LS no I Encontro de Blogs de Letras

Ontem (11/12) o Leitura Sabática participou do I Encontro de Blogs de Letras, que aconteceu na Livraria da Vila, em Pinheiros. O evento foi promovido pelo Publishnews em parceria com o Pavablog e o Grupo Editorial Record.

Além de comidinhas e muita gente legal – como José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti, e o Fabio, do Dito pelo Maldito -, o escritor Santiago Nazarian esteve presente e conversou um pouco com os blogueiros sobre sua carreira e o relançamento de seu quarto livro Mastigando Humanos.

encontro

Santiago Nazarian (esq.) e Sérgio Pavarini (dir.)

Nazarian venceu o Prêmio  Fundação Conrado Wessel de Literatura com Olívio, seu primeiro romance publicado, e em 2007 foi eleito um dos jovens escritores mais importantes da América Latina pelo Hay Festival de Bogotá. No encontro, falou da experiência de representar o Brasil nas feiras de livros internacionais – recentemente esteve na Feira de Guadalajara, e conta tudo o que aconteceu por lá em seu blog Jardim Bizarro -, além de discutir a dificuldade de os críticos rotularem sua literatura, o status de escritor alternativo e muito mais.

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Tudo na vida vira poeirinha…

Tenho lido muita poesia, principalmente latino-americana. Me ajuda a esfriar a cabeça enquanto resolvo os últimos detalhes da vida acadêmica e a descontrair enquanto termino a leitura de Moby Dick.

Para marcar a volta do blog à rotina, separei quatro poemas de três poetas brasileiros contemporâneos que adoro.

Para trazer um pouquinho de encanto pra esta sexta-feira. :)

MAQUETE

o déficit de atenção
da sala passa correndo
vô soprá, vô soprá

o cdf diz cuidado jairo
a feira de ciências
é amanhã

vô soprá, vô soprá
fffuuu meu sopro
de avião fffuuu

lá se vai nosso dez
em estudos sociais
e agora jairo

qual é a moral
da história
diz a professora

tudo na vida vira poeirinha
fessora poeirinha em alto
mar meu pai que disse.

– Beber, em Rua da Padaria (Record)
 

MINAS

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais

– Ana Martins Marques, retirado do site da revista Piauí

A MINHA PESSOA

Só tem

Serve?

PRAIAS VIZINHAS

Vocês certamente se conhecem
e talvez até se admirem

– Francisco Alvim, em O Metro Nenhum (Companhia das Letras)

metro

A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.

O olfato de Gabito

Como uma boa leitora da obra do colombiano Gabriel García Márquez, sempre achei curioso o gosto do autor por cheiros, odores, aromas e perfumes. Um sentido muitas vezes esquecido por nós, humanos, ganha importância em suas histórias e se mostra revelador na descrição de ambientes e personagens.

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Márquez abre Do amor e outros demônios, por exemplo, relacionando um cheiro aparentemente tão banal com um sentido nem tão convencional:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Em A Revoada, seu primeiro livro, publicado em 1955, são muitas as referências a odores. Grande parte delas se relaciona ao cheiro de putrefação do cadáver do Doutor após seu suicídio, acontecimento que norteia o livro, e o cheiro de podridão que a companhia bananeira deixou no povoado, com sua revoada de destruição. Mas uma, longe disso, tem um significado especial, mais amplo que a simples constatação de um cheiro. É uma lembrança:

Não há em toda casa um só cheiro que eu não reconheça. Quando me deixam sozinho no corredor, fecho os olhos, estendo os braços e caminho. Penso: “Quando sentir um cheiro de rum canforado, estarei no quarto do meu avô.” (…) Continuo caminhando e sinto o cheiro no mesmo instante em que escuto a voz de minha mãe, cantando no quarto. Então sinto o cheiro de alcatrão e de naftalina.
(…)
Essa noite, quando eu começava a dormir, senti um cheiro que não existe em nenhum dos outros quartos da casa. Era um cheiro forte e morno, como se alguém tivesse mexido num jasmineiro.
(…)
– Está sentindo? É como se houvesse jasmins em alguma parte.
Então ela [Ada] disse:
– É o cheiro dos jasmins que durante nove anos ficaram junto do muro.
Sentei-me em suas pernas.
-Mas agora não há jasmins – disse. E ela disse:
–  Agora não. Mas há nove anos, quando você nasceu, havia um jasmineiro plantado junto à parede do pátio. De noite fazia calor e cheirava como está cheirando agora.

Ela remonta uma lembrança da casa de seus avós em Aracataca, como descreve em sua autobiografia Viver para contar. “Cataca”, como chama a cidade carinhosamente, cheirava a jasmins no tempo em que morou lá. Porém, quando retornou anos depois com sua mãe para vender a casa, não encontrou o aroma que definia o pequeno povoado, agora destruído pela partida da companhia bananeira.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma de jasmins, o amor.

E as semelhanças entre a cidade ficcional de Macondo e Aracataca não são à toa: no mesmo livro, Márquez nos conta como a pequena cidade dos avós inspirou a criação do povoado que estaria em três livros seus. Voltando ao olfato, o mais próximo que cheguei de uma explicação por essa fascinação veio também de Viver para contar. Nele, Márquez conta como sua educação formou essa sensibilidade:

O consolo foi que em Cataca tinham aberto naqueles anos a escola montessoriana, cujas professoras estimulavam os cinco sentidos através de exercícios práticos, e ensinavam a cantar. Aprendi a apreciar o olfato, cujo poder de evocações nostálgicas é arrasador. O paladar, que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa. Na teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos, mas quem os tenha vivido os compreenderá de imediato.

Assim, o olfato vira um poderoso instrumento descritivo nas mãos do escritor colombiano. Então a reunião de depoimentos feitos a seu amigo, Plinio Apuleyo Mendonza, publicada aqui no Brasil pela Record, não poderia ter um nome que combinasse mais com o autor: Cheiro de Goiaba.