A vida inspira a arte

Que a cidade mística e fictícia de Macondo, onde se passam os Cem Anos de Solidão da família Buendía, é inspirada na cidade natal de Gabriel García Márquez, Aracataca, é um fato sabido. O que não é tão disseminado é o fato de que Gabo também se inspirou em sua família para criar as histórias que emocionam em sua prosa.

É o exemplo da trajetória de amor de seus pais, que virou o romance Amor nos tempos do cólera e serviu de matéria-prima para muitas outras cenas dos livros do autor colombiano. Tudo começa quando Luisa Satiago, sua mãe, se apaixona pelo telegrafista da cidade, Gabriel Elísio, dando início a um amor cheio de curvas e complicações. Em sua autobiografia, Viver para contar, o escritor explica:

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi “La Hojarasca” [A Revoada], meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que finalmente decidi usar essa memória em “O amor nos tempos do cólera”, eu, mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que ela nem ele conseguiram me fizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com as amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com sua boa pinta. “Vamos nos casa com ele”, cantaram em estribilho ao compasso de palmas.

O encontro no velório, aliás, é repetido em A Revoada, mas no lugar dos pais de García Márquez, seus personagens Isabel e Martín se conhecem, e é para o forasteiro bonito que as amigas cantam “Vamos nos casar com ele” – o que, de fato, acontece nos dois mundos, real e fictício.

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Para um novo ano

Sei que é clichê fazer esses apanhados de livros para encerrar o ano, mas não resisti à fazer o meu! 2012 termina com um total de 39 obras lidas: algumas simples e descomplicadas, enredos leves e pouco aprofundados; outras, herméticas e minuciosas. E todas valeram a pena, cada uma à sua maneira.

anonovo

Comecei janeiro com Nemesis, de Philip Roth e fui até a Batismo de Fogo, do Vargas Llosa. Me encantei com o Livro de Areia, do Jorge Luis Borges, e as Intermitências da Morte, de Saramago.

Me surpreendi especialmente com A Vida de Pi, de Yann Martel, emprestado por uma amiga querida. “Esse livro vai mudar a sua vida”, disse ela ao me entregá-lo. Não foi para tanto, mas realmente me prendeu até suas últimas palavras.

Amei os mistérios de Aura, do mexicano Carlos Fuentes, um dos maiores escritores fantásticos da América Latina. E comecei minha jornada adentrando a extensa obra de Gabriel García Márquez, tema do meu TCC, com Amor nos Tempos do Cólera e  A triste história de Erêndira e sua avó desalmada.

Por fim, passei por clássicos como Anna Karenina, de Tolstói, a Odisséia, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes, e Esperando Godot, de Samuel Beckett – sendo esse último um dos top 3 do ano, com toda a certeza.

Vou viajar e espero voltar com a resenha pronta de Precisamos Falar Sobre Kevin, que vai ficar para a próximo balanço, e muitas outras novidades aqui para o blog. Um ótimo ano novo para todos! :)