira do abismo, é possível compreender que “tudo o que nos ensinam é falso”.  A prova dessa afirmação devastadora está aí, visível, todo dia em toda parte: no campo de batalha, no laboratório, na fábrica, na imprensa, na escola, na igreja. Vivemos inteiramente no passado, alimentados por pensamentos estéreis, crenças obsoletas, ciências mortas. E é o passado que nos devora, não o futuro. O futuro sempre foi e sempre será do poeta.”

– Trecho de A hora dos assassinos – um estudo sobre Rimbaud (L&PM), de Henry Miller

Clique aqui para ler a resenha.

A hora dos assassinos

“Rimbaud foi um suicida vivo”. O diagnóstico de Henry Miller sobre o poeta do século XIX faz jus ao jovem inquieto que começou aos dez anos na literatura, viveu uma vida de excessos e morreu também muito precocemente, aos 37 anos.

rimbaudnovo

A Hora dos Assassinos, publicado em 1956, é mais que um estudo crítico de Miller sobre o francês. É uma identificação. Arthur Rimbaud foi um sonhador. Um rebelde boêmio que se entregou à vida e com ela se decepcionou. Viajou pelo mundo sob efeito de absinto e haxixe, virou traficante de armas, passou Uma Temporada no Inferno e retornou para nos narrar a experiência.

Miller, por sua vez, era subversivo e foi enfaticamente tachado de pornográfico. Trópico de Câncer, sua obra mais famosa, de 1934, foi banida em diversos países sob a acusação de obscenidade. Foi, em muitos sentidos, tão sonhador quanto seu ídolo e também experimentou o desconcerto com o mundo. O americano conheceu os versos de Rimbaud quando já adulto, e os recebeu com “o impacto de um tiro”.

O livro, que nasceu de uma tentativa falha de traduiz Uma Temporada no Inferno, exalta o poeta destacando a importância de sua obra para a literatura ocidental. Segundo o escritor, os trabalhos de Rimbaud não foram devidamente reconhecidos pela História. Por seu comportamento nada convencional, o jovem rebelde ficou marginalizado e sua poesia desmerecida. Miller se identifica com essa depreciação sofrida por ele e descobre no ídolo fraquezas e dúvidas que os aproximam.

Só agora se começa a compreender o que Rimbaud fez, não só pela poesia, mas pela linguagem. E isso, a meu ver, mais por leitores que por escritores. Ao menos em nosso país. Quase todos os poetas franceses modernos foram influenciados por ele. E de fato, pode-se dizer que a poesia francesa contemporânea tudo lhe deve. Até hoje, porém, ninguém o superou em ousadia e invenção.
(…)
Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta corações humanos, que faça borbulhar o sangue.

Dividido em duas partes, “Analogia, afinidades, correlações e repercussões”, e “Quando é que os anjos deixam de se assemelhar?”, o livro explora ao extremo esse caráter de “maldito” compartilhado pelos dois. Mais ainda, Miller vê no poeta um espelho seu.

À medida que a identificação se acentua, o livro se transforma em uma divagação, um monólogo quase sem pausas. Vê em comum a “qualidade confessional” de ambos, o gosto pela linguagem, pela música, e a incapacidade de adaptação a qualquer lugar, o “desenraizamento”.

As reflexões do autor sobre episódios da vida de Rimbaud se misturam a relatos de sua própria, deixando o fluxo de pensamentos se tornar cada vez mais intenso. Miller dedica boa parte do estudo para refletir sobre os anos finais de vida do francês e ao seu ato último, o suicídio. E coube também ressaltar as diferenças entre o escritor e seu ídolo.

Rimbaud trocou a literatura pela vida; fiz o contrário. Ele fugiu das quimeras que tinha criado; eu as aceitei. Temperado pela loucura e desperdício da mera experiência, dei um basta e concentrei minhas energias na criação. Mergulhei no ato de escrever com o mesmo fervor e entusiasmo com que mergulhara na vida.

Sincero e cativante, o livro A Hora dos Assassinos (L&PM) também cumpre um papel que seu autor jamais imaginou: ao mesmo tempo em que revela traços autobiográficos de Henry Miller, ultrapassa a vã tentativa de compreender a temática poética do francês e sua vida perturbada, e se torna um rico e íntimo relato de apego ao enfant terrible que tornou a poesia “perigosa demais”.